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OSSO – Residências artísticas na aldeia de São Gregório (Caldas da Rainha)

A OSSO – Associação Cultural, criada em 2012, constituída por artistas e investigadores de diversas áreas, tem como foco o apoio à criação, investigação, programação e formação de projetos de cariz experimental, através de práticas artísticas que potenciem um pensamento crítico, estético e político, perante os contextos e territórios específicos nos quais se inserem.

O coletivo formalizou-se no decorrer de uma série de projetos em que os vários membros estavam envolvidos, exemplos do seu carácter transdisciplinar e participativo. O Parque (2000/2015), projeto coletivo dirigido por Ricardo Jacinto, que combinava música, instalação e artes plásticas; o Eye-Height (2010/2013), espetáculo de Beatriz Cantinho e Ricardo Jacinto, com Nuno Torres, Francesca Bertozzi, Marta Cerqueira, Filipe Jâcome, entre outros, onde um dispositivo, simultaneamente cenário e instrumento foi palco para a criação coreográfica e musical; ou o Campo Próximo (2015/2020) um projeto sonoro site-specific que jogava com a perceção e a construção de lugares e que partiu das investigações de doutoramento de Diogo Alvim e de Matilde Meireles. A OSSO, inicialmente na Fundição de Oeiras, posteriormente num espaço da Trienal de Arquitetura, atualmente está sediada na aldeia de São Gregório, perto das Caldas da Rainha, onde os projetos de criação são o centro da atividade, em articulação com a investigação académica e o pensamento sobre a pedagogia artística, que na prática se reflete em workshops, oficinas, ou em programações, como os Dias Abertos, em que os habitantes da aldeia e das Caldas são convidados a visitar os estúdios, incentivando momentos de partilha, reflexão e convívio. Nesse sentido, o Programa de Residências Artísticas surge em 2018, com o objetivo de acolher artistas, investigadores, ou formadores, apoiando na investigação, programação e/ou formação artística em diálogo com a comunidade envolvente. As inscrições são realizadas através de Open Call, nas categorias de criação e investigação, em que aos artistas e investigadores, nacionais e internacionais, é lhes solicitado o envio de propostas sem preferência por área artística, ou pelos seus cruzamentos. No entanto, também são feitos convites a artistas com quem tenham afinidades e são aceites autopropostas. Aos atuais residentes, o fotógrafo Rui Pinheiro, a artista visual Sara Bichão e o Tiago Fróis (Oficinas do Convento), foi-lhes proposto a realização de projetos ligados à ideia de território no contexto do projeto de programação NA RUA. Citando o site da OSSO: “Sendo este um conceito multifacetado, que podemos relacioná-lo com noções de espaço e lugar, com os limites de um estado ou propriedade, identidade e comunidade, domínio e controle. Pode referir-se tanto a uma área limitada de terra, como a áreas de conhecimento, disciplina, atividade ou experiência”.

A OSSO abriu-nos as portas durante um fim de semana, simultaneamente à estadia de Rui Pinheiro, permitindo que ficássemos a conhecer melhor o seu programa de residências artísticas, através da observação direta, assim como entrevistar presencialmente Ricardo Jacinto (Direção Artística) sobre o trabalho da associação e a envolvência com a comunidade e o território.

Chegados à aldeia de São Gregório durante a noite, os seus pormenores foram pouco visíveis, porém à luz solar percebemos que foi erigida no cimo de um vale, por onde serpenteia um viaduto, e constituída por uma rua/estrada central envolta por casas, alguns estabelecimentos comerciais e, inesperadamente, uma oficina de guitarras elétricas. Não obstante, o nosso destino, a sede da OSSO, que se destaca pelo tipo de arquitetura contemporânea. De acordo com Ricardo Jacinto: “este espaço era onde eu tinha o meu atelier, onde comecei a fazer o meu estúdio. Na minha prática em particular mantenho esta lógica de colaboração e de espaços de criação coletiva… Daí ter feito um convite à associação, para vir para aqui e pensarmos o que poderia ser este espaço em coletivo”. Atualmente, a equipa tornou-se sólida, com um número considerável de membros, entre eles Nuno Torres, Rita Thomaz, Nuno Morão, Diogo Alvim, Matilde Meireles, Pedro Tropa, Sara Morais, acolhendo também estagiários (em articulação com a ESAD.CR), vários projetos de criação, programação e formação, mas também um programa de residências que se tem vindo a consolidar.

Na OSSO fomos muito bem acolhidos. O espaço de habitação, com uma cozinha e um conjunto de três quartos, diretamente ligado às várias divisões dedicadas ao trabalho, como oficinas e um estúdio de produção musical, com janelas abertas para a natureza, permite o conforto e a tranquilidade para a criação artística. A equipa, para além de facilitar toda a parte logística, igualmente incita o diálogo com a comunidade e a descoberta do território. Ricardo Jacinto explica: “O apoio mais uma vez decorre desta ideia de tentarmos ao máximo que os residentes desenvolvam o seu trabalho sempre de um modo muito suportado por nós, ou seja, com a nossa presença… Todos os projetos que são acolhidos usam as infraestruturas da mesma maneira que nós…. Interessa-nos muito criar condições, para que as pessoas se sintam estimuladas, para que voltem e para que os projetos possam se desenrolar ao longo de vários anos”.

De facto, acompanhamos o Ricardo e o Rui (com a sua máquina fotográfica) numa visita pela aldeia, com várias paragens para cumprimentar os habitantes na rua, ou no café, mas também para conhecer a natureza e os campos agrícolas de pera-rocha que rodeiam a localidade. Mais tarde, no estúdio da OSSO, acompanhamos a reflexão em torno do projeto fotográfico do Rui sobre a aldeia, ao mesmo tempo que Ricardo refletia: “no que diz respeito às residências de criação o que é importante para nós são projetos e artistas, ou coletivos, que se interessem por interpelar diretamente o território e a comunidade onde estamos. Projetos que de algum modo também pensem sobre o que pode ser esta ligação entre espaço rural e urbano, que dinâmicas é que se criam, quais as características da paisagem, das pessoas e das suas atividades”. Para além do Rui, os residentes, que correspondem à chamada do biénio 2020/2021, são a Sara Bichão e o Tiago Fróis, que como Ricardo diz: “são artistas com os quais nos identificamos pela prática um pouco recolectora e pelos projetos, que também nascem do contacto com lugares específicos, pessoas e comunidades”. As residências da OSSO foram criadas como um espaço completamente aberto em termos de objetivos, em que não há obrigatoriedade de uma exposição final, pois o seu propósito é a reflexão e o diálogo acerca das práticas artísticas em curso. Os anteriores residentes, como por exemplo a Sonoscopia, as Oficinas do Convento, a Mãozorra – Teatro de Marionetas, ou o MILL (Makers in Little Lisbon), começaram a trabalhar noutros projetos com a associação. Igualmente se destaca a EIRA – Plataforma Rádio, que consiste numa série de emissões online e fm, com uma programação experimental, que envolve muitas vezes os residentes, o que mais uma vez potencia o diálogo com a comunidade e a partilha dos projetos de criação que estão a ser desenvolvidos, pelo meio do espaço radiofónico.

Quando nos despedimos da OSSO foi com a certeza de que iríamos voltar, pois a discussão sobre as práticas artísticas contemporâneas, o panorama da arte em Portugal e as residências artísticas foi profícua e enriquecedora. A localização e o acolhimento, também permitiu escapar ao ruído e ao ambiente urbano, assim como incitou ao convívio e ao lazer, com tempo para visitar as Caldas da Rainha, uma cidade com um grande desenvolvimento artístico e cultural. O Programa de Residências Artísticas da OSSO é uma mais valia para investigadores interessados em practice-based research e/ou a artistas que tenham uma ligação a projetos colaborativos, participativos e comunitários, ou que pretendam explorar este tipo de metodologias no meio rural, que está cada vez mais desertificado, isolado e envelhecido, o que poderá contribuir para novos envolvimentos e questionamentos sobre estes territórios.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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