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XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro — patente até 30 de janeiro

A XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, patente até 30 de janeiro em vários locais expositivos da cidade, tem como objetivos o envolvimento da comunidade na criação artística local, o estímulo à experimentação e à criatividade, o incentivo à indústria e à comunidade científica para a inovação e a afirmação de Aveiro como eixo cultural, nacional e internacional da cerâmica artística. Criada em 1989 por iniciativa da Câmara Municipal, com a colaboração de alguns aveirenses, artistas locais e empresas do setor cerâmico, ao longo dos seus 31 anos de história tem vindo a consolidar a sua missão.

Nesta edição, conta a maior participação de artistas (298) e obras (477) a concurso, num conjunto de 58 nacionalidades, 40 países representados e 136 obras selecionadas para a segunda fase. O júri, presidido por Benedetta Diamanti (diretora da European Route of Ceramics), atribuiu na cerimónia de abertura o 1º Prémio a Big Smile I, de Ellen van der Woude, o 2º a ETA 24.06, de Marie-Josée Comello, e o 3º a Nereide, de Andri Ioannou, assim como concedeu 9 menções honrosas às peças de Anima Roos, Cheng-Chung Yu, Chin-Wang Chen, Filipe Faleiro, Lara de Sio, Olga Simonova, Rita Gonçalves, Sunbin Lim e Yukiko Kitahara. A Exposição Principal, que apresenta as obras do Concurso Internacional, pode ser visitada no Museu de Aveiro/Santa Joana, destacando-se pela variedade de estilos, desde o figurativo ao abstrato, do surrealismo ao hiperrealismo, tocando temáticas caras à contemporaneidade, desde as alterações climáticas, à passagem do tempo ou ao neoliberalismo, potencializando a cerâmica enquanto meio de produção artística, como em Se pronostica tormenta, de Laura Rueda, Trace of  the passing time, de Chin-Wang Chen, ou ainda Natureza Morta. Sociedade de Consumo, de Yukiko Kitahara.

No âmbito da Bienal, visitamos as exposições dos artistas convidados desta edição, como AQUA e +32, de Carlos Enxuto, no Museu da Cidade de Aveiro. Conforme o texto do catálogo, redigido pelo autor, a primeira mostra é uma tentativa para encontrar conexões entre a Ria de Aveiro e as pessoas que por entre si vivem, refletidas nas esculturas Mulher do Mar e Guardiã da Ria, assim como no mural Aqua-Mater. E na segunda, +32, não descurando a linha de continuidade e confluências no seu trabalho, explora a viagem de descoberta do objeto cerâmico em esculturas, como Caixas/Contentores, Bules, no mural Timeline ou ainda na instalação À mesa.

Do mesmo modo, o artista convidado, Jean-François Fouilhoux, um dos ceramistas franceses mais conceituados, sobretudo pela dimensão da forma, gesto e movimento dos seus céladons, apresenta L’empreinte du geste na Galeria da Antiga Capitania, onde nos revela essa sua particular escrita no barro, em Arabesque, Volute, Pulsion ou Sarabande, entre muitas outras esculturas de uma delicada luminosidade, íntima e espontânea expressão.

Na Antiga Estação Ferroviária, a exposição de fotografia Metamorfose do Corpo, da jovem artista aveirense Celine Marie, parte de um ato performativo em que o corpo nu é imbuído no barro e na argila, na exploração «das dores de crescimento da psique humana com as suas limitações e potencialidades», como nos indica a folha de sala, demonstrando fragmentos desse corpo, movimento e gesto, numa série de fotografias abstratas, montadas poeticamente.

No curioso edifício onde está sediado o Museu de Arte Nova, exploramos a mostra itinerante que reúne algumas peças a concurso em anos anteriores, Argila que nos une. Bienal em movimento, onde redescobrimos Inseticida, de Alberto Vieira (3º Prémio da XII Bienal, 2015), Inner Approach, de Eleftheria Phili (3º Prémio da XIV Bienal, 2019), Romance de cordel em 27 capítulos, de Ricardo Casimiro (3º Prémio da VIII Bienal, 2007), ou Uma teoria social, de Vicent Roda (3º Prémio da VI Bienal, 1999), entre muitos outros, acentuando a história, a pertinência das temáticas contemporâneas e a internacionalidade do espólio da Bienal.

Nesta XV Bienal, destacamos O poder das mãos: o extraordinário imaginário de Rosa Ramalho na Galeria Morgados da Pedricosa. Uma preciosa mostra de uma das figuras mais emblemáticas da olaria portuguesa, nascida no final do século XIX na freguesia de Galegos (São Martinho), no concelho de Barcelos, que soube juntar os seus conhecimentos e práticas às suas influências posteriores, devido ao contacto com artistas, como o pintor António Quadros, o arquiteto Alves Costa ou o escultor espanhol Juan Pimentel, demarcando um estilo próprio, explorando temáticas tão variadas como o bestiário e o religioso, a mitologia e o fantástico, materializadas em bonecos com assobio, vidrados cor de mel, cabeçudos, animais, cristos na cruz, deuses gregos ou signos do zodíaco.

A relevância da participação ativa da comunidade escolar na Bienal está presente na exposição Quarto Escuro no ATLAS Aveiro: Edifício Fernando Távora, que deu forma ao projeto A Bienal vai à Escola: A Poesia da Forma, onde os textos das escolas dos municípios, sob o mote Os Medos, foram transformados por Anabela Soares em peças de cerâmica. Figuras que, como demonstra o texto curatorial, «revelam, antes de mais, uma pulsão libertária. São cabeças que nascem e concorrem pela sua adoção a um único corpo; são cobras e outros seres longilíneos que brotam do seu interior, expulsos ou ansiando também eles por uma libertação.» Justamente, a autora imprime nas suas esculturas uma expressão singular e uma grande paixão, fruto de um processo catártico, talhado pela doença mental que acompanha há um longo período de tempo, confrontando-nos com os nossos medos. Este projeto é realizado em colaboração com a artista e o espaço Manicómio, o primeiro lugar de criação e galeria de Arte Bruta em Portugal, localizado em Lisboa, dedicado exclusivamente a artistas que têm ou já tiveram experiência de doença mental.

Ao longo do período de tempo em que a mostra de cerâmica artística se difunde pela cidade de Aveiro, também há a oportunidade de conhecermos melhor o património industrial desta região, pelo meio da exposição de fotografia A indústria cerâmica aveirense: Imagens da História ao longo da Rua Batalhão Caçadores, da Avenida 5 de Outubro e da Avenida de Santa Joana, mas também os projetos expositivos patentes no Museu de Aveiro/Santa Joana: Mostra de I&D do DEMaC/UA, que apresenta projetos de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico realizados no Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica (DEMaC) da Universidade de Aveiro (UA), assim como O escultor de materiais e tecnologia: Ross Lovegrove na Vista Alegre. Por último, ainda podemos assistir a várias conferências, jornadas técnicas, lançamentos de publicações e espetáculos, seguir a Residência Artística CreArt | Barro de Mãe, com a curadoria de Helena Mendes Pereira e em parceria com a Fundação Bienal de Arte de Cerveira, participar em workshops, ver instalações artísticas no espaço público e acompanhar o serviço educativo.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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