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A arte de projetar juntos: um passeio pela 17ª Bienal de Arquitetura de Veneza

Mais arte do que projeto! Tal é o primeiro pensamento que nos ocorre ao chegar a Veneza, por ocasião da décima sétima Bienal de Arquitetura (visitável até ao fim de novembro).

Curada por Hashim Sarkis, arquiteto libanês com um currículo igualmente votado às artes visuais, a Bienal deste ano apresenta-se mais divertida, inclusiva, positiva e sobretudo recheada de instalações que (se ainda disso tivessemos necessidade) confundem as águas entre as disciplinas criativas.

Sob o título How will we live together (Como viveremos juntos), o melhor da Bienal nesta edição encontra-se mais nos diversos pavilhões nacionais – e nos Jardins, bem como no Arsenale – que propriamente na mostra geral.

Os temas são, indubitavelmente, aqueles que nos acompanham há vários anos, mas que – perante a pandemia – ganharam ainda mais força e urgência: a tutela do meio-ambiente, sem esquecer a vida dos habitantes de muitas áreas do mundo que têm dificuldades quotidianas; a proteção dos mares, das florestas e igualmente das nossas cidades; as possibilidades de reciclagem da água, da madeira, ou de espaços metropolitanos desprovidos de graça e, continuando no tema, visões plurais sobre os confins do planeta, a colocação de hipóteses sobre como evitar o despovoamento de países inteiros, ou a morte dos territórios.

Os mais críticos poderiam opinar que ainda estamos com a mesma sopa no prato mas, se por um lado é mesmo verdade, outras vezes – como nesta Bienal – observar e entender as obras vale mais do que muitas palavras: elas possuem uma enorme força poética, suscitam a reflexão e fazem cair, na maioria dos casos, aquela atitude repreensiva, negativa, moralizante, que se torna incompatível com os homens como habitantes e parte integrante desta Terra, pensamento que em muitas ocasiões nos acompanhou.

Aqui, os seres humanos são protagonistas e convidados a repensar o presente para construir um melhor amanhã, de uma forma ágil, misturando saberes, identidades e contando com uma natureza ligada, mas não escravizada, às novas tecnologias.

É precisamente isso que nos ensina o pavilhão da Dinamarca, curado por Marianne Krogh, com a participação do Lundgaard & Tranberg Architects. Aqui, graças a um sistema hidráulico, as águas da lagoa de Veneza são depuradas para criar um ambiente onde se pode descansar sobre sofás cercados de pequenos rios, e também tomar um chazinho de hortelã feito a partir de líquidos reciclados.

O Chile, colocado no Arsenale, tem o pavilhão mais poético da Bienal. Com quinhentos quadros de pequenas dimensões dispostos uns perto dos outros, fala-nos sobre as difíceis condições do bairro José Maria Caro, em Santiago. Pinta, literalmente, os prós e os contras de se viver junto em comunidade, dando a sua interpretação sobre o tema da Bienal. Sem oferecer soluções, dá, no entanto, um sinal forte do que é o viver hoje numa certa latitude e em determinadas condições.

O pavilhão de Portugal está hospedado no belo palácio Giustinian Lolin, perto da ponte da Accademia. Aqui, o estúdio DepA Architects escolhe contar-nos uma série de situações de conflito geradas pela arquitetura contemporânea no país, após a Revolução dos Cravos. Leve nas estruturas expositivas, mas densa nas questões colocadas, a exposição socorre-se de sete exemplos na narração de In Conflicttítulo da mostra -, para lançar luz sobre como a arquitetura gera debates, protestos e utopias de mudanças, criando problemas sociais antes de tê-los resolvido, e às vezes sem que os projetos se encontrem sequer concretizados na realidade.

Utopia da vida em comum é o título que o Brasil deu ao seu pavilhão. Em duas salas distintas analisam-se o ontem e o hoje das utopias projetuais que sempre acompanharam a vida de muitas arquiteturas do país. Se de um lado temos exemplos de como o povo brasileiro se reapropriou de espaços impossíveis, como aquele em redor do Terminal Rodoviário Pinheiro, em Belo Horizonte, ou o que é chamado “prédio de Pedregulho”, a norte do Rio de Janeiro; de outro, o desafio hoje é como pensar as novas formas de convivência exequíveis, para além da experiência coletiva, vivida, da pandemia e das utopias, propriamente ditas, nunca realizadas antes.

Inglaterra: um dos pavilhões mais bem arquitetados da Bienal! Uma mensagem simples e forte, que vem logo explicada no seu título: The garden of privatised delights. Inspirado no Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch, em Veneza os ingleses refletem sobre os lugares, especialmente ao ar livre e definidos como “públicos”, -que, ao invés, se fecham, transformando-se em espaços particulares. O que fazer quando gerações inteiras – de adolescentes, por exemplo – são completamente esquecidas e não têm nenhum lugar onde crescer em comunidade? Como resolver o problema dos espaços ainda mais privatizados, agora que a pandemia tão bem demonstrou a importância de se ter acesso ao ar livre, ao verde, à natureza, mesmo que seja urbana?

Japão: curado por Kozo Kadowaki, o projeto apresenta uma típica casa japonesa em madeira que, inicialmente destinada a ser demolida, foi transportada até Veneza sem ser reconstruída. Pelo contrário, os elementos estruturais da casa estão organizados individualmente, de maneira muito zen, ao longo de todo o percurso do pavilhão. Porém, tratam-se na verdade de partes residuais: a maioria dos pedaços da casa estão espalhados pelos Jardins da Bienal, reutilizados em bancos e outras estruturas. A arquitetura do Japão, aqui, transforma-se em narração, numa viagem que não termina na lagoa, mas que prosseguirá até à Noruega, onde ainda passará por uma nova transformação.

A Bélgica já foi premiada na Bienal de Arte, em 2019, com uma menção especial pelo belo projeto Mondo Cane dos artistas Jos de Gruyter e Harald Thys. O país confirma-se mais uma vez como um dos mais originais, com a instalação curada pelo Bovenbouw Architectuur. O estudo realizado para a mostra recorreu a  50 outros estudos para criar um ambiente urbano que, embora  fictício, descreve muito bem aquela que é uma típica cidade da Flandres, com as suas caraterísticas próprias: estratificações históricas, particularidades morfológicas, problemas imprevistos que determinam aquilo  que é descrito como um “ambiente durável e alegre”, cuja construção tem bem presente os elementos sociais e da paisagem circundante.

Alemanha e Itália: os piores da Bienal! O primeiro pavilhão é completamente vazio, com a exceção de alguns QR Codes nas paredes, que nos contam, através do ecrã do nosso telemóvel, como será a vida em 2038. Mais valia deixá-lo fechado! Como já disse antes, seria melhor pensar no hoje, para que este não seja vazio ou pior, relativamente ao nosso amanhã, que já estamos a viver!

O segundo pavilhão, pelo contrário, está tão recheado de projetos, temas, formas, paredes, legendas, móveis e histórias, que é praticamente impossível conseguirmos ter apenas um minuto de atenção. As comunidades resilientes sobre as quais deveria falar o pavilhão italiano espalham-se sem força no fluxo da Bienal; embora faltem algumas participações nacionais e os visitantes em Veneza sejam em menor número do que em tempos não pandémicos, sempre permanecem. Gerar um ponto de atenção é o mínimo que se pode fazer no meio da desordem dos nossos momentos interessantes.

 

17ª Bienal de Arquitetura de Veneza, até 21 de novembro 2021, em Veneza, nos Giardini della Biennale, no Arsenale e em diversos outros lugares.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte. Atualmente é Diretor Responsável da revista italiana exibart.com e colaborador para o semanário D La Repubblica. Além de jornalista, fez a edição e a curadoria de vários livros, entre os quais Un Musée après, do fotógrafo Luca Gilli, Vanilla Edizioni, 2018; Francesca Alinovi (com Veronica Santi), pela editora Postmedia books, 2019; Prisa Mata. Diario Marocchino, editado por Sartoria Editoriale, 2020. O último livro publicado foi L'involuzione del pensiero libero, 2021, também por Postmedia books. Foi curador das exposições Marcella Vanzo. To wake up the living, to wake up the dead, na Fundação Berengo, Veneza, 2019; Luca Gilli, Di-stanze, Museo Diocesano, Milão, 2018; Aldo Runfola, Galeria Michela Rizzo, Veneza, 2018, e co-curador da primeira edição de BienNoLo, a bienal das periferias, 2019, em Milão. Professor convidado em várias Academias das Belas Artes e cursos especializados. Vive e trabalha em Milão, Itália.

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