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It’s not a landscape, It’s a battlefield: Alexandre Conefrey na Galeria 111

A exposição It’s not a landscape, It’s a battlefield, patente na Galeria 111, reúne um punhado de desenhos realizados pelo artista Alexandre Conefrey, em pastel seco sobre papel. Os desenhos estendem-se ao longo do espaço da galeria, de modo linear, e despontam de forma vibrante, graças às cores que ostentam, e que o artista utiliza com abundância.

O colorido, para além de causar impacto ou deleite, reafirma, ou relembra, a eficácia dos estudos de cor realizados pelos pintores do final do século XIX e do início do século XX. Podem ver-se, lado a lado, no trabalho de Conefrey, a leve gestualidade, a evocar Degas, ou a vigorosa pincelada, a sugerir Van Gogh, com a sua paleta amarelada, melancólica, repleta de girassóis, além das demais solidões com que o artista se debateu ao longo da sua curta vida.

Porém, emerge a pergunta, se é evocada a gestualidade do impressionismo, se é mencionada a vibração do fauvismo, ou o insistente e acentuado pontilhismo da época, o que pretende o artista com esta obra? Será que procura elevar, com as expressões sugeridas na obra, a um patamar que conduza o observador/visitante a abandonar os seus arquétipos mais enraizados, sobre o que é o velho e o novo em arte, sobre a ideia de progresso, sobre a hierarquia ainda existente nas obras de arte?

Conefrey, na condição de observador, e simultaneamente magistral executante, consegue, com um olhar distanciado, e alguma neutralidade, demonstrar-nos, por meio de confrontos, comparações, apropriações, conexões, simulacros, evocar o passado, com tudo o que implica de historicismos sem tabus. Um passado envolto num esforço de superação da arte sobre si mesma. As obras expostas de Conefrey parecem colidir modos de ver, modos de fazer, jogos cujos códigos plásticos se encontram numa perpétua tensão. As técnicas digladiam-se. Reivindicam para si o progresso, a originalidade, a mais avançada descoberta e originalidade, como a crença na tecnologia, que, segundo Adorno, representava a dominação humana sobre a natureza. E que, conforme se observa na atualidade, poderá, inelutavelmente, conduzir à extinção da vida na Terra. Nos desenhos impressionantemente coloridos, e que causam um deleite irrepreensível, sem falar na técnica do artista, de uma qualidade inquestionável, observamos a representação da natureza, de paisagem verdejante. Porém, se observarmos com mais atenção, veremos que se trata de uma paisagem construída, aludindo a campos de golfe. A ausência do homem é por demais evidente. Apenas podemos ver que, do lado de cá, se encontra o artista, como refere João Pinharanda, o curador da exposição. Então, sendo assim, onde se encontrará o homem? Terá sido afastado, como foram os pássaros? Terá sido extinto como a água fora poluída?

It’s not a landscape, It’s a battlefield está patente na Galeria 111, em Lisboa, até 6 de novembro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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