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Terror e sedução segundo Teresa Milheiro

A irresistível atração da indução da violência

Objetos graciosos e elegantes, desenhados com um apurado senso ergonómico, delicadamente ferozes. São obras de fino acabamento, criadas com um rigoroso cuidado pelos mais subtis detalhes, manipulando, moldando e juntando formas em vidro, metais lacados, cromados ou escovados, e outros instrumentos reconhecíveis, recolhidos na sala de cirurgia, onde o corpo humano é objeto de corte e invasão. Uma seringa que vai espetar-se no crânio, umas lentes que vão perfurar os olhos, uma prótese que vai excrescer no ombro, um espigão que vai cravar-se na fossa nasal, uma pinça que vai esmordaçar a carne. O castigo do corpo, de certo modo invocando a tortura medieval como punição e profilaxia das ideias e ações daqueles tomados por criminosos ou revolucionários segundo um certo sistema de valores.

Não são símbolos nem uma realidade representada. São objetos visuais plenamente ameaçadores, verdadeiramente vinculados ao realismo da sua literalidade formal e do reconhecimento da finalidade a que se prestam.

O projeto Fear Addicts destaca esta notável habilidade de Teresa Milheiro em atiçar as emoções mais primárias, a ansiedade, o medo, e, tal como num filme de suspense e terror, que arrepia e choca, porém do qual não se desvia o olhar, em manipular um senso do tempo, ao antecipar um futuro fatal e inclemente, cuja latência é de tal modo eficaz que quase consuma-se num presente iminente.

Desde o início do seu percurso, ao criar cada uma das suas peças – objectóias, como já lhes chamou no passado, e que sucederam as biojóias, em que empregou ossos e dentes –, Teresa Milheiro explora o potencial formal de um campo plástico de experimentação desinibido de restrições, no qual o que nasce para nunca ser simplesmente um adorno ou adereço realiza-se enquanto obra artística multidisciplinar, uma escultura aplicada ao corpo humano, intencionalmente concebida segundo um desígnio performativo, documentado em fotografia. É, sobretudo, a erupção de uma personalidade e modo de pensar o mundo à margem e autónoma do padrão – só assim consegue imaginar-se a si mesma –, inclinando-se sobre temas que expressam a corrosão dos valores humanos mais essenciais.

Declinado em três locais, Fear Addicts volta-se para o medo enquanto poderoso instrumento de controlo, a vigilância permanente, e a ilusão de segurança, de liberdades e de direitos, possuindo aquela sedução pura da perturbação, do assombro brutal.

No Espaço Camões da Livraria Sá da Costa são apresentadas, a partir de 16 de setembro, as intervenções instalativas Obsessive Controlling Tools e Tools for Intimacy and Social Distance Security e a peça One Way System II. São os jogadores que comandam e controlam, vultos fantasmagóricos que perseguem e aniquilam o pensamento e a vontade, olhos espiões que sufocam o respirar e policiam as ideias. São, também, os instrumentos do castigo, pinças que mordem o corpo e higienizam as relações, a agulha penetrante e certeira ao juízo. Perigosíssimas armas, e, ao mesmo tempo, tão tentadoras, à distância da mão, enfeites convidando até a ser empunhadas. Em quem se transforma aquele que é tentado?

A obra One Way System I e o window-project Spy On estão expostos no espaço da Galeria Alice Floriano do Jewelry Room e na Galeria Reverso, no contexto da I Bienal Internacional de Joalharia Contemporânea de Lisboa. No primeiro caso, o encarceramento da mente é duplamente executado, um sentido único absolutista, no qual o olhar apenas ressoa um pensamento anteriormente injetado pela substância letal. No segundo caso, é o próprio olhar que fere o corpo de quem patrulha, o que, novamente, não deixa de alertar para o questionamento crítico de qualquer olhar lançado sobre o outro, o que inclui o olhar próprio.

Assim, a aparência da literalidade da forma plástica é excedida por uma intencionalidade discursiva tão manifesta quão ambígua quanto o que a procede. Fear Addicts é instigado pela penetração no mundo de visões únicas e sem contraditório, e evoca problemáticas da apatia e alienação. Paradoxal, por criticar o mundo exterior, porém por não deixar de suscitar um olhar voltado para o mundo interior, transfigurando-se em campo especulativo e de participação social.

É, afinal, o inflamar desta questão que paira sobre, ou manobra sob, Fear Addicts.

 

Ricardo Escarduça

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