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Coveiros, Escola do Largo

Coveiros é a mais recente criação do ator e encenador Marcos Barbosa. Estreou no dia 13 de janeiro na Escola do Largo (Lisboa) e estará em cena dia 28 de janeiro no Teatro-Cine de Torres Vedras. O texto é de Jacinto Lucas Pires que parte da tradução de Gualter Cunha de Hamlet, de William Shakespeare. A cenografia e o figurino são de Sara Amado. O desenho de luz é de David Caetano. A interpretação é de Raquel Silva, Joana Pialgata, Pedro Moldão, Pedro Fontes e Marcos Barbosa. A produção é do Centro Internacional de Dramaturgia e da Escola do Largo. A coprodução é do Teatro-Cine de Torres Vedras e dos Gambozinos e Peobardos – Grupo de Teatro da Vela.

Umas das particularidades desta peça é a sobreposição de espaços temporais no discurso das personagens. Coveiros passa-se num determinado tempo, mas muitos são os momentos onde o presente é invocado, seja de forma cómica despreocupada (quando por exemplo fazem referências à dança contemporânea) ou de forma crítica procurando a reflexão do espectador. Esta peça corresponde ao ato final da tragédia de Hamlet. Este ato começa com a aparição de dois trabalhadores, algo revolucionário para a época, uma vez que até então as personagens representadas em teatro eram na sua grande maioria deuses, semideuses, reis, aristocratas, nobres, ou pessoas do clero. Cavam ao mesmo tempo que discutem a corrupção na sociedade, o seu valor e a igualdade. As restantes personagens vão aparecendo ao longo do espetáculo, e tal como refere a sinopse desta peça, colocam-se as questões: de onde vêm ao certo? Do mundo que imaginamos existir fora do cemitério ou das imagens que a conversa dos coveiros evoca? Estas personagens são entidades sem tempo, são fantasmas que transitam em vários tempos. A morte é o grande tema desta peça, está presente em praticamente todos os momentos da narrativa. Ainda na sinopse lemos: Poderá a morte ser reveladora do que há de único e de especial em cada um? No meu ponto de vista não, não pode. O que a morte revela é precisamente o contrário: aquilo que há de comum em cada um/uma. Não há nada mais revelador de que não somos assim tão diferentes uns dos outros do que a morte, dado que todos e todas um dia vamos morrer. A morte revela a nossa insignificância e não o contrário, ninguém é especial porque morre de determinada maneira. Se compararmos uma morte trágica com uma morte digna o resultado é o mesmo: a morte.

O espaço cénico é bem trabalhado. Apesar de estarmos numa sala de ensaios e não numa sala de espetáculos, os e as intérpretes aproveitam a proximidade com o público para desenvolver intimidade e drama. O desenho de luz é bastante cinematográfico, realçando ainda mais estes dois aspetos. A qualidade cinematográfica da luz reflete-se também nos momentos slowmotion do espetáculo. Não estão geniais, mas a ideia é divertida e criativa. Coveiros corresponde a uma escola de teatro clássica, não estaríamos nós a falar de um texto de Shakespeare. Tudo aquilo é Tchekhov, Brecht, Ibsen, Beckett, etc. A gramática teatral e o trabalho do ator/atriz deste espetáculo não trazem nada de novo para o teatro, são formas já excessivamente reproduzidas. Poderá sempre ser argumentado que os grandes textos, os grandes autores, e as grandes escolas de teatro ainda têm muito para nos oferecer. Talvez, mas no meu entender não têm. Estão já saturadas e mais que mastigadas. O caminho é para a frente, as artes performativas deveriam ser o campo da transgressão, da audácia, da rebeldia e da provocação. Elas, mais do que qualquer outro campo artístico, têm essa possibilidade. Como historiador da arte sem muito bem a importância do passado e da memória, nomeadamente no combate à ignorância e à estupidez, mas sei também o quão através dele romantizamos e instrumentalizamos modos de fazer, ideais e ideologias. As coisas pertencem aos seus tempos e afirmar isto não significa que não existam obras e ideias intemporais. Significa apenas que o melhor ainda está por vir e descobrir.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL e mestre em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra) e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. Foi cofundador da editora CusCus Discus. É crítico de música e artes performativas das revistas Umbigo (2020), ArteCapital (2021) e Rimas e Batidas (2022). É DJ residente na associação cultural DARC, produtor musical e técnico de som especializado em concertos e espetáculos.

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