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Mala Voadora: Has the American Dream Been Achieved at the Expense of the American Negro? e Teleculinária

Has the American Dream Been Achieved at the Expense of the American Negro? foi a premissa do debate de 1965 na Universidade de Cambridge entre James Baldwin e William F. Buckley Jr. A encenação do espectáculo é de Jorge Andrade com assistência de Maria Jorge, a interpretação de José Mata e Marco Mendonça, o figurino de José Capela e a luz de João Fonte.

Baldwin foi um romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social negro norte-americano. Foi também um dos primeiros homens negros a assumir a sua homossexualidade. O seu activismo político foi importantíssimo e é hoje um legado imprescindível para as lutas anti-racista e LGBTQI+. Buckl Jr foi um autor, intelectual e comentarista político conservador norte-americano. Este debate é fascinante e apaixonante. É fascinante porque tem lugar num dos lugares mais conservadores e elitistas do mundo, porque o tema em discussão, assim como os argumentos usados, são eminentemente actuais e urgentes na sociedade contemporânea. É apaixonante devido à intervenção de Baldwin. Baldwin viveu tudo aquilo sobre o qual está a falar e isso sente-se, reverbera no espectador. A sua fala não é, porém, lamechas nem de vitimização, pelo contrário, é reivindicativa e pragmática. A coerência e honestidade das imagens/exemplos de Baldwin assenta em argumentos baseados em factos históricos. O autor critica toda a lógica de pensamento que está por trás do modo como é ensinada e propagandeada a história dos EUA, algo extremamente radical para a época. Aqui é impossível não nos lembrarmos que nas escolas e universidades portuguesas  a fantasia do herói e do bom colonizador continua a ser difundida e está seriamente entranhada no imaginário da população portuguesa. A fantasia dos descobrimentos, de que não foi assim tão violento ou da acomodação cultural, é igual à fantasia de Buckl Jr de que o racismo e a discriminação não são problemas estruturais dos EUA. Buckl Jr é bastante incoerente no seu argumento, está constantemente a fugir ao assunto de modo a justificar e desculpabilizar os problemas estruturais daquela sociedade. A sua intervenção representa a vitimização habitual do branco ocidental.

Este espetáculo é despojado de qualquer performatividade. Os atores em cena limitam-se a dizer o discurso de cada um dos intervenientes em simultâneo com as vozes originais gravadas ao vivo. A presença dos atores não acrescenta nada à cena, acaba por ser pueril e confusa. Durante a peça dei por mim a olhar mais para os ecrãs que projetavam o debate, que para os actores que o representavam. Desconfio que pouca diferença haveria na minha experiência se tivesse assistido a este debate no YouTube. Esta peça vive do conceito e do tema urgente que traz para cima da mesa: é sem dúvida uma referência imprescindível para o anti-racismo.

Teleculinária é a mais recente colaboração da Mala Voadora com o dramaturgo britânico Chris Thorpe, autor do texto. Estreou dia 28 de novembro na Escola do Largo, em Lisboa, e foi apresentada dia 13 de dezembro no Teatro Municipal da Guarda a propósito do evento Escola de Críticos (a peça mencionada anteriormente foi apresentada no mesmo contexto). Nesta peça fica claro que até num bolo cabe um discurso político. A criação, tradução e interpretação é de Maria Jorge, a cocriação e vídeo de Rita Barbosa, a cenografia e figurino de José Capela e a direção técnica João Fonte.

O figurino salta à vista. As botas de salto alto de cabedal em chamas sobem até aos joelhos da personagem. São maravilhosas e figuram uma imagem possível de como seria o aspeto daquela mulher. Maria Jorge atua intensamente. A sua pesquisa teatral vai na direção do encontro entre a sua vida e a da personagem. Maria Jorge não representa segundo os cânones clássicos do teatro de Stanislavski, por exemplo. Os seus gestos são precisos e a sua presença está carregada de significado. A estética teatral deste espetáculo pertence à tendência contemporânea (mas não nova) de fazer atuar (de performar) sem recorrer automaticamente à representação, envergando numa pesquisa pessoal de ações e tensões que nasce paralelamente à relação com a personagem. Teleculinária explora a relação do corpo com o vídeo. Os vídeos projectados estão muito bem trabalhados e elevam a qualidade estética do espetáculo. A cenografia resume-se a esta relação, que resulta num ambiente íntimo entre atriz-espetador. O bolo e a sua simbologia são abordados como analogias políticas. A personagem pensou ideologicamente um bolo: confecionado exclusivamente com produtos nacionais e montado de forma equilibrada, estável, tal como a sociedade que ela deseja: equilibrada e estável. Uma sociedade em que todas as pessoas se rejam pelos mesmos valores, “verdadeiros valores” enraizados na tradição e na história. Este bolo tem como destino ser fotografado num momento de celebração: um atentado desenhado pela própria. Trata-se de uma reivindicação em nome de uma mudança política no país.

A analogia à extrema direita e ao Chega são evidentes. Esta peça é exemplo do chamado teatro político, uma vez que aborda o populismo e os vários nacionalismos que se vivem pelo mundo. Faz referência a uma sociedade cada vez mais fragmentada e polarizada. O dramaturgo Chris Thorpe propõe-nos acompanhar uma mulher que, como chamada de atenção para a necessidade de uma sociedade com valores rígidos, prepara uma ação terrorista.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. Foi co-fundador da editora CusCus Discus e tem um programa mensal na Rádio Ophelia. É crítico de artes performativas das revistas Umbigo (desde 2020) e ArteCapital (desde 2021). Trabalhou como assistente de encenação em Carmen, Lisboa (2018) — co-produção Teatro da Trindade e Teatro Meridional. Foi figurante no espectáculo Festa Popular, Lisboa (2019) — produção Associação Corrente de Arte. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como intérprete no espectáculo PARAANDAR, Festival Snow Black, Moita (2019); Extinction Rebellion, Lisboa (2019); A Tropa Belladona, Barreiro (2019) — produções d'A Bela Associação; Maratona de Procrastinação, Lisboa (2021), de Sílvia Pinto Coelho com Mariana Tengner Barros, Vera Mantero, Lilia Neves, João Bento, Mark Tompkins e Jeroen Peeters — produção Teatro do Bairro Alto.

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