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Whispering Mirrors: Rodrigo Gomes nas Carpintarias de São Lázaro

Consideremos o espaço da exposição, um espaço amplo, cru, despido. Somos recebidos por uma “presença humanoide”, Ariane, que nos conta Animais dos Espelhos, um conto de Jorge Luis Borges. Esta receção marca a entrada na exposição e na dimensão de Whispering Mirrors.

Há uma desconfiança quase instintiva na comunicação com uma figura que se assemelha a um ser humano sem o ser, como que um apelo à sobrevivência que misturado com a curiosidade resulta numa experiência hipnotizante. Vemos e ouvimos Ariane, reconhecemos Ariane, receamos Ariane.

Está escuro, os focos nas obras guiam a movimentação de quem entra no espaço. Peças escultóricas, materiais transparentes, luz e escuridão – as obras são rebatidas nas paredes e no chão, como sombras de luz. Numa outra secção, plintos com o perímetro desenhado de superfícies espelhadas parecem nascer de uma outra dimensão, em si próprios apoiados. “É possível argumentar que a digitalização transforma as artes visuais em artes performativas”, afirma Boris Groys em In the Flow, e esta é uma possibilidade que nos acompanha ao longo da exposição. As peças comunicam como se de uma floresta digital se tratassem, cada uma delas exercendo uma força atrativa sobre as outras e sobre o público, simultaneamente estáticas e em movimento, um movimento que não existe senão pela presença de um público.

“O espaço expositivo é aqui dado como uma certa cápsula espácio-temporal, onde dinâmicas contingenciais para os processos de construção e habitação do mundo são exploradas”, afirma David Revés. Uma exposição sensorial, que pensa a imagem e a comunica numa dimensão própria, de consciência e acesso aos sentidos. Há uma dinâmica colaborativa entre o curador e o artista, e uma perspetiva sobre o papel de intervenção do curador que entra no campo da tradução, que não se impõe nem se abstém e que não nega a sua existência. Afastando-se da imparcialidade e da distância, a exposição cresce enquanto um projeto vivo, de diálogo entre o artista e o curador.

Whispering Mirrors, uma exposição de Rodrigo Gomes com a curadoria de David Revés, está patente nas Carpintarias de São Lázaro até 26 de setembro.

Doutoranda de Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa de Braga, é mestre em Crítica Curadoria e Teorias da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Em 2018 lança o primeiro número da revista Dose da qual é cofundadora e editora, e em 2020 funda o espaço de estúdio para artistas o.estúdio no Bonfim, Porto. Trabalha atualmente como artista plástica, curadora freelancer e escritora, tendo já contribuído com artigos para diversas publicações.

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