Top

Limpar a seco e Mão pesada: João Jacinto e Horácio Frutuoso na Travessa da Ermida

Ao entrarmos no espaço da Travessa da Ermida deparamo-nos, de imediato, com um grande desenho disposto numa tela, assente no chão: observa-se uma árvore longa, com os ramos cortados à exceção do topo. Lembra um corpo alto, esguio, mas desprotegido. Em baixo, figuram-se indícios de um subúrbio: traços de uma casa, um poste de eletricidade. Onde estamos nós a chegar?

Olhando para a direita, exatamente ao fundo da galeria, vemos, perpendicularmente a esta obra, uma imagem pesada, cinzenta. Aproximamo-nos e deparamo-nos com um corpo que nos parece delapidado, rasgado, que grita. A perspetiva é claustrofóbica: ainda que dê a sensação de estar deitado no chão, o corpo encontra-se quase no topo da imagem. A aguada de cores e materiais colados ao papel tornam-no pesado: tudo parece querer cair, vertiginosamente.

Do lado direito, vemos uma outra imagem: na verdade, a última desta exposição. Um espaço fechado, formalmente semelhante à pintura do corpo, mas onde encontramos três janelas negras. A perspetiva, mais uma vez, é inusitada: as janelas afunilam-se no fundo da composição, sendo a maioria do espaço pictórico ocupado pelo teto, arruinado.

O espaço livre, real entre estas imagens é o da Ermida que dá o nome à galeria. Datada já do início do século XVIII, denunciam-se os craquelados do teto, a temporalidade do lugar. Inevitavelmente, é ela que completa os limites impostos pelos objetos expostos: o mapa abstrato que conjuntamente desenham só pode ser unido pela ruína – seja ela simbólica, como efetivamente real. A casa que não vemos nas imagens poderá ser o espaço da galeria: também o tempo a parece ter marcado. A diferença é que a pintura de João Jacinto, ainda que jogando com a memória nas texturas da sua superfície pictórica, é traumática, catártica. Regurgita algo de profundo, que parece mais pesado do que a realidade dos objetos. Uma verdade que pela sua libertação se pretende apagar: limpar a seco, não deixar vestígios. Ultrapassar.

Ao sairmos da galeria, ainda há uma obra que nos falta ver: situa-se umas portas antes, e está disposta como numa montra. Nela vemos uma gravura, da autoria de Horácio Frutuoso, intitulada Mão pesada. Observam-se palavras entrecortadas, algumas sobrepostas. Estas são as que consegui discernir: Metamorfose, Escultura, Ferida Interna, Idade Adulta, Ceremony, Pintura, Suada. Tal como na mostra de João Jacinto, cada palavra estabelece um limite que não conseguimos ultrapassar para as unirmos numa lógica concreta. A construção que obtemos, para além das suas formalidades tipográficas, são significados paralelos que traduzem um pensamento que nos é intransponível. No entanto, a sua verdade está nessa impossibilidade – os jogos de tons, as camadas sobrepostas e escondidas, o enigma – que faz dela uma consciência própria, a que não conseguimos aceder. Por isso, vemo-la enquanto mera aparência, essa “imagem pensativa” que Rancière nos deu a conhecer.

Por vezes, não precisamos de saber tudo.

Limpar a seco de João Jacinto e Mão pesada de Horácio Frutuoso estão em exposição na Travessa da Ermida, em Lisboa, até ao dia 27 de novembro.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)