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Side Facing the Wind: Silvia Bächli na Fidelidade Arte até 26 de novembro e na Culturgest Porto a partir de 18 de dezembro

Uma brisa sobre o rosto, uma aragem sobre o corpo, as mãos do vento que delineiam gestos sobre a pele. E num movimento fluido, é o instante que prevalece, pois o ciclo manifesta-se continuamente na matéria como um fluxo, não como um retorno.

O tempo é devir e, como tal, irrepetível.

Se “todas as coisas se deslocam e nada permanece […] ‘não se pode entrar duas vezes no mesmo rio’.”[1] Em Silvia Bächli, a questão do devir transmuta-se em linhas, exercícios de desenho onde as paredes brancas do espaço de exposição dão continuidade ao vento para além do corpo.

O subtil, a fluidez das formas marca o instante, o interstício das histórias, onde a narrativa se dissipa, dando lugar à memória de um sopro, uma brisa de verão com um guache ocre, ou um amanhecer com a humidade breve, uma brandura de azul.

Na primeira sala de exposição, um antebraço está recostado sobre o apoio. Ambos, corpo e base, são imagens fragmentadas. As formas estendem-se apenas no domínio da imaginação. Nas salas contíguas, já não há corpo, nem resquícios de figuração. São as linhas que prevalecem, pinceladas horizontais e verticais sobre o papel, gestos que se expandem em diferentes escalas e que introduzem o campo do tempo percetivo do espectador.

Os papéis sobre as paredes estão a diversos níveis, assinalando ritmos, planos, linhas, pontuações cromáticas, impressões do vento sobre a pele e transpondo a mesma, no domínio atmosférico, mais perto do firmamento.

Na última sala de exposição, o desenho dialoga com esculturas, pequenos objetos de gesso dispostos sobre uma mesa. A sua epiderme facetada é pintada com guache a diferentes cores. Tal como uma congregação humana, projeta-se a ação do vento nas superfícies: ocres, cinzentos, verdes e azuis, registos da memória sensorial dos elementos.

E num sentido de alteridade, a subtileza de Silvia Bächli dá lugar ao envolvimento da mesma na escolha do próximo artista em exposição:[2] Ângelo de Sousa (1938-2011), o escultor das linhas e objetos, formas elementares. De algum modo, esta passagem de testemunho simboliza o movimento subtil que ultrapassa a superfície do desenho, uma brisa que circunda e penetra o espaço escultórico do corpo.

Side Facing the Wind está patente na Fidelidade Arte até 26 de novembro e inaugurará na Culturgest Porto a 18 de dezembro.

 

[1] Alusão a Heraclito. Excerto retirado de: Platão. (2001). Crátilo. Fragmento 402a. Tradução do grego para o português por Maria José Figueiredo. Lisboa: Instituto Piaget.

[2] Side Facing the Wind consiste na oitava exposição do projeto curatorial Reação em Cadeia, de Delfim Sardo e Bruno Marchand, onde os artistas são força ativa na escolha dos pares que lhes sucedem.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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