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Just My Imagination: Zanele Muholi e Ayogu Kingsley no HANGAR

“Each day through my window I watch her as she passes by

I say to myself you’re such a lucky guy

To have a girl like her is truly a dream come true

Out of all the fellows in the world she belongs to me

But it was just my imagination

Runnin’ away with me

It was just my imagination runnin’ away with me”[1]

 

Assim começa a música que dá nome à exposição Just My Imagination (Running Away with Me), da banda americana de Soul, The Temptation. Narrada por um homem que imagina um relacionamento com a mulher que ama, esta canção fantasia sobre a esperança de viver uma vida familiar simples e tranquilha. A música surge numa nova era de liberdade e expressão artística para os artistas Negros, proporcionada pelas lutas pelas Liberdades Civis dos anos sessenta, nos Estados Unidos, e pelo movimento pela independência que se alastrou no continente africano. Nos anos setenta, os artistas Negros sentiram liberdade para produzir objetos artísticos que “não estavam enraizados nas lutas, mas sim na alegria, no amor, na diversão, e na família Negra, sem deixar de abordar, de modo subtil, as injustiças sociais a partir de dentro”[2]. É a partir desta premissa que se desenrola a exposição Just My Imagination (Running Away with Me). Com curadoria de Azu Nwagbogu, a exposição aborda “a ideia de Negritude pós-moderna através do Retrato Negro”[3], reunindo obras de Zanele Muholi, ativista visual da África do Sul que trabalha fotografia, e Ayogu Kingsley artista nigeriano com um corpo de trabalho dedicado à pintura hiper-realista.

A primeira grande figura que reconhecemos ao entrar na exposição é a do artista Jean-Michel Basquiat, num retrato pintado por Ayogu Kingsley. Esta pintura faz parte da série Icons in The White House, e mostra-nos Basquiat na famosa sala oval, numa posição descontraída a fumar um charuto e a olhar diretamente para nós. A imaginação de Ayogu é o grande motor das suas obras, e nesta série o artista pinta importantes ícones culturais e políticos que o influenciaram, na posição de Presidente dos Estados Unidos. Desta mesma série, Ayogu apresenta no HANGAR, Malcom X (2012) e Thomas Sankara (2021). No retrato de Malcom X, figura proeminente na luta pelos direitos da população afro-americana durante os anos cinquenta e sessenta, há um pormenor na decoração da sala oval que se destaca: o quadro suspenso na parede é uma pintura de uma figura Negra despida. Com o desejo de reescrever a história, Ayogu pinta algo nunca antes visto nas paredes desta sala. É de realçar que, nenhuma obra pintada por artistas Negros foi exibida na sala oval durante as últimas seis décadas [4], aumentando ainda mais o peso simbólico que uma imagem deste tipo representa.

Num segundo momento da exposição, as paredes da galeria são ocupadas pela obra fotográfica de Zanele Muholi que se apresenta com a missão de “reescrever uma história visual negra, queer e trans da África do Sul para que o mundo tome conhecimento da nossa resistência e existência no auge dos crimes de ódio na África do Sul e além-fronteiras” [5].  Em Just My Imagination (Running Away with Me) Muholi exibe um conjunto de autorretratos performativos de tons monocromáticos e alto contraste. Muholi aponta a câmara para si olhando quase sempre diretamente nos nossos olhos, e numa sequência de poses clássicas utiliza adereços comuns do dia-a-dia doméstico e transforma-os em acessórios para o cabelo ou em joias. Em Aphelile X, DURBAN (2020) é formado um arco com rolos de papel higiénico criando uma espécie de nicho onde Muholi se coloca por baixo; Bester, New York (2019) tem as molas de roupa como adorno principal do retrato, utilizadas tanto no cabelo, como em forma de colar; já em VIKA IV, THE DECKS, CAPE TOWN (2019) as cruzetas criam um adorno único que passa pelo cabelo e percorre todo o seu busto. Os adereços escolhidos por Muholi desafiam-nos inevitavelmente a reconhecer a beleza em objetos que normalmente não estaríamos à espera, compondo retratos que convocam a história e a identidade Negra.

Ayogu Kingsley e Zanele Muholi têm em comum a experiência Negra africana e, através da pintura e da fotografia, procuram desafiar e romper com os padrões ditados pela cultura visual contemporânea. Just My Imagination (Running Away with Me) tem particularmente importância ao ser apresentada em Portugal, um país extremamente marcado pelo seu passado colonial.

Deixa-se aqui uma nota sobre o curador Azu Nwagbogu que tem tido um papel fundamental na divulgação e estudo da arte Africana, sendo fundador da African Artists’ Foundation (AAF) e editor do Art Base Africa, um espaço virtual para descobrir e conhecer arte contemporânea de África.

A exposição estará patente no HANGAR – Centro de Investigação Artística até ao dia 29 de janeiro de 2022.

 

[1] The Temptations, Just My Imagination (Running Away with Me), 1971

[2] Excerto da folha de sala da exposição, Just My Imagination (Running Away with Me).

[3] Excerto da folha de sala da exposição, Just My Imagination (Running Away with Me).

[4] Buchanan L. and Stevens M. (2021) em The art in the Oval Office tells a story. Here’s how to see it. Disponível em: https://www.nytimes.com/interactive/2021/05/05/arts/design/oval-office-art.html

[5] Excerto da folha de sala da exposição Just My Imagination (Running Away with Me).

 

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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