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MADEIRADiG — Uma ilha no futuro

Após um ano de silêncio, o MADEIRADiG está de volta. O início de dezembro pode voltar a ser o mesmo, como é desde 2004: uma viagem à melhor música eletrónica exploratória.

Um paraíso, sempre. A Madeira tem essa característica de estar pronta a ser descoberta e de encantar muitos, até os que regressam, como se fosse uma primeira vez. Um festival na Madeira, um arquipélago dado a festas e a celebrações, é um festival no paraíso. É isso que é o MADEIRADiG: um festival no paraíso. Mas não só. Embora ao longo das últimas décadas se tenha dado palcos à música eletrónica/experimental/contemporânea que fogem ao tradicional, na sua essência é música de um trato difícil na sua relação com o público. Não com o seu público, mas o de fora, o que precisa de ser convertido ou aquele que, pelo menos, tem de deixar de fora o preconceito pelo desconhecido. O MADEIRADiG tem quebrado essas linhas invisíveis e facilitado a comunicação entre diferentes públicos. Isso faz parte de um trabalho de um festival e, de certa forma, aqueles dias em dezembro são uma pequena utopia.

O Atlântico a isso convida. As paisagens naturais da Madeira. Há algo inato na conceção deste festival que vence por si só e abre imensas possibilidades e variedades de público. Desde 2004 que a programação surpreende e facilita comunicações entre os diferentes subgéneros musicais das famílias maiores que o MADEIRADiG acolhe. É um lugar onde os músicos, primeiramente, aprendem a estar e depois querem estar. É um festival diferente.

Depois de um ano em que o festival não aconteceu – o horrível 2020 –, a décima sétima edição do MADEIRADiG decorre entre 2 e 7 de dezembro. Uma solução arejada para quem procura um reencontro com este tipo de certames, com a garantia de encontros saudáveis com a música eletrónica e imensas possibilidades de descobertas. A programação deste ano assim o convida (já lá vamos). O MADEIRADiG é pensado por Rafael Biscoito com a ajuda de Michael Rosen, ambos representando duas das cinco entidades envolvidas no festival, a Associação Para a Promoção da Cultura Atlântica (Biscoito) e a Digital In Berlin (Rosen). A Estalagem da Ponta do Sol, o Centro Cultura John dos Passos e o Centro de Artes – Casa das Mudas, desenhado pelo arquiteto Paulo David, são os outros três parceiros, colaborando com a cedência dos espaços onde os eventos se realizam.

Ao longo das edições passaram nomes como Leyland Kirby, Pete Swanson, William Basinski, Grouper/Nivhek, Felix Kubin, Cluster, Maria w Horn, Jamie Lidell, Mocky, Taylor Deupree, Tim Hecker, Kali Malone, Keiji Haino, Heather Leigh, entre muitos outros. Os artistas que vão passando contam uma história, uma que está atenta ao presente e que sabe planear o futuro. O passado é tratado com cuidado, integra-se no presente, com uma visão contínua: a de mostrar música de vanguarda criada por músicos com origens, métodos e visões diferentes.

A coesão na programação é notável. O MADEIRADiG vai além de um festival num local paradisíaco, é um com uma forte componente pedagógica e com uma vontade de estreitar pontes, seja na música que apresenta, ou no público que o acolhe. Um festival de ligação, preocupado em que a música que se ouve, os concertos que se veem, os artistas com quem se conversa não fiquem apenas por ali. A relação pode continuar fora dali. E pode prosseguir no ano seguinte. Como prova a história do MADEIRADiG: quem vai lá uma vez, tende a voltar.

Ouve-se festival e pensa-se de imediato em concertos. O MADEIRADiG tem crescido para além disso, com uma preocupação crescente em atividades de formação de público e de pedagógica cultural, vocacionada para a população local, mas também para mostrar como este tipo de som se pode deslocar para outras vertentes artísticas que extravasam a ideia de concerto. Com essa intenção, à componente maior do festival – os concertos – acrescentam-se instalações artísticas, performances, conferências e, neste ano, um soundwalk na vila da Ponta do Sol.

Os seis dias do festival arrancam com um concerto de João de Nóbrega Pupo (dia 2) no Centro Cultural John dos Passos. Natural da Madeira, Nóbrega Pupo reside há algum tempo em Barcelona, onde estudou Arte Sonora e Animação Digital para Videojogos. Ao longo dos últimos anos tem editado com alguma regularidade no Coletivo Casa Amarela, editora de Lisboa que tem desenvolvido um catálogo interessantíssimo na nova eletrónica portuguesa. Nóbrega Pupo não é exceção, com uma visão singular na relação do som em diferentes tipos de média e como isso se pode conjugar com a música de raiz contemporânea. O festival terminará, no mesmo espaço, com um concerto de Gwenifer Raymond (dia 7) – curiosamente, também tem carreira nos videojogos – a guitarrista galesa conhecida pelo modo cru, abrasivo e violentamente natural com que aborda a guitarra.

Pelo festival passarão alguns nomes históricos como David Behrman. Um dos primeiros artistas a editar na Lovely Music, de Robert Ashley, o seu belíssimo álbum de estreia, On The Other Ocean, saiu no mesmo ano – e na mesma editora – que Vernal Equinox, de Jon Hassell. No MADEIRADiG apresentar-se-á em palco (na Casa das Mudas) com a violoncelista sul-coreana Okkyung Lee, que ao longo da última década tem editado trabalhos impressionantes como The Air Around Her (com Ellen Fullman), Ghil ou Yeo-Neun. Outro nome pioneiro a passar pelo festival será Kafee Matthews, conhecida pelo seu trabalho com eletroacústica e samples, e a procura de sons pouco usuais para justificar a sua presença no espaço e no tempo.

Graças ao fantástico trabalho da italiana Ecstatic, tem sido possível descobrir o maravilhoso trabalho de Abul Mogard, músico sérvio prolífico que tem criado música eletrónica que desafia o próprio conceito de música eletrónica, colocando-a numa constante batalha com o noise e a música de dança. Se se der o caso de o trabalho de Mogard ser desconhecido, colmata essa falha durante o MADEIRADiG. É um dos nomes da eletrónica recente que urge ser descoberto.

Na Casa das Mudas terão lugar concertos de Ben Bertrand, Lea Bertucci, Marja Ahti, Lucy Railton, Giant Swan e Alfredo Costa Monteiro. Ao longo do festival também decorrerão instalações multimédia de Silvestre Pestana, Henrique Leal e Rodrigo Camacho. Haverá ainda uma performance de dança de Sara Anjo e um concerto do trio de jazz madeirense Francisco Andrade & Cia., ambos no Centro Cultural John dos Passos, além dos habituais DJ sets na Estalagem Porta do Sol.

Dezembro está de volta. Hoje parece absurdo reivindicá-lo, mas durante meses que deixaram um estranho paladar, é de regozijar que possamos encontrar este mês de volta e com ele as coisas boas que nos traz, como é o caso do MADEIRADiG. Um festival de música de vanguarda, pensado da ilha para fora, com intenções de ser inteiramente inclusivo, multidisciplinar e pedagógico para quem decide entrar por estas portas adentro. O MADEIRADiG está para lá de um evento numa ilha paradisíaca, durante os dias é uma utopia onde se vive o passado, o presente e o futuro da melhor música eletrónica exploratória.

 

Estudou História Moderna e Contemporânea, mas durante o curso deixou-se seduzir pela escrita, como forma de se distrair, não se concentrar no curso e seguir outro caminho. Tudo começou com a crítica musical. Colaborou dez anos com a Time Out Lisboa como crítico de televisão, cinema, literatura e arte. Escreve no Observador e na Sábado sobre os mesmos assuntos e outros (como videojogos, outra das suas perdições). É um dos sócio-gerentes da Flur e co-fundador da Holuzam.

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