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Festival Paragem: Práticas artísticas contemporâneas em época balnear

Verão no Algarve é altura para férias, praia, sol e calor. E porque não o palco das artes visuais e performativas?

Foi perante este desafio que a Associação Bóia criou em 2019 o Festival Paragem, na praia do Carvoeiro, em Lagoa, um festival que tenta responder ao mote (De) Férias no Algarve através de obras de artes visuais e performances.

Em duas semanas, nos dias 9, 10 e 11 e 16, 17 e 18 de setembro, artistas das áreas da música, do teatro, da dança e da arte da performance, mas também dos campos das artes visuais, da literatura e de outras áreas da criatividade, juntaram-se para, em sítios com tanto de icónico quanto de inusitado, atuar em espaços como: ruas, praças, jardins, praias, mercados, eiras, adegas, ruínas, lojas, olarias, grutas, estações de serviço, recintos desportivos e unidades hoteleiras, algar seco, farol ou no passadiço do Carvoeiro, para um público local ou fruto do turismo.

Este é, assim, um festival itinerante, em que espetáculos se passam em uma ou várias zonas do território, envolvendo aqueles por quem passa, eventualmente não habituados a uma vida cultural intensa.

O festival tem um conceito muito ligado ao território onde se passam as suas atividades, contribuindo para um novo olhar sob estes espaços de outro modo ligados quase exclusivamente a Verão e férias. Representa também um grande desafio aos artistas que foram desafiados a apresentar obras nestes espaços, reinventando-os aos olhos do público.

O festival permitiu dar a conhecer artistas nacionais e locais, alguns mais consagrados que outros, mas também contou com nomes internacionais.

Pudemos ver a exposição de fotografia Noite de Praia, 1984, da dupla UMA, na fachada da Piscina Municipal de Lagoa, onde se reproduziu uma noite de verão passada na infância das artistas, que nunca partiam de férias, ficando em zona de férias dos demais, vivendo o calor e a praia «com as emoções à flor da pele».

De 10 a 19 de setembro, foi possível observar na praia do Carvoeiro a instalação Escola Provisória (para nada), onde Sara Vaz e Marco Balesteros pensaram o ensino como fundação, um princípio primordial para a ação e para uma visão do mundo como construção social ampla.

Houve ainda lugar para o lançamento de um perfume, Colónia de férias, de Miguel Matos, perfumista e crítico olfativo, já com 63 perfumes no mercado internacional, que foi pela Associação Bóia desafiado a criar um perfume inspirado pelo Algarve, pelas suas férias em criança e pelas matérias-primas da região, daí resultando um perfume com um «estilo clássico com um twist vanguardista».

Onde estamos, um projeto da artista visual Susana Mendes Silva, foi um laboratório artístico desenvolvido com uma turma da Escola Secundária Padre António Martins de Oliveira no âmbito do LA(B)GOA e destinou-se a pensar sobre o que é e como se constrói a nossa noção de identidade, como criamos ligações ao lugar onde nos encontramos e como podemos procurar e desvelar histórias perdidas, esquecidas, ou apagadas das narrativas oficiais.

Houve ainda um comboio-mistério com paragens inesperadas e algumas surpresas, um concerto de João Ferro Martins e a Banda Filarmónica de Silves e a mostra de um vídeo de Vasco Araújo, Se eu começasse de novo.

Em termos de performances, o ponto forte do festival, os destaques vão para Partilha Elástica, de APNEIA COLECTIVA, onde as performers questionaram através da interação entre elas os conceitos de encontro e sua duração, densidade e extensão, através da partilha de uma pastilha elástica.

Em Discurso de circunstância, de Nelson Guerreiro, houve também lugar para o que o programa designou como Retórica e Performance, numa discussão sobre o território e sua reinvenção e criação de novos cenários e descoberta de um novo futuro.

A dupla Electro-Domésticas apresentou a performance As Argilosas, remetendo para o universo da argila, material moldável, resultando num conjunto de imagens em movimento com o objetivo de transportar o público para os vários momentos da sua história de vida e familiar.

Tableau Vivant, performance de Vânia Rovisco, debruçou-se sobre a mudança constante, entre momentos de sensibilidade, velocidade, lentidão, no fazer e desfazer.

Em A besta, as luas, performance de Elizabete Francisca que finalizou o dia 9 de setembro, a performer procurou, numa série de gestos e sons, representar a geografia política de um corpo não submisso, o corpo como arma política capaz de afirmar e se reconciliar com a sua identidade.

No dia 10 de setembro, destaque para a performance de dança Blind dance, de APENEIA COLECTIVA, onde a dança é explorada enquanto ritual e onde os performers alternavam entre o «ser e estar» e o papel de observador.

No court de ténis do Carvoeiro, com a performance ou «conferência inevitável» On est ici, on est ici, pas partout!, é discutido o conceito de escola no seu duplo significado de «discussão ou conferência» ou «folga ou ócio». Discute-se também a produção de conhecimento pela arte e o ócio como lugar de invenção.

Em Trapézio, de APNEIA COLECTIVA, há uma coreografia de cinco partituras individuais, dançadas em simultâneo, numa dança repleta de humor e extravagância.

Em E hoje, é um esquilo?, conferência-performance de Sónia Baptista, reflete-se sobre a prática artística como investigação filosófica e poética e vice-versa. Três ações comuns – ler, caminhar e escrever – transformam-se em atos poéticos com alicerces na história pessoal e na memória de um passado mais recente.

No dia 11 de setembro, destaque para A collection and the means for its display, de Sara & André, onde uma pequena coleção de conchas reunida em 2015 é devolvida à natureza.

Em Light, de CATARATA, há uma queda de som em forma de cortina. Entre os sintetizadores alterados pelo bloco de efeitos, samples, beats e guitarra elétrica, tem lugar um acontecimento que se define pelas possibilidades combativas e aglutinadoras destes objetos sonoros. Enquanto a síntese debita um volumoso corpo harmónico, a guitarra pode tornar-se puro ruído ou a mecânica criada pelo sampler e os ritmos hipnóticos obrigam os outros elementos a procurar lugares mais tonais. A fluidez da cadência musical, da sintonia e de uma incontornável aceitação do presente dita os encontros e desencontros que poderão promover a mais frutuosa sinergia entre o acontecimento sonoro, os músicos e o público.

Em As copeiras, de Electro-Domésticas, há uma mistura de saltos altos, copos de vidro e o som resultante da tentativa de equilíbrio dos corpos através da quebra dos copos, evocando os sapatos da Cinderela.

Em TIPO, the night, de APNEIA COLECTIVA, um solo, onde um corpo num espaço fechado dança ao som de Morphine. As palavras de Morphine misturam-se com as do próprio performer, que descreve as suas imagens de assombro ou, pelo menos, aquelas que pôde partilhar. Um espaço de intimidade, no qual o público é convidado a estar presente. Ambos, performer e público, usam auscultadores e é através deste dispositivo que partilham a mesma narração. O espaço é negro, pontuado por linhas de cor e de luz. Amarelo, rosa, vermelho e azul. A performance termina quando a música chega ao fim.

E em THE ROOM. THE ROOM. THE ROOM IS ON FIRE!, um estudo para a construção de Esa Cosa Llamada Amor – 10 Anos Depois, o original de 2011 que se perdeu. Não existe guião, o registo vídeo foi-se para sempre, os adereços originais já estão no lixo. Sobraram os figurinos e a memória. Neste estudo, em vários formatos – vídeo, fotografia, instalação – sobre um espetáculo à deriva, num conjunto de memórias que mais não são do que evocações de um tempo que já não existe. Ao mesmo tempo, este pequeno vídeo procura ser um estudo sobre a nossa educação para o amor.

Mais uma paragem ficará com certeza no mapa das artes visuais e performativas no Algarve.

Joana Carmo licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas, tendo em seguida frequentado uma pós-graduação em Mercados de Arte e Colecionismo. Atualmente é técnica superior do Museu Zer0 (museu de arte digital que se encontra em instalação no interior do concelho de Tavira) onde coordena o seu Serviço Educativo e Públicos.

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