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Ensaio para uma comunidade – Retrato de uma coleção em construção (take 1) na Central Tejo

No amplo espaço industrial da Central Tejo, percorre-se uma “exposição-instalação”1 que se debruça sobre a Coleção de Arte Portuguesa da Fundação EDP e cuja cronologia se estende desde os anos 40 até à atualidade.

A exposição é composta por centenas de obras que se desdobram em quatro grupos temáticos – trabalho, som, palavra e preguiça. Contudo, a leitura não é estanque e os temas imiscuem-se. O próprio corpo do visitante é convidado a deambular, assumindo uma dimensão performativa com múltiplas possibilidades de interpretação.

A “dimensão cenográfica e teatral da montagem”2 é reforçada através das palavras de Gonçalo M. Tavares e da composição musical de José Valente, convocando-se uma dupla camada que funciona como fio condutor das obras da fundação.

Em Joshua e o Trabalho, o ferreiro manipula o fogo, elemento que “altera a forma das coisas (…) derrete a força dos materiais e permite que estes mudem.”3 O fogo e o trabalho articulam-se profundamente com a memória do espaço interior da antiga central termoelétrica de Lisboa. É neste primeiro núcleo temático da exposição que as obras artísticas nos convidam a refletir acerca deste tema, como por exemplo, o caso da fotografia Central do Lindoso: Sala do Comando (vista frontal) (2011) de Edgar Martins, a pintura a óleo Os Homens do Fogo (1942) de Luís Dourdil, ou ainda, a referência à utopia de uma obra nunca concretizada e representativa de uma revolução, através de Monumento a Tatlin numa cozinha suburbana 2 (2009), de Rodrigo Oliveira.

Num segundo núcleo de trabalho, Martha e o Som interligam-se através de um espectro de um violino, “na memória que dentro de um crânio toca furiosamente com se alguém tivesse dito a um músico fanático que só tem mais dois minutos de vida e dois minutos para tocar o seu instrumento.”4 É aqui, na cabeça e no coração de Martha, que o som é mais intenso do que as imagens.

Tal como no primeiro núcleo, as obras dialogam com o tema: uma escultura-violoncelo silencioso e quebrado, Sem Título (2012) de João Ferro Martins, duas fotografias lado a lado de um grupo de amigos/grupo folclórico português, cujos nomes nos indiciam que serão filhos de emigrantes Jeffrey Portal, Mónica Seguro, Caroline Ferreira, Jonathan Seguro (2009), obra de Margarida Correia, ou ainda, uma fotografia de Eduardo Gageiro a Amália Rodrigues em Lisboa (1971).

No terceiro núcleo temático, dá-se lugar a Rhann e a Palavra, ao delírio febril e à miragem de um deserto onde “no meio dessa monotonia amarela aparecem umas palavras que brilham”5. Nas obras expostas, nomeia-se a poesia visual de Ana Hatherly (1997), as cartas da guerra colonial que expandem a sua escala numa fotografia de Nuno Nunes-Ferreira (2015), e, mais uma vez, a lente de Eduardo Gageiro sob o lugar da escrita de Sofia de Mello Breyner (1964).

No piso inferior da Central Tejo, Kross e a Preguiça constituem o mote do quarto núcleo temático da exposição. Mergulhamos no ano 2020 e a mãe de Kross está a morrer no hospital, uma morte sem toque pois “Tocar dá prisão.”6 Kross imagina a sua sombra debruçada sobre o rosto da mãe, pois a “sombra dele pode tocar em tudo e em todos.”7 No silêncio do espaço que habita, emergem as memórias da preguiça, dos tempos de “intervalo de tráfego humano”8 do hotel onde trabalhava antes de estar desempregado. Neste último núcleo temático da exposição, evoca-se o direito à luxúria, à preguiça, à memória que nos habita: entre as obras, o erotismo de quatro pinturas Primavera, Verão, Outono, Inverno (2000) da artista Rosa Carvalho, e no fim da exposição, o lazer em comunidade através da obra The Big Red Puff Sound Site (1994) de João Paulo Feliciano.

Relembramos os quatro grupos temáticos pelas mãos de Gonçalo M. Tavares: Joshua e o Trabalho, Martha e o Som, Rhann e a Palavra, Kross e a Preguiça.

Joshua é o pai morto de Martha e de Kross. Rhann é ex-namorado de Martha. Os quatro estão separados no espaço e no tempo. Contudo, as obras artísticas imiscuem-se, convidando-nos a regressar, a nomear novas obras, múltiplas deambulações.

 

Ensaio para uma comunidade – Retrato de uma coleção em construção (take 1) tem a curadoria de Paulo Mendes e pode ser visitada até 31 de janeiro na Central Tejo do MAAT.

 

Referências:

1, 2 – Excertos retirados de placa informativa da exposição;

3 – Excerto retirado de Joshua e o Trabalho de Gonçalo M. Tavares, texto concebido para exposição;

4 – Excerto retirado de Martha e o Som de Gonçalo M. Tavares, texto concebido para exposição;

5 – Excerto retirado de Rhann e a Palavra de Gonçalo M. Tavares, texto concebido para exposição;

6, 7, 8 – Excertos retirado de Joshua e o Trabalho de Gonçalo M. Tavares, texto concebido para exposição.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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