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Aprisionados pelos sentidos: Tatiana Macedo e Horácio Frutuoso no CAV – Centro de Artes Visuais

Sinestesia, do grego synaísthesis, é uma condição neurológica na qual a ação de um sentido – visão, audição ou outro – evoca experiências percetivas automáticas e involuntárias por outro sentido[1]. Falamos de sensações expandidas, na verdade experiências muito longe de estarem reclusas a uma única interpretação. Apesar de extremamente rara, é uma porta aberta a múltiplas potencialidades, e que na história da arte teve os seus exemplos, com destaque a Kandinsky que tentou recriar o equivalente visual de uma sinfonia em cada uma das suas pinturas.

Hoje no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, está patente mais um capítulo do Ciclo do Museu das Obsessões, com curadoria de Ana Anacleto, que me parece incentivar a uma experiência igual. Inauguradas no passado dia 2 de outubro, as  exposições Soundtracks for the Deaf, de Tatiana Macedo, e Sétimo Dia, de Horácio Frutuoso, são contributos para a história daquele que é um ciclo que, principiado em 2020, nos comunica sobre o caráter transversal, exploratório, livre e curioso das práticas artísticas contemporâneas. O mote advém do conceito popularizado por Harald Szeemann, cuja visão desafiava as narrativas tradicionais da história da arte, muitas vezes abrangendo campos criativos que extravasavam as artes visuais. O Museu das Obsessões de Szeemann propunha aquilo que aqui, no CAV, são intenções e potencialidades de apresentação – compreendia não apenas o arquivo físico e as inúmeras exposições, como ainda toda a paisagem mental que apoiou a sua construção, todos os momentos de criatividade artística que serviram de base ao pensamento, mesmo aqueles nunca concretizados. O CAV, enquanto espaço de disseminação de arte, mas também de experimentação sobre as práticas artísticas vinculadas à imagem, parte assim desta premissa para promover, todavia, a interseção, formal e conceptual, de várias disciplinas artísticas que se movem para lá das questões visuais.

Em Soundtracks for the Deaf, um som atravessa toda a instalação de Tatiana Macedo. E atravessa-nos a nós. É esta a linha condutora, o compasso que pauta a descoberta, a contemplação e a perceção. Composta maioritariamente por vídeos sem som, nas palavras da curadora, a exposição oferece-nos “uma equilibrada articulação entre sucessivas aproximações ao real – reconfigurando espaços e lugares e refletindo sobre as condições sociais e culturais que definem a vida nesses lugares”[2]. Para isso, atiça-nos com “micro-acontecimentos”[3], nos quais a câmara se demora, admirando episódios aparentemente banais. É este o poder da fixação do olhar que transforma uma realidade provável, noutra aberta de possibilidades, e nos devolve a trivialidade não mais vulgar, antes elevada a obra evocativa e poética. Introspeção. Som e imagem fundem-se e redefinem-se continuamente, numa visita que se eleva a uma terceira dimensão, mais íntima e singular.

À entrada um rosto feminino exibe uma expressão espontânea, claramente descontextualizada daquele que foi o momento que a originou. Há um suspense. Alguém que quer falar, mas não tem voz. O espaço permanece mudo (ou surdo?). À entrada, esta peça parece-me convocar de imediato várias pistas: a figura – curiosamente ou não, num tamanho que invoca a capa de um LP –, fica-se a saber, foi captada no conservatório de música de Pequim.

Segue-se novo indício e a exposição abre-se à interatividade quando somos convidados a usufruir de uns auscultadores que daí nos acompanharão ao longo de todo o percurso. Pautando-nos a leitura, estabelecendo o ritmo percetivo da experiência. É um loop e um exercício: Como ler imagens e som? De que forma as interpretações se mesclam e interrompem quando se percecionam separadamente? Tratam-se, regra geral, de um conjunto de eventos filmados em resultado de uma viagem pessoal da artista à China, cujo som perde a individualidade e torna-se critério comum. A experiência essa é, pois, inevitavelmente cadenciada por cada espectador, que deambula ao seu ritmo, confrontando sucessivas imagens em movimento com distintas passagens sonoras. Uma imersão. Heterogeneidade inevitável e essencial. Não é uma exposição, são muitas, já que corpo, imagem e som evoluem lado a lado, compondo uma sinfonia audiovisual particular. Contrasta, no entanto, com a familiaridade do ruído que se ouve – A-side: Hong Kong Central, obra especialmente concebida para este projeto, materializa o que facilmente atribuímos à azáfama citadina de uma central de transportes, densa, tensa e energética, repleta de avisos e zunidos de hora de ponta, cujo compasso entrecortado leva a consequentes transformações na leitura visual de cada imagem.

É curioso como lidamos com o som. Naturalmente invoca-nos memórias – uma situação, a gargalhada de uma pessoa ou as potencialidades de um objeto; permite, portanto, um certo e imediato reconhecimento ou localização. Porém, na altura em que é vivenciado, raras vezes lhe prestamos atenção de forma consciente. Ou nunca por si mesmo. A vir, vem associado à cena que o acompanha. Talvez o olhar seja indubitavelmente o sentido mais forte. Seremos nós surdos sobre os muitos sons que nos rodeiam? Ou carecemos de uma certa distância aos sonidos habituais e inatamente presentes, constantes, para que possamos ler de outra forma as imagens?

Em Soundtracks for the Deaf, Tatiana Macedo sugere-nos a banda sonora, apelida-nos de surdos e fecha-nos múltiplas janelas possíveis de leitura distinta daquela que é o áudio cedido. Sentido aprisionado. Não é que tenhamos perdido a audição, mas esta condicionada, condiciona-nos a experiência. E, em consequência desta conjuntura de várias esferas de significado e infinitos particulares – visual e acústica, espacial e temporal –, solicita-se a participação consciente do espectador na elaboração de sentido. Enquanto, e de forma sensível, a ironia subjacente no título reflete a tensão geopolítica entre os dois territórios chineses, assim que se compreende que o áudio matriz, captado em Hong Kong, está em relação constante com as restantes obras, todas elas captadas em Pequim no mesmo período.

No piso superior, o Project Room está nas mãos de Horácio Frutuoso, que apresenta cinco trabalhos onde se entrecruzam duas telas e três acrílicos, num diálogo essencial com as particularidades arquitetónicas de uma sala com um passado religioso. O alto pé direito e o teto em abóbada reforçam inércia e uma leitura pausada, que concorre (acrescido das perceções suscitadas no piso inferior) a uma certa desaceleração no observador. Este sentimento é reforçado pelo título Sétimo Dia, numa alusão à herança religiosa judaico-cristã que assume o dia sete de cada semana como o dia do descanso, do prazer, do abrandamento.

Sente-se um incentivo à descodificação dos vários elementos e da sua conjugação. A sala parca em informação, vai-se revelando em apontamentos específicos, transmite um certo isolamento harmonioso com a tonalidade das peças, a sua disposição e o próprio simbolismo que carregam. Por exemplo, a t-shirt às riscas, presente em Ceremony, socialmente detém uma carga negativa associada à penalização e ao exílio do sistema prisional; ideologia à qual concorre a pequena tela de Force Majeure, que por entre palavras apresenta as mãos do sujeito em posição de rendição.

Há um balanço que se constrói in loco como um jogo. Entre palavras e imagem. Entre posição e confronto as peças. Num frente a frente, estão as duas obras supracitadas, que ocupam as pontas da sala – Ceremony, no qual a representação duplicada de um corpo (que se discerne ser do artista) não nos encara. Este suscita-me a ideia de rendição de um homem que se suspende num vazio de incerteza, presente e ausente, difícil de ler. Oposta a Force Majeure, que remata a subjugação do sujeito com as palavras que lhe dão título, referência judicial imediata à suspensão de um acordo entre partes, na qual alguma terá que se render; ou, em contexto religioso, a um ato inexplicável que se atribui a uma divindade à qual normalmente os fiéis se entregam sem hesitação.

Contudo, das várias relações, correspondências, elos e dependências que se estabelecem entre obras, uma destaca-se para confundir e desestabilizar todas as estruturas classificativas entre visualidade e leitura, entre pintura e escrita. Perante a convivência de vários domínios da imagem, num equilíbrio entre as dimensões visual e textual, quebra-se com a pseudo-solenidade da pintura, enquanto se reforça a linguagem do autor, algures entre um registo eminentemente pessoal, em jeito de desabafo, grito, ou compasso musical. Tantas vezes, subtilmente, próximo da música eletrónica contemporânea, cujo sampling se verifica na reutilização e combinação de peças, que cruzam diferentes referentes. Às páginas tantas, já nem se sabe o que é imagem ou texto, na verdade tudo um só; uma vez que a pintura invade o espaço, extravasa a tela e revela-se na arquitetura. Deste questionamento faz-se prelúdio para uma reformulação de sentido. Procura-se nas palavras o caráter poético, vasto e desimpedido das imagens, e tenta-se desvendar nestas a potencial narratividade dos elementos textuais.

Uma fusão – mais do que orgânica – da palavra e da imagem, num conjunto de obras que, apesar de apontarem o real, um quotidiano que imaginamos ser do artista, desencadeiam uma dimensão onírica capaz de favorecer o potencial da imagem em se constituir linguagem e vice-versa.

Soundtracks for the Deaf e Sétimo Dia estão patentes no CAV, em Coimbra, até 5 de dezembro.

 

[1] Segundo a entrada da Infopédia – Dicionários Porto Editora. Disponível aqui.

[2] [3] Segundo a folha de sala de Soundtracks for the Deaf.

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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