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Lembrete para o futuro – Camille Blatrix no CAC – Synagogue

Demorámos cerca de cinco horas entre comboios desde Bruxelas, onde me encontro, e o CAC – Synagogue, uma pequena vila no Este de França. Tamanha dedicação devia-se em parte à curiosidade de poder ver pela primeira vez ao vivo o trabalho de um dos artistas que maior curiosidade me vinha suscitando. Trata-se de Camille Blatrix, artista francês que tem protagonizado nos últimos anos uma ascensão meteórica, recheada de exposições importantes e surpreendentes. Weather Stork Point é prova disso, tendo viajado da Kunsthalle Basel para a antiga sinagoga de Delme.

Se nesse dia o clima era desagradável, por culpa da muita chuva que caia e do frio que gelava, o que dizer da temperatura no interior do museu, qual arca congeladora. Entre arrepios e algum cansaço impunham-se as formas e cores apelativas desta espécie de Saloon americano perdido numa vila francesa. Há exposições assim, em que o tempo, o contexto e a própria viagem parecem não só parte como se tornam indispensáveis! E antes de mais, aproveito para antecipar a conclusão. As expectativas eram elevadas, mas aquilo que vi foi melhor do que isso. Weather Stork Point foi, de facto, a melhor exposição que vi em 2021.

A dita aparência de saloon ou melhor, de um daqueles bares que é também salão-de-jogos, ecoava em toda a instalação no piso térreo. Uma grande construção em madeira selava parte significativa do espaço, cujo interior era apenas visível através de uma janela na qual se lia no reflexo do vidro a palavra veritas. Claramente num piscar-de-olho ao género da natureza morta, Blatrix criou um ambiente passível de ser vislumbrado, mas inacessível. A única presença era a sombra de um rato que passeava à luz de uma espécie de vela dançante, ao som dos acordes abafados de uma qualquer música que jurava reconhecer. No exterior, de lado, o logotipo do Starbucks em forma de moeda gigante empurrado pela ranhura, ativava a vida interna daquele bar/juke box gigante.

Weather Stork Point é uma lição de curadoria. O piso inferior estava repleto de decisões cirúrgicas capazes de sincronizar espaço e obras, em movimentos capazes de integrar a arquitetura dentro dos limites dos objetos. O exemplo mais evidente talvez seja o arco ou altar que parecia vital à peça em madeira que ocupava o seu centro, juntamente com uma faixa laranja que atravessava o seu interior e que acabava a ser remendada por pensos rápidos, talvez numa tentativa de amenizar as fendas abertas pelo passar dos anos.

Por sua vez, no andar superior o percurso distribui-se por duas alas que ladeiam a nave central e pelo corredor que as liga. No chão encontrávamos uma escultura que era uma máquina de pinball, e que demonstra a elegância e a flexibilidade com que o artista utiliza e conjuga diferentes materiais. Entre a mestria do trabalho de carpintaria, às resinas impressas em 3D, até ao singular uso da imagem pintada, percebemos que não se trata de um mero show off de truques e virtuosismo, mas antes da materialização excecional de formas inspiradas pelo design e pelos modos de fazer dos objetos domésticos, particularmente dos eletrodomésticos.

Weather Stork Point, fez-me pensar várias vezes na estética do filme The Hateful Eight de Quentin Tarantino, provavelmente influenciado pela viagem até este saloon gelado onde fomos recebidos por um conjunto de personagens inusitadas que nos levaram sempre a crer que algo mais estivesse na iminência de acontecer. Ah, sim a música! Eram os primeiros acordes de Stand by me!

A exposição pode ser visita até dia 30 de janeiro de 2022.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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