Top

Exposição Coletiva para um Único Corpo – A Composição Privada (Lisboa, 2021)

Toda a performance implica um corte. A realidade com que interagimos diariamente distancia-se ao colocarmos o pé no espaço performativo: tornamo-nos observadores que, pelo simples ato de testemunha atenta, acabam participantes no ato a decorrer; entramos no espaço da dinâmica, do diálogo simbólico, das perguntas (desconfortavelmente) sem resposta, até porque não precisamos de dizer nada: é o contexto que responde por nós.

A nova exposição inaugurada nas Galerias Municipais | Galeria Quadrum, Exposição Coletiva para um Único Corpo – A Composição Privada (Lisboa, 2021), rege-se por estas relações. Baseada numa série de performances dispersas, realizadas por artistas do antigo Bloco Comunista, e reativadas em conjunto, pela primeira vez, na Documenta 14 em 2017, têm agora a sua primeira exibição em Portugal e, nesse sentido, procuram enquadrar-se neste contexto específico: como refere o catálogo da exposição, a Composição remete sempre para o lugar de enunciação das obras, para o local onde são exibidas.

A mostra divide-se em dois espaços: o espaço museológico da galeria e o jardim. À primeira vista parece haver uma separação: o museu enquanto lugar de documentação e reflexão acerca das performances e o jardim enquanto lugar da sua encenação. O comprido conjunto de vidraças que separa os dois espaços parece tornar o contraste nítido. No entanto, ao observarmos os documentos – principalmente fotografias dispostas no chão da galeria, relembrando as ações originais, ocupando um espaço concreto – podemos deparar-nos com os performers a entrarem também pelo lugar da exposição e a fazerem dele palco e enunciação. Nunca estamos seguros, a mostra procura sempre colocar-nos num lugar ativo de participação, envolvimento, encruzilhada: confronta-nos a habitar o espaço coletivo.

Foi nessa dinâmica interventiva, catalisadora que terão surgido as ações originais que aqui se reproduzem conjuntamente, intenção que permaneceu nas outras exibições da mostra que agora se realiza em Lisboa: reativadas, pela primeira vez, em Atenas e Kassel, as ações forçaram-nos, nesse contexto, a olhar para a crise económica que interligara os dois países. Em Lisboa, a encenação das performances não estava planeada para o jardim da Galeria Quadrum, mas sim para a Rua do Poço dos Negros, cuja memória histórica se interligaria com a confrontação performativa das ações encenadas. No entanto, ao não sabermos este dado, não daríamos por ele: a interligação dos dois espaços da exposição, e os diálogos que produzem, parecem meticulosamente planeados desde o primeiro minuto. A encenação de uma obra como Subjective-Objective Cultural Situation (U.F.O) de Július Koller enquadra-se de tal modo no jardim da Galeria que a enorme árvore que o habita parece sublinhar a verticalidade da ação, compondo um corpo à imagem da natureza. As ações realizadas procuram todas interagir com o espaço: os corpos escondem-se atrás de árvores, tentam diluir-se nos cantos dos edifícios, olham, frontalmente, para nós; há um testar de todas as possibilidades, o corpo torna-se objeto num momento, para no outro estar a falar, diretamente, connosco.

Na galeria, para além da documentação histórica das performances, é de notar a presença de outras obras que não dizem respeito, exclusivamente, a esse universo, tais como as colagens de Katalin Ladik ou as 6 peças carimbadas de Milan Adamciak: a incorporação destas peças sublinha as dinâmicas de associação e repetição essenciais ao ato performativo, e que cada um dos executantes adapta à sua linguagem corporal, ciclicamente; para além disso, estas obras assinalam o conceito de unidade artística, vivenciado à época, que acaba por definir o núcleo da exposição: a dissolução das barreiras entre arte e vida, decorrentes das atividades desconstrutivas das neovanguardas, tornando a própria ação numa forma de criação.

Em Lisboa, uma performer repete a frase: “isto tem futuro?” enquanto deitada se volta na relva do jardim, tentando adormecer: a pergunta remete-nos a um sentimento de desespero, um ambiente de dúvida claro ao momento presente. A performance, pelo seu caráter interventivo, pelas suas esperadas quebras de linguagem e silêncios desconfortáveis, induz-nos a uma possibilidade de futuro, assente na atenção, na escuta, na arte enquanto meio de agitação e transformação sociopolítica. “Isto tem futuro?”, perguntamos agora nós. Só nos resta esperar que sim.

A Exposição Coletiva para um Único Corpo — A Composição Privada (Lisboa, 2021) está patente nas Galerias Municipais | Galeria Quadrum em Lisboa, até ao dia 24 de outubro.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)