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IndieLisboa: Um olhar sobre Les Sorcières de L’Orient de Julien Faraut

O IndieLisboa decorreu até 6 de setembro. A 18ª edição do festival dividiu-se em 12 secções: Competição Internacional, Competição Nacional, Silvestre, Novíssimos, IndieJúnior, IndieMusic, Director’s Cut, Boca do Inferno, Sessões Especiais, Programa 5L, Retrospetiva de Sarah Maldoror e LisbonTalks.

Na Competição Internacional, Julien Faraut apresentou-nos Les Sorcières de L’Orient. O realizador francês, que trabalha no Institut National du Sport, em Paris, tem à sua responsabilidade uma coleção de filmes de 16 mm, não é por isso de estranhar que toda a sua filmografia seja dedicada ao desporto, em particular ao arquivo desportivo. Neste percurso, salientam-se as suas duas longas-metragens anteriores à que agora estreia, Regard neuf sur Olympia, de 2013, e John McEnroe: L’empire de la perfection, de 2018.

Em ano de Jogos Olímpicos, o cineasta trouxe-nos uma história sobre uma equipa de voleibol japonesa que, nos Jogos de 1964, também em Tokyo, fez história. Mas nesta longa de 100 minutos explora-se muito mais do que a glória olímpica, procurando dar tridimensionalidade às atletas que durante a década de 60 do século passado surpreenderam o mundo ao alcançarem um recorde que ainda hoje permanece por bater, o de 258 vitórias consecutivas.

Ao longo do filme, somos convidados a conhecer de perto algumas atletas da equipa. Agora septuagenárias, acompanhamo-las nas suas rotinas, nas suas casas com as suas famílias e num reencontro no qual recordam os tempos em que jogavam juntas. Estas entrevistas são as primeiras imagens que não são de arquivo que o cineasta integra num filme seu. Num Q&A no IndieLisboa, justificou-o por durante a pesquisa que fez se ter cruzado com vários artigos de imprensa internacional que transmitiam a ideia que só numa sociedade misógina como a japonesa é que as mulheres poderiam treinar o suficiente e sacrificarem-se tanto para alcançar tamanhos feitos. Julien propõe outra narrativa, a de uma sociedade ocidental que nos anos 60 promovia uma ideia do desporto feminino como algo contido, que não permitia à mulher tornar-se demasiado musculada, forte ou calejada, características contrárias aos cânones de beleza socialmente impostos, e que talvez aquelas mulheres, livres de determinados valores patriarcais treinassem com uma entrega e uma liberdade que às mulheres ocidentais não eram permitidas. Era por isso indispensável dar-lhes voz e convidá-las a contar a sua própria história, de tal forma que quando cada uma se apresenta torna sua a alcunha que lhe foi imposta apresentando-se como “Eu era a bruxa nº5”, número da camisola com a qual jogava.

A procura por humanizar estas mulheres é um processo que corre lado a lado com a construção do ícone em que cada uma delas se tornou. Se vemos a resiliência e a determinação que as moveu, vemos também a exaustão e o desespero que um desporto de alto rendimento provoca. Se vemos o quão incríveis foram, vemos também o quão mundanas são. Elas são heroínas de carne e osso e é pela sua essência terrena que se tornam extraordinárias. A montagem rápida e ritmada que nos absorve ao longo de todo o filme combina com mestria imagens de arquivo dos seus treinos e jogos, com imagens do anime Attack No. 1, inspirado na sua história.

As camadas do filme são tantas que é admirável como o realizador conseguiu levar-nos escada acima, escada abaixo sem que nos perdêssemos pelo caminho. A riqueza da narrativa pessoal e desportiva alinha-se à contextualização histórica que ajuda a construir uma tensão narrativa crescente. O ponto alto do filme são os Jogos Olímpicos de 1964. O ouro olímpico é obviamente o reconhecimento máximo para qualquer atleta, mas estes Jogos tinham também uma importância enorme para o Japão, que depois da Segunda Guerra Mundial em geral e das bombas atómicas de Hiroshima e Nagazaki em particular, queria apresentar-se ao mundo como um país renascido, renovado e uma potência do futuro.

Nesta longa, Julien Faraut captou a complexidade da vida e trouxe-a até nós num filme cuja montagem, aliada a uma extraordinária banda sonora, é magnetizante do início ao fim. Desde a história do Japão, à história de cada uma destas mulheres. Desde a loucura do desporto de alta competição, à realização de se alcançar o impossível. Desde uma condescendência misógina e uma visão eurocêntrica, à reivindicação de uma narrativa contada na primeira pessoa. Esta revisitação do passado é uma celebração cinematográfica de várias vidas, que são muito mais do que a glória olímpica e 258 vitórias com uma bandeira ao peito.

Les Sorcières de L’Orient foi apenas uma das 12 longas metragens a concurso na Competição Internacional. Durante os dezassete dias do festival, a programação composta por mais de 250 filmes, debates, workshops e masterclasses foi distribuída por diversos espaços: Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal e Biblioteca das Galveias.

O IndieLisboa terminou no dia 6 de setembro. A programação completa pode ser consultada aqui.

 

Formou-se em Artes e Humanidades pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa especializando-se em Artes do Espectáculo e Comunicação e Cultura. Profissionalmente tem trabalhado em produção, direção artística e programação cultural, tendo já colaborado com vários organismos, entre eles, o Doclisboa, a European Broadcaster Union, a Plural Entertainment, o Teatro São Luiz e o Teatro do Bairro Alto. Atualmente trabalha como produtora e programadora cultural no Gerador, faz revisão de conteúdos para a Revista Fome e frequenta o Mestrado em Estética e Estudos Artísticos na vertente de Cinema e Fotografia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

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