Top

Cidadãos do Cosmos: Anton Vidokle no Espaço RAMPA

Cidadãos do Cosmos, de Anton Vidokle, com curadoria de Miguel Amado e Alexandra Balona, patente até 16 de outubro no Espaço RAMPA, interpela-nos sobre o Cosmismo Russo, as suas várias teorias filosóficas, artísticas e científicas, conceções de imortalidade, ressurreição e prospeção extraplanetária, assim como a sua influência e relevância na contemporaneidade, através de quatro filmes, que a partir da mesma temática, igualmente especulam a respeito da biopolítica, universalismo, utopia, revolução e museologia.

O Cosmismo Russo é um movimento filosófico-cultural, que surgiu no final do século XIX, tendo sido desenvolvido durante os anos 1920 e 1930, por pensadores, artistas e cientistas, inspirados pelo pensamento do filósofo russo Nikolai Fedorov (1829-1903). Os seus três principais componentes são o imortalismo, na crença da imortalidade para todos, através do rejuvenescimento por transfusão de sangue, ou pela ressurreição; a evolução ativa, enquanto superação das limitações impostas pela consciência, natureza, espaço e tempo, como consequência natural do desenvolvimento prolongado da humanidade; e por fim um sistema moral e ético com elementos do cristianismo ortodoxo russo, ocultismo, marxismo e ascetismo, visando a responsabilidade social pela ligação próxima e contínua à humanidade do passado, presente e futuro. A este respeito a folha de sala ainda reitera: “Este movimento atraiu aqueles que, após a Revolução de Outubro de 1917, ambicionavam uma sociedade sem classes, o desenvolvimento das viagens espaciais e o avanço de técnicas de preservação imortal”. De facto, o Cosmismo Russo incluiu uma variedade de noções, com destaque para a conquista do universo, tanto literalmente, como pelo meio da aprendizagem acerca de todo o cosmos. A vida no espaço não se resumiria somente à colonização de outros planetas, mas à aceitação de um mundo interplanetário. Artistas, como Kazimir Malevich, ou Wassily Kandinsky, e escritores, como Lev Tolstói, ou Fiódor Dostoiévski são alguns exemplos da forte influência do movimento, que nos anos 1930 foi desintegrado por Josef Stalin (1878-1953), líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Todavia, o Cosmismo Russo ao longo do século XX e início do século XXI continua a ser um foco de atenção, reflexão e desenvolvimento de novas teorias e práticas artísticas. Veja-se Anton Vidokle, Boris Groys, ou o grupo Collective Actions. Marina Simakova, investigadora e crítica de arte russa, no texto No Mans Space: On Russian Cosmism demonstra: “We have recently seen a growing interest in Russian cosmism as a subject of theoretical polemics and a conceptual frame for several major art projects. (…) it reveals a continuity of thematic interests paradoxically present in contemporary art despite the differences among generations and contexts, formal approaches and idioms”. No seguimento e ainda segundo a autora, o interesse dos artistas contemporâneos pelas ideias cosmistas está relacionado com as noções de que o cosmismo enquanto projeto artístico, considera que a vida eterna é uma arte e que as práticas artísticas são um veículo para divulgar o seu pensamento. Uma teoria utópica distante da nossa atualidade, pelo futuro distópico associado a pandemias, aquecimento global e desigualdades económicas e sociais, mas ao mesmo tempo uma realidade quase concreta, pelas viagens espaciais realizadas recentemente por Elon Musk, ou Jeff Bezos, novas técnicas de rejuvenescimento e aumento da esperança média de vida.

Anton Vidokle, artista, cineasta e editor-fundador do e-flux journal, em Cidadãos do Cosmos apresenta quatro filmes, espacialmente divididos em duas salas, onde na primeira, num único ecrã, audível por toda a galeria, vemos a trilogia Immortality For All: a film trilogy on Russian Cosmism (2014-2017) e na segunda o seu mais recente projeto, em tela singular com auscultadores, Cidadãos do Cosmos (2019). Os filmes têm como ponto comum o Cosmismo Russo, assinalando o seu contexto histórico, pela referência a artistas, pensadores e cientistas, mas também demonstrando a sua pertinência para a contemporaneidade, enquanto percursor do transumanismo, movimento com o objetivo de transformar e aperfeiçoar os corpos humanos, pelo meio de novas tecnologias, como próteses, inteligência artificial, ou programação genética. Da mesma forma podemos enquadrar os filmes numa das vertentes do cinema contemporâneo, nas fronteiras entre a ficção e o documentário. Quer seja pelas gravações com atores amadores e figurantes locais; o recurso a decórs naturais, desde Moscovo à Sibéria na Russia, a Almaty e Karangady no Cazaquistão, ou a Tóquio no Japão; cenários exteriores, como desertos e cemitérios, a interiores, como o Museu Zoológico de Moscovo, ou a Biblioteca de Lenine; banda sonora intercalada por narração em voz off, composição musical clássica e contemporânea, som ambiente, diálogo e citações de textos de Fedorov e outros pensadores; encenação em que tanto temos personagens a interpelarem diretamente para a câmara, como a deambularem pelos cenários; efeitos estroboscópicos, multiplicidade de ecrãs num mesmo plano, animações 3d e montagem de atrações em contraponto a cenas de plano único relembrando a herança teatral do cinema; ou ainda influências estéticas, como o construtivismo russo, a ficção científica, ou os filmes de Sergei Parajanov (The Color of Pomegranates (1969)), ou de Andrei Tarkovski (Solaris (1972)). Vidokle expande assim o cinema no cerne das próprias imagens em movimento, criando uma linguagem tanto realista, como poética, experimental e narrativa, ficcional e documental.

A trilogia Immortality For All: a film trilogy on Russian Cosmism (2014-2017) começa com Isto é o cosmos (2014) onde nos é introduzida a ideologia cosmista, nomeadamente as várias noções de cosmos, enquanto energia cósmica invisível que envolve toda a humanidade, a terra e o universo, assim como o seu percursor Nikolai Fedorov, em particular o seu ensaio Filosofia da tarefa comum (1906-13), tendo como cenário paisagens e locais religiosos do Cazaquistão e da Russia. De seguida, em A revolução comunista foi provocada pelo Sol (2015) é feita uma análise entre o Cosmismo Russo, o comunismo e a importância do Sol para a história, através de diálogos e citações de cosmistas e filmagens no Cazaquistão, onde o biofísico Alexander Chizhevsky, investigador dos efeitos da energia solar no prolongamento da vida esteve preso na década de 1940. Por último,

Imortalidade e ressurreição para todos! (2017) é baseado no ensaio de Fedorov, O museu, o seu significado e missão (1906) em que é defendido que o museu é um local de ressurreição, pelas práticas de preservação e conservação da cultura humana, gravado na Galeria Tretyakov do Estado de Moscovo, no Museu Zoológico, na Biblioteca de Lenine e no Museu da Revolução.

Cidadãos do cosmos (2019) o mais recente filme de Vidokle é uma continuação dos anteriores, porém com ênfase no Manifesto Biocosmista (1921) do poeta Aleksandr Svyatogor (1889-1937), que tem como pilares a imortalidade, a ressurreição tecnológica e o interplanetarismo. Gravado no Japão, o filme tem uma atmosfera diferente dos anteriores, reflexo de culturas distintas e pela estrutura narrativa mais clássica, em que seguimos uma comunidade ficcionada de cosmistas que procede a um ritual de ressurreição, através da transfusão de sangue. Neste filme, o realizador já não tem uma abordagem tão ensaística em relação ao Cosmismo Russo, mas uma aproximação da concretização do projeto artístico cosmista numa narrativa contada por imagens em movimento.

Cidadãos do Cosmos, no Espaço RAMPA, integra o projeto IMAGINÁRIO FUTURO PASSADO, que também inclui Ece Canli, Alice dos Reis e Mariana Vilanova e conta com uma programação paralela que pode ser vista para além do tempo da exposição, como as palestras online com Marina Simakova, Raqs Media Collective, Boris Groys e Michael Marder.

Até 16 de outubro.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)