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Berlin Gallery Weekend Discoveries. Jonas Roßmeißl, Die Neue Statik | A new static, na Klemm’s

construir lentamente a frase pela redução ao absurdo 

Como se procurando comunicar através da negação, vedando de cada vez o acesso ao enunciado errado e assim delimitando o roteiro sem nunca o afirmar, Jonas Roßmeißl serve-se de uma serenidade particular para apresentar um trabalho de investigação cuidadoso e crítico, que tem como virtude maior a demora que inevitavelmente consegue provocar.

Pese embora o cunho assumidamente político, Die Neue Statik | A new static, primeira  exposição do artista na Klemm’s no âmbito da Gallery Weekend Discoveries, é o contrário de uma exposição-manifesto: ao invés de palco de referências directas, utilizadas para ilustrar uma afirmação ou protesto, é antes roteiro de um espaço de provocação e iconoclastia, ativado maioritariamente pelo que não permite, isto é através da vedação.

As peças apresentadas – quer sejam televisores ou embalagens – têm em comum o facto de serem maioritariamente objetos familiares e relacionáveis, retirados do seu espaço funcional através de pequenas transformações que os inutilizam. Ao mesmo tempo que sublinha a inutilidade desses objetos, contudo, Roßmeißl consegue garantir que a perda de funcionalidade não os torna irreconhecíveis. Essa familiaridade é fundamental para a vedação pretendida, pois é nela que se esboça o convite à aproximação.

Entre ruínas limpas, esculturas parcialmente em decomposição, larvas, vestígios de armazéns e telemóveis, a provocação é reforçada pela forma como Roßmeißl se envolve também na curadoria, definindo o modo – no caso o tom iconoclástico – sob o qual os elementos se juntam. A este respeito, não só a iluminação foi desenhada e montada pelo artista, mas foram ainda instalados na galeria dois aparelhos suplementares: um responsável por bloquear a rede móvel e outro por distorcer a imagem sempre que alguém tenta tirar uma fotografia.

Transpondo então o trabalho para o campo do espectador, bloqueada a partilha imediata e vedada a aproximação com um toque de languidez, as peças são entregues a um novo lugar, no caso não mais do que o espaço de exaustão do seu carácter inerentemente inútil, sobrando então a crítica – não a que o artista diretamente enuncia, mas a que o artista ajuda a enunciar. No fundo, a frase é também um jogo que só se dá a ver no fim.

A exposição estará patente até 26 de outubro.

Guilherme Vilhena Martins (1996, Lisboa; vive em Berlim) é licenciado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e trabalha como escritor, tradutor e curador. Atualmente, frequenta o mestrado em Filosofia, com foco em Estética, na Freie Universität de Berlim. É co-fundador da Associação Cultural EGEU, onde desempenha as funções de programador e curador. O seu trabalho literário consiste em crónicas, poemas e pequenos ensaios publicados em projectos independentes em Portugal e um livro de poesia, Háptica, publicado em 2020 pela Douda Correria. A linha transversal ao seu trabalho - criativo, curatorial ou filosófico - é a tensão entre desejo e ficção, assim como o seu papel na construção de estruturas narrativas.

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