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Políticas de reprodução da Vida ou um Teorema dedicado aos movimentos de expansão com A Mecânica do Efémero

Este texto é como um relógio. Um relógio Solar. Ele se movimenta de acordo com o tempo e com a luz. As informações são faíscas que se mostram úteis para a composição de um contínuo movimento de libertação-germinação inspiradas pela apreciação da exposição A Mecânica do Efémero na galeria Filomena Soares em Lisboa.

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A galeria localizada em Marvila reúne seis artistas angolanos – Flávio Cardoso, Kiluanji Kia Henda, Damara Inglês, Délio Jasse, Rui Magalhães e Sofia Yala Rodrigues.  Dedicados à uma prática artística autorreflexiva “onde a imaginação se torna uma importante aliada de questionamentos históricos e sócio-políticos”, os artistas iluminam questões ligadas ao colonialismo, mas não só. Esse passado que nos assombra como “uma fantasia europeia por concluir”, como escreve Gisela Casamiro no texto de sala, se desdobra na contemporaneidade em dispositivos de captura manhosos, charmosos e elegantes. Ahhhh o desejo! Cuide do seu porque ele está à venda.

Do I ao XII, começamos:

I. Como um prólogo-aquecimento-evocativo, digitei antes mesmo de desenhar estes pensamentos, palavra por palavra, as dez sugestões para uma contínua descolonização do inconsciente da filósofa e psicanalista Suely Rolnik presente no seu último livro Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não cafetinada. Em seguida abro uma página aleatória do livro e transcrevo um trecho sublinhado da introdução escrita por Paul B. Preciado: “A revolução não se reduz a uma apropriação dos meios de produção, mas inclui e baseia-se em uma reapropriação dos meios de reprodução – reapropriação, portanto, do ‘saber-do-corpo’, da sexualidade, dos afetos, da linguagem, da imaginação e do desejo. A autêntica fábrica é o inconsciente e, portanto, a batalha mais intensa e crucial é micropolítica.”[i]

II. A obra fotográfica Éden do artista Rui Magalhães utilizada na divulgação da exposição retrata uma espécie de portal. a) É interessante reparar que a fração superior do pórtico não está alinhada com o centro das duas colunas que a sustenta. b) Duas girafas acéfalas ornam a entrada. c) A reprodução desta imagem em formato flyer agora se encontra na minha mesa de trabalho ao lado de um apontamento já perdido da sua origem: “Como pode haver tristeza no paraíso?”

III. “Uma ponte para o futuro” – slogan do programa do partido PMDB do ex-presidente Michel Temer em 2016 no Brasil após o impeachment da Dilma Rousseff. Essa foi a frase que veio em mente observando as fotografias expostas de Flávio Cardoso: a primeira documentando uma ponte em concreto sem entrada ou saída, e a segunda uma árvore repousada no chão desenhando um arco entre a raiz e a folhagem. Em seguida essas palavras conduziram o meu pensamento: abismo, incoerência e insensatez.

IV. Alguma coisa sobre liberdade, luz e um norte verdadeiro: “Todos os relógios de sol devem ser alinhados com o eixo de rotação da Terra, para que produza uma medição precisa da hora correta. Na maioria dos estilos de relógio, ele precisa ser apontado em direção do norte verdadeiro (ao invés do magnético), ou seja, o ângulo horizontal precisa ser igual à latitude geográfica da posição em que está localizado o relógio de Sol. Por causa da inclinação natural do eixo de rotação e o formato elíptico da Terra, não existe uma orientação fixa para o relógio de sol, que sempre mantenha uma afinidade geométrica constante com o Sol durante o ano inteiro. Por isso, não é indicado que um relógio de sol funcional seja construído totalmente fixo, que mostre a hora certa durante todos os períodos do ano. Um relógio de sol construído em função de um lugar específico, somente mostrará a hora aparente daquele exato ponto, compartilhando apenas com lugares alinhados num mesmo meridiano”.[ii]

V. bell hooks faleceu no dia 15 de Dezembro de 2021. Escritora, professora e intelectual afro-americana deixa um legado ímpar. Coloco aqui em destaque a Trilogia do Ensino: Ensinando a transgredir, Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática, Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança.

VI. A artista Damara Inglês desobedece o “extrativismo subjetivo colonial e neoliberal” ao afirmar a beleza do otimismo ornado de afrofuturismo em uma instalação multimédia. Aplicando um filtro de Snapchat, o corpo feminino da artista se transforma em uma personagem transcendental no meio de outros corpos não-humanos na obra Kazumbi.

VII. O artigo: Um saudável incómodo: Grada Kilomba de Vítor Balenciano na Ípsilon[iii].

VIII. Muito se tem falado de um imaginário catastrófico distópico. Kiluanji Kia Henda expõe a sua versão impressa em preto e branco. A série fotográfica de 2013-2021, Ópera da Distopia, documenta um parque de diversão abandonado nos anos 90. Uma representação singular da diversão e do prazer como um privilégio de poucos. É irônico falar de distopia a partir da realidade, não é?

IX. Escrevo essas palavras com o computador no topo de quatro livros em uma tentativa de sustentar uma postura ereta. Os livros: Tratado Lógico-filosófico, Investigações Filosóficas do Ludwig Wittenstein; Ou-Ou, Um fragmento de Vida de Søren Kierkegaard e Atlas do Corpo e da Imaginação do Gonçalo M. Tavares. Mais uma ironia: uma brasileira sustentando a sua coluna, seja a do corpo ou da abstração, com teorias eurocêntricas.

X. Sofia Yala no trabalho Type Here to Search, 2020, utiliza da colagem de fotografias do arquivo familiar com o intuito de recontextualizar e criar novas narrativas de um passado que carrega em sua bagagem. Délio Jasse, em Untitled (da série A última barreira), 2021, utiliza de uma abordagem semelhante ao criar imagens gráficas em composição com fragmentos de uma história catalogada. Neste caso Jasse trabalha com o arquivo de uma memória nacional angolana. Nas palavras do artista: “Nós não sabemos a nossa própria história, que é contada pelos outros, apesar de vivida por nós.” Em uma estratégia semelhante, do privado para o coletivo, os dois artistas apelam à transformação da sensibilidade e da representação, inventando em cada caso os protocolos necessários que permitem renomear, sentir e perceber o mundo.

XI. O número 6 das sugestões para descolonização do inconsciente da Suely Rolnik: “Não ceder à vontade de conservação das formas de existência e à pressão que esta exerce contra a vontade de potência da vida em seu impulso de produção de diferença. Ao contrário, buscar sustentar-se no fio tênue desse estado instável até que a imaginação criadora construa um modo de corpo-expressão que, por ser portador da pulsação do estranho-familiar, seja capaz de atualizar o mundo virtual que essa experiência anuncia, permitindo assim que as formas agonizantes acabem de morrer”[iv]

XII. A música Quiet Temple, de Mal Waldron, em Le Nuits de La Negritude, gravada em 1963. Acesso no link: https://www.youtube.com/watch?v=YdQkSGsfrRA

 

A exposição A Mecânica do Efémero, está patente na Galeria Filomena Soares em Lisboa até o dia 15 de Janeiro de 2022.

 

Maíra Botelho não escreve ao abrigo do AO90.

 

[i] Rolnik, Suely. (2019). Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não cafetinada. Brasil: n-1 edições: p.15

[ii] https://www.infoescola.com/curiosidades/relogio-de-sol/

[iii] https://www.publico.pt/2021/12/20/culturaipsilon/comentario/saudavel-incomodo-grada-kilomba-1989326

[iv] Rolnik, Suely. (2019). Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não cafetinada. Brasil: n-1 edições: p.196

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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