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Mais Tarde: Jorge Molder na Galeria Belo-Galsterer

Lembro-me do poeta, o fingidor que «finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente».[1] A autopsicografia de Pessoa reflete-se em Jorge Molder através da representação do corpo.

À entrada da exposição, a imagem de umas mãos remete-nos para a habilidade do prestidigitador, daquele que nos leva para um mundo onde a apreensão fenomenológica não passa de uma ilusão dos sentidos. O jogo desdobra-se em fotografias de alto contraste cuja escala se aproxima do nosso próprio corpo, fazendo-nos mergulhar num universo onírico.

É entre o sono e o sonho[2] que percorremos as imagens cambiantes de pequenos símbolos, vultos, objetos flutuantes sobre fundos negros: um candelabro neoclássico, uma moldura vazia, uma estrela difusa, uma carpa ondulante. Contudo, à medida que submergimos na exposição, a imagem do artista assume uma posição central: um grito mudo, um rosto que se contorce, um outro que nos olha diretamente e, por fim, um corpo que jaz na escuridão. É esse duplo sentido entre o estar e o parecer morto, entre o repouso e a imobilidade eterna que se projetam aos nossos olhos.

Pois, o sono e o sonho são também lugar de regiões de luz e sombra, matérias onde confluem os nossos medos até ao fim da cognoscência.

Num outro espaço, três rosas secas num rosa pálido sob uma placa de vidro. Aqui, o rosto de Jorge Molder dá lugar ao observador, ao reflexo de um corpo: o meu corpo, o teu corpo, o corpo do artista. Três rosas na escuridão e revolve-se o solo que dá vida à vida.

No ciclo do eterno retorno, o sonho liberta-nos do amor fati.

Talvez Mais Tarde, na penumbra da noite, nos apercebamos que estamos simultaneamente sujeitos ao nascimento e à morte, como partes e membros das formas perecíveis, ou como forças que são simultaneamente verdade e representação.

Mais Tarde, de Jorge Molder, está patente na Galeria Belo-Galsterer, em Lisboa, até 29 de janeiro.

 

[1] Pessoa, Fernando. (1932). Autopsicografia. Disponível aqui.

[2] Tal como indicado na folha de sala concebida por Alda Galsterer, «nesta exposição, Jorge Molder trabalha a partir de uma série inicial, encomenda da GRANTA, cujo leitmotiv é o Sono/Sonho. Sono e Sonho são experiências comuns a todos os seres humanos, experiências universais, não obstante muitas vezes solitárias; e mundos ainda por explorar.» Disponível aqui.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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