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Moon Foulard de Rodrigo Hernández – Culturgest Porto

Há, nas exposições de Rodrigo Hernández (Cidade do México, 1983), um magnetismo e poder de atração sobre o espectador, mediante uma prática artística e um vocabulário formal reconhecível e identitário, em que a experimentação e a exploração de imagens incitam a nossa curiosidade, imaginação e questionamento. As suas esculturas, instalações, murais, relevos, pinturas e desenhos afirmam-se como signos à espera de serem decifrados, assim como os títulos – poéticos e enigmáticos – que o artista atribui às exposições.

O ecletismo que o inspira e que caracteriza a sua obra baseia-se e traduz-se em referências estéticas que vão desde a iconografia mesoamericana, à gravura japonesa, passando pelo modernismo europeu e vanguardas italianas, sem esquecer a importância que Hernandez atribui à literatura – desde a poesia a ensaios de filosofia e psicologia – e à moda, enquanto fontes de inspiração. A sua sede de conhecimento, de questionamento do mundo e a vontade de nos proporcionar novas forma de o ver, refletem-se no encontro e cruzamentos de disciplinas e referências várias, que exigem por parte do artista um trabalho de investigação e de pesquisa intensos. As indagações de Rodrigo Hernández, bem como o caráter estudioso e arquivístico que impulsionam e definem os seus projetos, materializam-se na sua mais recente exposição Moon Foulard, em exibição na Culturgest Porto até 5 de dezembro, resultante de um trabalho de análise e de pesquisa extenso em torno do estilista italiano Emilio Pucci (1914-1992). Com curadoria de Bruno Marchand e integrada no ciclo Reação em Cadeia, da Culturgest e da Fidelidade Arte, Rodrigo Hernández dá-nos a conhecer, depois da apresentação e passagem por Lisboa no Espaço Fidelidade Arte, a segunda parte de Moon Foulard, um segundo momento que resulta de uma adaptação do projeto especificamente pensado para o espaço da Culturgest.

Assim que entramos no espaço expositivo verificamos a preocupação e importância atribuídas pelo curador e pelo artista ao aspeto cenográfico, mediante um desenho expositivo que nos conduz por um ambiente cujo caráter pop no cromatismo arrebata-nos de imediato. Como num mergulho na ilha de Capri, fonte de inspiração para Pucci na escolha de cores, temas e texturas para as suas criações, somos transportados para o Mediterrâneo e para a paleta do estilista italiano: o azul da Gruta Azul, o amarelo, o laranja e terracota.

Contornando de forma exímia as especificidades arquitetónicas da Culturgest Porto, Moon Foulard apresenta-se em equilíbrio perfeito com o espaço para a qual foi concebida, num exercício de uma simplicidade aparente e merecedora de atenção. No centro do átrio octogonal do edifício, iluminado pela claraboia envidraçada, o visitante é atraído pela explosão de cores que se estendem pelas paredes de cada um dos braços da planta cruciforme da Culturgest. Recorrendo ao princípio gestáltico da simplicidade, Rodrigo Hernandez impulsiona o olhar do espetador para o centro das superfícies coloridas das paredes onde frisos de mármore branco, quais centros de equilíbrio, se estendem do tecto ao chão servindo de suporte aos objectos pictóricos criados pelo artista.

Assumindo-se como peças principais de Moon Foulard e ocupando lugares de destaque na encenação alegre e colorida de Rodrigo Hernández, as quatro esculturas em cartão, papel machê e pintura a óleo, representam gravatas que Emilio Pucci desenhou com grande interesse. Se por um lado, destacamos a importância atribuída pelo artista mexicano à gravata enquanto objeto ornamental, quase como uma pintura e por esse motivo a superfície perfeita para plasmar uma imagem; por outro lado reconhecemos em Hernández uma vontade em atribuir à gravata um significado de liberdade e irreverência dentro da indumentária masculina. Intituladas de Moon Tie #1; #2; #3; #4 (2021) e encimadas por uma lua que nos sorri, talvez a mesma que Henández questiona no título da publicação What is the moon? (2014), o corpo de cada uma das gravatas assume-se como campo cromático que introduz uma abordagem objetual, lúdica e dinâmica da pintura, que abandona o seu formato tradicional. Suspensas nas paredes, salientemos a decisão de Rodrigo Hernández em apresentá-las na sua forma estendida, revelando-nos uma profusão, exploração e experimentação de imagens. Fazendo jus ao estilo Pucci e aos padrões que celebrizaram o estilista, as gravatas revelam e resultam de uma combinação entre motivos figurativos e abstratos nos quais predominam as cores vibrantes. Desde os elementos de carater vegetalista que nos transportam para ambientes subaquáticos; passando pelas composições geométricas, discos órficos, motivos gráficos e reticulados, sem esquecer as flores, as linhas curvas e os padrões psicadélicos, assistimos a uma semântica inesgotável, onde a forma e a cor são os principais protagonistas.

Do universo alegre, festivo e luminoso que prevalece no primeiro momento de Moon Foulard, seguimos viagem para um segundo acto dedicado à vida e obra de Emilio Pucci. Descendo as escadas da Culturgest Porto, deparamo-nos com uma sala localizada na cave do edifício, cujo caráter intimista – proporcionado pela cenografia e iluminação – acentua um ambiente de estudo e de trabalho. Cinco mesas brancas cuidadosamente dispostas no espaço, cada uma iluminada por um candeeiro suspenso no tecto, exibem uma série de desenhos como se de um espólio documental se tratassem. Protegidos por vidro, numa possível alusão às vitrines onde se exibem os acessórios, lenços e gravatas criados por Emilio Pucci, observamos desenhos a lápis de cor, tinta acrílica, aguarela e tinta da China sobre papel, resultantes do interesse e do trabalho de pesquisa de Rodrigo Hernández pelo arquivo do estilista italiano. Em Moon Foulard (Emilio)1-5 (2021), o artista desenha com o espólio que nos apresenta uma narrativa da vida profissional de Pucci, nele reconhecemos ilustrações de padrões geométricos e caleidoscópios de cores que tornaram célebre o príncipe dos estampados; a reprodução da fotografia de Toni Frissel para a revista Harper’s Bazaar do revolucionário fato de ski desenhado pelo estilista; o interesse pelo desporto e pelos acessórios a que dedicou especial atenção – lenços, meias, toucas de banho –  e que se estendeu à cerâmica. Imagens de praias mediterrâneas, fonte de inspiração para as suas coleções, e que nos são apresentadas como postais; uma sessão de moda no telhado do Palácio Pucci, onde estabeleceu o seu atelier e a partir do qual avistamos a cúpula da Catedral de Santa María del Fiore; o logótipo de três pássaros que criou para a missão espacial Apollo 15, que levou o homem a pisar pela primeira vez a lua; a assinatura à mão de Emilio, que imprimiu em todas as suas estampas reforçando o status de obra de arte das suas criações.

Qual gabinete de artista, há nesta segunda sala de Moon Foulard o confluir do universo estético e intelectual de Pucci, como uma espécie de sala de bastidores onde Rodrigo Hernández nos apresenta desenhos como postais e ilustrações, dando-nos a conhecer a metodologia de trabalho, o processo criativo que esteve na origem de toda a exposição.

Repertório vivo de invenções e experimentações de cores atemporais, Moon Foulard traduz a relevância contemporânea da marca Pucci e do seu criador, ao mesmo tempo que promove um debate sobre as ideias de ornamento, de liberdade e de fantasia dentro da moda e da criação contemporâneas.

Até 5 de dezembro, na Culturgest Porto.

Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

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