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A árvore da vida de Dimitra Dede

Quantas vidas vivemos?

Quantas vezes morremos?

Há uma linha do tempo que pauta a nossa existência e a de todas as coisas. Por vezes essa linha permanece estável, sem ruturas; noutras sentem-se distúrbios ao presumível aplanado seguimento que pressupõe tudo como certo, brando e seguro. Todavia, diz-nos a ciência que a nossa vida num gráfico é uma oscilação de pontos e linhas que discorrem extravagantes, em constantes disrupções à monotonia. Só assim é que a lemos saudável. A monorritmia é o fim. Paradoxo.

Não obstante, quando em vida e sem armadilhas médicas, esta linha se encurta, inverte, torce, ou rompe, a mudança cai em nós e um novo ciclo começa.

Dimitra Dede perdeu a sua mãe. Uma fissura na sua linha temporal, quiçá antes do “tempo” (é-nos sempre demasiado cedo a perda de alguém próximo), enquanto continua ela mesma a ser mãe. Esta interrupção, aliás, fortalece a ligação à filha. A emoção e a razão reforçam o cumprimento do papel materno. Mas quanto se perde num evento destes? E quanto se ganha?

É da experiência pessoal, do toque ao ser morto e inerte que, no último adeus, o choque se revela iminente à artista. Não dá para negar que o calor humano, do corpo, das memórias e de tanta vida conjunta, se condensa agora, no momento final, a uma frieza dura e eterna. Lá fora 35 graus.

Do abalo, não se é mais o mesmo. Nem o morto, nem o vivo.

Nos Alpes, e com o devido distanciamento, essa perturbação tão familiar volta a pressentir-se na pele. O frio na carne. O ar gélido e cruel que anestesia o corpo e amortece as sensações. Dimitra Dede reconhece aquele instante; é ele que traz de volta as reminiscências do passado, do fisicamente distante que, afinal, emocionalmente está tão próximo.

Este trabalho parte do arquivo fotográfico, segundo uma prática singular nascida do cruzamento entre a pintura e o uso de químicos que transformam a fotografia. Imagens manipuladas, as quais a artista trabalha, adultera e transfigura, resultando em pequenas esculturas sombrias e imaculadas, que materializam um mundo novo que emerge ancorado a uma realidade já ida. Onde um corpo, dois corpos, uma mão, um rosto, uma ave, uma paisagem… são todos equivalentes, e numa linha temporal que parece suspensa. É por meio dessas várias metamorfoses e dos seus cruzamentos que se evidenciam as múltiplas camadas da perda.

No pós-morte permanece (em nós) uma espécie de neblina que defrauda a nossa consciência, que nos resume a uma inocência tal perante o dia, a um difícil agir além da letargia. Advém desta sensibilidade consciente de Dimitra, que admite, e assim o representa, o facto de a maternidade não estar mais correlacionada com o calor, o riso, a luz, a euforia; mas sim com o frio, o desanimado ambiente coberto de gelo que enfatiza a resiliência das grandes massas geladas às repetidas investidas humanas, que levam ao sobreaquecimento global.

Há um drama contado na primeira pessoa, alguém que está a meio. A meio da morte da mãe e da perseverança de continuar a ser ela mesma uma figura materna, que perpetue a sequência filial; e a meio da obliteração de um território que luta por resistir à sua devastação. Exalta-se uma dupla fragilidade: aquela com que tanto cuidamos e nos unimos ao outro, como aquela pela qual dizimamos o envolvente.

Mayflies dramatiza o processo criativo do luto para nos lembrar que a morte desse alguém que amamos nos impulsiona a zelar pela sua prosperidade, e que, simultaneamente, nos perturba ao questionar o que fazer quando a natureza nos dá os mesmos sinais, sem o comunicar na mesma língua. A imagem de uma ave que se adivinha em morte lenta arrepia pela poética com que nos devolve o olhar, a expressão testemunha do seu desaparecimento, do ser que sofre em paralelo neste mundo sem poder se manifestar. Aos animais não lhes é dada sequer palavra nesta destruição.

E enquanto nós, humanos, nos munimos de arcaboiços para evitar o inevitável – por exemplo, as telas que protegem os glaciares do aumento da temperatura pela incidência direta da radiação UV – o que resta no final não são mais do que os remendos, as tentativas, as dores, as cicatrizes, o cru. Fotografias trémulas, entre o tecido e a carne. A paisagem e o corpo. Entre o cenário glacial árido e vazio e a intimidade familiar dos laços mãe-filha; onde vemos e lemos, quer o inanimado objetivado e perdido, quer o vivo lutador e protetor. Onde se fundem calor e calafrio. Resguardo e desproteção.

Mayflies é um projeto sobre o outro. Sobre a consciência do outro. E a inevitável compreensão de que não somos imortais, nem nós, nem o ambiente que nos rodeia. Remonta àquilo que é efémero, que se desvanece em pouco tempo. O impossível de suster, que nos escapa entre os dedos. Etimologicamente, Mayflies refere-se a insetos pertencentes à ordem Ephemeroptera (do grego εφήμερος, ephemeros = vida curta (literalmente que dura um dia) e πτερόν, pteron = asa, referindo-se ao breve tempo de vida da espécie).

No entanto, ao conjunto destas fotografias é complexo dar-lhes um nome. Como diria Roland Barthes, aquilo que podemos nomear não nos pode realmente ferir, já que a incapacidade de nomear é um sintoma característico de perturbação. Para ver bem uma fotografia, o melhor é erguer a cabeça ou fechar os olhos. [1]

Mayflies está patente na Galeria Adorna, no Porto, para ver e sentir, de olhos cerrados ou por latência da sua experiência, até ao dia 8 de janeiro.

 

[1] Barthes, Roland. (2013). Câmara Clara. Lisboa: Edições 70.

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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