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Corpos-vulto e “um homem adulto a espatifar o seu carro de brincar”

A cisterna circular da Casa da Cerca abriga Raposa, uma instalação de André Romão. O artista retoma um objeto de trabalho recorrente: a reflexão sobre o encontro entre corpos e a síntese da nossa existência. Esta materialização é, de uma forma prática, a expressão da universalidade atómica de todos os seres que pisam a terra. Talvez seja até uma nova proposta da Origem das Espécies, que justapõe anatomia, formação e evolução dos vários sistemas naturais. Neste caso, a metamorfose está ironicamente armazenada num antigo reservatório de água, que por sua vez tem uma estrutura cilíndrica, lembrando um casulo de uma borboleta.

Logo à entrada do “covil da raposa”, uma pista é deixada a quem entra: um pássaro caído, talvez o vestígio de uma saída para a caça. Na ferida, cresce, de dentro para fora, um mineral translúcido e brilhante. No suspense da expectativa surgem figuras fantasmagóricas que ocupam o espaço entre dois círculos acrílicos de luz colorida. E no final, o encontro com o temido canídeo. Ao encontrar o que seria a materialização da raposa está apenas o que se supõe ser a sua perna. No lugar dela está suspensa uma perna humana coberta de conchas negras e com um pé de pau na sua extremidade. Nesta amálgama esotérica vinda de uma fábula parece flutuar um mistério: porque se esconde a raposa?

No lado oposto do pátio, Ghia Coupe, de Thomas Langley. Nas telas o mesmo momento repete-se entre a fluidez da linha e os lugares abstratos, e recupera-se a “memória pessoal da infância na pista de corridas” que, à medida que se trabalha, “se torna cada vez mais uma distorção ou uma lembrança nebulosa”. O cenário é o seguinte: numa pista de asfalto onde aceleram em corrida carros de sucata um deles é o Ford Ghia Coupe do pai de Langley. Uma banger racing!

O movimento da ponta de carvão sobre tela crua simboliza uma experiência que, ao mesmo tempo, é também puramente material, preparando a base onde se encontra uma “harmonia em tensão”. Segundo o artista “A atitude de fazer estes desenhos tem sido algo semelhante a essa busca pelo quase embate”, sendo a sua materialização artística semelhante à de um condutor de banger racing na pista. É no acontecimento da própria corrida que “ao fazer freeze frame à beleza inata, ao momento da colisão” se encontram outros elementos inesperados como flores e folhagem que surgem de momentos espontâneos diy com o contacto com os materiais de desenho, ambos em estado puro.

Para Langley, a produção destes desenhos é tanto uma experiência física, nostálgica, como também uma aprendizagem, retirando “a energia inerente ao cenário das corridas de banger racing”. Nesse aspeto, simular a pista no momento de produção “não é diferente de fazer um desenho, há muita liberdade nessa abordagem”.

Raposa e Ghia Coupe podem ser visitadas na Casa da Cerca até 24 de outubro. A entrada é livre.

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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