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CAM em Movimento

Com o fecho do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM) devido às obras de renovação e ampliação do edifício, é apresentada uma programação fora de portas. CAM em Movimento parte da ideia de uma obra de arte em movimento na paisagem inspirando-se no conceito de pintura em movimento de Alexander Calder. Conjuga intervenções site-specific de artistas convidados e exposições com obras da coleção do CAM em diferentes espaços e equipamentos públicos da área metropolitana de Lisboa.

Benjamin Weil, diretor do CAM, refere que “uma vez que o CAM está encerrado, estendemos a mão a potenciais visitantes, queremos que a experiência da arte faça parte da vida quotidiana de todos e que isso continue quando o edifício abrir ao público”.

Didier Fiúza Faustino e Fernanda Fragateiro intervém nas carruagens de dois comboios das linhas urbanas de Sintra e Cascais, numa parceria entre o CAM e a CP-Comboios de Portugal. Ambas as obras são constituídas por um vinil que é colocado no exterior do comboio.

Partindo da ideia de paisagem, do seu atravessamento e do conceito de “ligação-comunicação”, Fernanda Fragateiro retoma a peça (Not) Connecting #1 (2007) pertencente à coleção da Fundação (Delegação de Londres), concebendo um projeto visual abstrato, silencioso e não objetivo, onde linhas de cor muito próximas reforçam o movimento descrito pelas carruagens de comboio na paisagem ao ligar dois pontos do território.

Por outro lado, Didier Fiúza Faustino estabelece um paralelismo entre a pele que reveste o corpo humano e o coloca em contacto com o mundo e esta nova pele que reveste o corpo do comboio, superfície de contacto e ligação com o território que atravessa, explorando a ideia de tatuagem nas suas dimensões simbólica e identitária e a sua ligação intrínseca às culturas urbanas.

Para além destas duas intervenções, vídeos da Coleção do CAM serão exibidos em contentores marítimos instalados em diferentes espaços públicos da cidade, numa parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e a HCI Construções. A solidão, a guerra, questões sociais e políticas são exploradas através deste ciclo tendo sempre a paisagem e a natureza como cenários de fundo.

O primeiro contentor encontra-se já instalado no Jardim Gulbenkian e acolhe as obras de João Onofre, Lida Abdul, Pedro Barateiro e Fernando José Pereira.

Em Untitled (N’en Finit Plus) de João Onofre uma adolescente interpreta em a capella a canção La nuit n’en finit plus de Petula Clark. À noite, a jovem encontra-se numa vala profunda escavada num campo relvado enquanto entoa as notas da canção. Através do movimento da câmara apercebemo-nos da escuridão da terra e do espaço confinado onde Beatriz Mateus se encontra, reforçando o momento de clausura e solidão.

Já em White Horse de Lida Abdul, um velho afegão pinta de branco o seu cavalo preto, para, como diz, a doença não se espalhar por todo o corpo do cavalo. Este vídeo poderá ser encarado como uma alegoria à guerra do Médio Oriente, como se o ato de pintar o cavalo na cor branca representasse uma renovação, uma tentativa de ultrapassar a dor da guerra.

A partir do final de novembro, será possível ver as obras de Rui Toscano e Carlos Bunga, na praça do Centro Comercial Fonte Nova e na Ribeira das Naus respetivamente.

Também os tapumes da obra do CAM colocados na Rua Marquês de Sá da Bandeira serão alvo da intervenção do autor de banda desenhada, performer visual e ilustrador António Jorge Gonçalves. Através de O voo do pato-real será possível viajar, guiado pelo pato-real, protagonista desta narrativa, pelo passado do lugar onde hoje se instala a Fundação Gulbenkian, que já foi campo de cultivo, jardim zoológico, velódromo e centro hípico e até feira popular e antever um futuro possível para este lugar.

A Casa das Histórias Paula Rego acolhe ainda 24 obras da Coleção de Arte Britânica do CAM. Michael Andrews, Frank Auerbach, Leon Kossoff, David Hockney, Maggi Hambling, Steven Campbell e Peter Howson, são apenas alguns dos nomes dos autores das obras selecionadas. A escolha reflete abordagens experimentais no campo da figuração, também implementadas por Paula Rego, levadas a cabo entre os anos 50 e 60 que ficariam associados à “Escola de Londres”, ou deve-se à sua aproximação ao universo figurativo da artista.

A programação de CAM em Movimento poderá ser consultada na página da Fundação Calouste Gulbenkian e decorrerá durante o período de obras de requalificação do edifício do Centro de Arte Moderna.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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