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Entrevista com John Romão, diretor artístico da BoCA – Biennial of Contemporary Arts

Rodrigo Fonseca – Quando falas sobre a performance On Revelations and Muddy Becomings, de Odete, referes uma humanidade por vir. Esta humanidade por vir vai de encontro ao lugar de amor «entre» e «trans» que referes e à presente desumanização a que assistimos?

John Romão – Quando refiro essa humanidade por vir, tem que ver com duas dimensões: com esta dimensão da rescrita da história, ou da escrita de novas narrativas, no caso dela focando-se numa abordagem crítica do silêncio histórico face a algumas figuras reais e mitológicas que convida para habitar as suas histórias, as suas narrativas, que misturam o documental e a imaginação. Têm que ver com as seguintes questões: corpo, identidade de género, mundo queer. Além destas questões, há ainda um espectro colaborativo muito relevante no seu trabalho: está permanentemente a trabalhar com os outros. Para esta performance, convidou Tita Maravilha e Herlander, artistas que têm o seu próprio corpo de trabalho e as suas próprias dinâmicas, que encontram eco e empatia através dos discursos que são transversais a todos os artistas: este lado colaborativo e dos afetos. Parece-me que esta dimensão dos afetos é cada vez mais importante… Quando falamos de afetos, falamos de corpos, e muitas vezes estamos a falar de corpos que existem, a ter afeto por uma pessoa concreta ou por um ser vivo em específico. Tem que ver com a manifestação de afeto por uma coisa que ainda não tem forma, por uma coisa que se pode construir através deste encontro, desta contaminação, desta comunicação com este seres imaginários que se podem vir a materializar, ou não… Afetos de outra escala, que não apenas a do corpo humano.

RF – Referes uma «perspetiva holística» quando falas sobre como propor narrativas que reforcem as codependências entre seres vivos. Face a um mundo cada vez mais sectário e reducionista, como vês possível abrir espaço ao holismo para que essas codependências surjam?

JR – Tem uma vez mais que ver com a dimensão dos afetos. É mesmo urgente criar uma radicalidade afetiva, uma «empatia forçada», como diz a Tania Bruguera. Embora ela refira isso no âmbito da imigração e dos migrantes, faz sentido abrir este conceito de «empatia forçada» de maneira a não ser referente apenas a um grupo… De repente há o outro, os assuntos do outro que nos dizem respeito, um outro como representação de todos os seres vivos, de interdependência global em relação aos assuntos dos outros em várias escalas: seja uma planta, um micróbio, seja o ser humano, seja um animal, enfim. Essa perspetiva holística é uma resposta a este tempo. O ponto de partida para a reflexão do título da BoCA [Prove You Are Human] ancora-se na dimensão do digital, ampliando-se e ganhando outras camadas de leitura. Voltamos sempre a falar do digital quando falamos da dimensão dos afetos, estamos sempre com este pano de fundo… Que é um problema! O digital aproximou-nos, mas por outro lado afastou-nos bastante destes elementos mais primários, mais viscerais, mais humanos. Acho que as práticas artísticas têm a capacidade de construir assembleias temporárias, encontros que possibilitam termos a consciência da importância dos afetos.

RF – Gostaria que falasses um pouco dos trabalhos artísticos de Grada Kilomba, Khalik Allah, Pedro Costa e do coletivo LASTESIS, uma vez que todos eles propõem um revisionismo histórico à narrativa pós-colonial hoje em dia perpetuada.

JRAs Filhas do Fogo, de Pedro Costa, teve que ser cancelado. Sobre o coletivo LASTESIS: um coletivo de mulheres feministas que surge da instabilidade política vivida no Chile, que marcou sobretudo o ano de 2019. Nesse ano, a 20 de novembro, a performance Un violador en tu camino é apresentada nas ruas de Valparaíso e consequentemente replicada em dezenas de países por milhares de outras mulheres de forma espontânea no espaço público. Resistencia (a 13 de outubro, na Praça da Liberdade, em Almada) não é um trabalho terminado, é um trabalho que vai resultar do encontro de oitenta mulheres e dissidentes de género locais (selecionadas através de uma open call) com o coletivo feminista, durante quatro dias, em Almada. Esta performance funciona sobretudo como uma plataforma de denúncia de algumas problemáticas que são globais: a relação do corpo feminino com as questões da liberdade e da representatividade. Com referência a autores como Judith Butler e Paul B. Preciado, abordam temas como o terror, a precariedade, a denúncia da violência. Sobre a Grada: O Barco (até 17 de outubro, no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa) é uma instalação e uma performance produzida em Lisboa pela BoCA em coprodução com o MAAT e o Staatliche Kunsthalle Baden-Baden. O Barco abre espaço para uma discussão alargada, para um debate que tem uma dimensão cerimonial, uma dimensão fúnebre, de luto perante a história. É sobretudo um alerta. Chama a atenção para a importância de uma rescrita através da luz que é colocada nas feridas do passado, para a necessidade de se queimarem alguns livros, algumas narrativas, de modo a dar lugar a outras. É tão importante criar novas narrativas quanto destruirem-se outras. À semelhança de Odete e do coletivo LASTESIS, o trabalho de Khalik é também realizado num contexto colaborativo. Na bienal, apresentou o seu último filme IWOW – I Walk On Water (a 28 e 29 de setembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e a 2 de outubro, no Auditório IPDJ, em Faro) e levou a cabo o workshop Camera Ministry. Khalik precisa realmente dos outros para fazer o seu trabalho, precisa da sua disponibilidade e vulnerabilidade. Através dos corpos dos outros, constrói uma narrativa que é a deles. Interessa-se bastante por essa alteridade. Há uma dimensão muito espiritual no seu trabalho que eu gosto particularmente… Ele diz que olha para os outros como uma espécie de luz, no sentido espiritual. É curioso falar de luz nesse sentido porque o artista trabalha a fotografia e o vídeo, duas técnicas que consistem na entrada da luz numa lente.

RF – Queres destacar alguma coisa daquilo que ainda está para acontecer até ao final da bienal?

JR – Além da estreia a 16 de outubro de Trouble, de Gus Van Sant, no Teatro das Figuras, em Faro, [queria] destacar mais dois espetáculos: Lavagem, de Alice Ripoll, a 9 e 10 de outubro, e Trópicos Mecânicos (MUEDA), de Felipe Bragança, em parceria com o Teatro GRIOT e Catarina Wallenstein, de 1 a 3 de outubro – ambos na Lisnave, em Almada.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu na Itália, Grécia, e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo, entre a pele da planta do pé e a pele da superfície do chão. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. É um dos fundadores da CusCus Discus. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espetáculo PARAANDAR, inserido no Festival Snow Black 2019 (Moita), e no evento A TROPA BELADONA (2019), na ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (Barreiro) — produções d’A Bela Associação.

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