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Entre as Palavras e os Silêncios: Obras da Coleção Norlinda e José Lima

O Centro Cultural de Cascais alberga, até ao início de fevereiro, algumas obras da coleção privada de Norlinda e José Lima, numa exposição intitulada Entre as Palavras e os Silêncios. Compreendendo uma centena de obras, observam-se aqui muitos dos nomes sonantes da arte feita nos últimos 50 anos (Andy Warhol, Damien Hirst, Cindy Sherman, Paula Rego são alguns deles) numa mostra que tem tanto de vibrante, como de heterogénea.

Logo ao início, apresenta-se o único texto de sala que iremos ver no decurso de toda a exposição: são 10 linhas que nos avisam que, na verdade, a mostra não nos quer direcionar num sentido concreto, procura abrir-se à sensibilidade dos olhares que vão ao seu encontro. Indiretamente, percebemos que a sua proposta é simples: dar a conhecer algumas obras de uma coleção nem sempre acessível ao público. E tendo em conta a riqueza da mesma, isso chega-lhe – na verdade, chegamos ao fim da mostra com a vontade de parar e processar tudo aquilo que acabámos de ver. Ainda que as palavras e os silêncios possam evocar a atenção que cada um concede às obras, é curioso verificar que, museograficamente, há aqui pouco silêncio – estamos constantemente rodeados de texturas, cores, imagens – o que funciona tanto contra, como a favor da exposição.

Os destaques são muitos e variados: Fun de Damien Hirst mostra-nos, numa pequena assemblagem, uma condensação interessantíssima das iconografias do artista – as spot paintings, os comprimidos, a pulsão da morte, estão todos lá – sempre na linha entre o sublime e a provocação gratuita; os Azulejões de Adriana Varejão são uma adição inesperada, mas absolutamente essencial, lembrando-nos da sensibilidade transgressora das suas obras que, no nosso país, tem infelizmente passado pelos pingos da chuva; e ainda Cosmo Cover Girl de Cindy Sherman, um retrato que nos olha diretamente, enquanto tentamos decifrar a sua atitude dominante, emancipatória.  As obras mais presentes na mostra são, no entanto, de artistas portugueses, que se encontram bastante bem representados: Carrocel de Fátima Mendonça é das obras mais interessantes de toda a exposição: uma pintura, que na sua agressividade abstrata, se revela uma dança – perigosa, caótica, é certo – quando a descobrimos atentamente.

O piso inferior da exposição, onde se localizam as obras até agora mencionadas, traduz-se como o mais consistente – talvez por abrir maior espaço entre os objetos, permitindo uma contemplação mais ponderada, menos ansiosa. Ainda que o piso superior abra portas a vários novos destaques – é, aliás, onde se encontra a grande maioria dos objetos da exposição – há obras que, pelo meio, ficam sufocadas.

Talvez o mais notório exemplo seja a última secção da exposição, onde sete obras (de que se destaca Marco e Flávia de Arlindo Silva e L’ Essayage de Bernard Rancillac), coesas por um mesmo vigor cromático, são expostas sem espaçamento entre si – somos bombardeados por um caos de dinâmicas e formalidades estéticas, numa fase em que, dada a quantidade de obras já vistas, começamos a entrar numa espécie de dormência percetiva.

Ainda assim, este piso está repleto de diálogos estimulantes – a disposição de uma assemblagem de Gonçalo Mabunda, Dá ao Povo o que é de César, ao lado de uma pintura sem título de João Jacinto, gera um paralelismo plástico evidente entre as duas obras, ao ponto de parecerem ter sido concebidas para dialogar uma com a outra; é importante mencionar ainda a inclusão de Kaglo de Victor Vasarely – uma obra que, pelo seu magnetismo ótico, domina uma das principais salas deste primeiro piso – e um belíssimo Sem Título de Júlio Pomar, a lembrar uma versão distorcida da Canard Mort Pendu de Chardin.

No fundo, observamos uma coleção complexa, quase impossível de definir. Em entrevistas, José Lima refere que não tem propriamente um critério na adquirição de obras – elas têm, simplesmente, que lhe transmitir alguma coisa. E é essa mesma pluralidade que funda a identidade possível desta exposição: com mais ou menos silêncios – e umas quantas palavras – abre-se um espaço suscetível à perdição, livre e desassombrada.

Entre as Palavras e os Silêncios: Obras da Coleção Norlinda e José Lima está em exposição no Centro Cultural de Cascais (Fundação D. Luís I) até ao dia 6 de fevereiro.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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