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Um arquivo de nuvens encontrado: Andrés Galeano no Mataró Art Contemporani e na Galería Rocio Santa Cruz

A nossa abordagem mais frequente do céu continua a ser a do olhar contrapicado. Normalmente, observamo-lo como um guia para o estado atmosférico ou para pura contemplação. Por vezes, em busca de pensamentos transcendentais ou do puro e simples prazer de o olhar.

Fondo perdido de nubes [Arquivo de nuvens perdido] é uma investigação artística de Andrés Galeano (Mataró, Espanha, 1980), que começa através da descoberta do livro 1939: els núvols confiscats, de J.Batlló y M. Busto. Uma investigação sobre o arquivo do antigo Servei Meteorològic de Catalunha, guardado no Instituto Cartográfico y Geológico de Catalunha em Barcelona. O projeto apresenta-se sob a forma de uma exposição e de um livro de artista e está patente em dois locais, no Mataró Art Contemporani e na Galería Rocio Santa Cruz, em Barcelona, ambos coprodutores do projeto.

A prática artística de Galeano está inscrita na pós-fotografia. Deixou de tirar fotografias para trabalhar com fotografias de outras pessoas, a maioria delas tiradas por fotógrafos amadores anónimos, encontradas em feiras e mercados de antiguidades. A sua grande coleção, de anos de recolha, é exposta e visualizada em partes das suas obras. A maior parte das imagens está ligada ao tema que tem vindo a investigar há anos: a transcendência em relação ao meio fotográfico, cuja representação visual aborda o celestial. Nesta ocasião, trabalha pela primeira vez com um arquivo oficial, o que lhe permite ativar toda uma série de temas já tratados nos seus trabalhos anteriores, condensando muitos dos seus interesses, além de contribuir para a recuperação da memória histórica através da sua prática artística.

No seu projeto, Galeano propõe três formas de abordar o céu a partir da fotografia: o físico, o metafísico e o digital.

O céu físico

Tanto a meteorologia necessitou da fotografia como instrumento de análise, como também a prática da fotografia tem dependido da meteorologia para poder ser realizada. Recordemos que as condições atmosféricas – como a intensidade da luz solar – tornam possível a imagem fotográfica. O arquivo do Servei Meteorològic de Catalunha contém milhares de negativos de vidro de nuvens, um tesouro para alguém que tem vindo a recolher paisagens celestiais durante anos. Fondo perdido de nubes é, na realidade, um arquivo de nuvens encontradas. De imagens que foram feitas para o estudo científico da formação e movimento das nuvens, e que Galeano, no seu processo artístico, assume com a precisão de um meteorologista. Trabalhando com a colaboração de meteorologistas, profissionais da restauração, conservação artística e arquivistas – para refletir sobre elementos mais intimamente ligados à materialidade do objeto fotográfico. Este arquivo esconde uma história que afetou a conservação dos negativos. Rafael Patxot i Jubert, mecenas e meteorologista, patrocinou o Servei Meteorològic de Catalunha e fez dele o mais avançado de Espanha. Em 1939, o arquivo foi apreendido pelo regime franquista e devolvido à Generalitat (governo catalão) em 1984, num deplorável estado de conservação. São precisamente as patologias sofridas pela passagem do tempo e as circunstâncias negligentes de conservação dos negativos de vidro um dos aspetos que mais interessam a Galeano. Como nas Celestografias de August Strindberg, a referência artística do artista, as impurezas do ambiente incrustadas no material esboçam o motivo fotográfico. No caso de Strindberg, podemos imaginar céus noturnos, enquanto nos negativos do Servei Meteorològic de Catalunha as impurezas acrescentam uma velatura que transforma o céu nublado, fotografado no início do século XX, numa composição quase abstrata. Enquanto Strindberg experimentava fazer fotografias sem câmara ou lente, procurando a imagem através de papel de emulsão colocado no ar à noite, Galeano aproveita estas composições encontradas no arquivo para fazer novas impressões em vidro e adicionar uma nova camada semântica. No vídeo Temps del temps e na série Condition Report, o artista propõe uma leitura do estado de conservação dos negativos de vidro, com base nos elementos gráficos utilizados na análise do tempo, convidando um meteorologista e apresentador habitual do tempo na televisão regional a explicar o estado de cada imagem (emulsão deteriorada, riscos, sujidade, migração de corantes…) como se fosse um mapa meteorológico e ele falasse de isobars.

Do céu físico ao céu metafísico

Galeano menciona o fotógrafo Josep Pons, uma figura de destaque na história do arquivo, uma vez que serve de ponte para outro registo fotográfico: a fotografia de estúdio. Pons era um fotógrafo de estúdio em Blanes (uma cidade da Catalunha) e, por razões económicas, mudou-se para Barcelona para ser o fotógrafo de nuvens do Servei Meteorològic de Catalunha até ao seu encerramento forçado em 1939. A fotografia de estúdio era muito popular entre uma certa classe burguesa que queria ser fotografada e deixar as suas memórias presentes em grandes ocasiões. Os fundos que acompanhavam as pessoas variavam de acordo com a moda do momento, mas um dos mais populares era o dos cenários celestiais, à imagem de um trompe-l’oeil. Em Fundo perdido de nubes, Galeano recupera arquivos de estúdios de Mataró, Barcelona e Santarém para nos transmitir precisamente este desejo de transcender e como a fotografia possibilita essa realização. As fotografias transcendem, permanecem no tempo, proporcionando uma espécie de imortalidade.

Da nuvem metafísica à cloud culture

Com a fotografia digital, o meio fotográfico passou por uma enorme transformação tecnológica e social. É difícil imaginar a partir de uma aplicação de fotografia para telemóvel o desafio que o ato de fotografar em tempos representou. A série de fotografias Observant l’observatori, tirada do Observatório Fabra e que pode ser vista na exposição em Barcelona, mostra a dificuldade de retratar o céu. Nas palavras do artista, «foi muito difícil capturar céus expressivos». Hoje, por outro lado, o imediatismo e a qualidade fotográfica dos smartphones e das máquinas fotográficas digitais facilitaram outra forma de se relacionar com as imagens e o processo de as fazer. Galeano fala das qualidades divinas que a fotografia nos dá. Enquanto o analógico nos permitiu transcender e ser lembrado, a imagem digital, cuja natureza é numérica, já não é feita para permanecer, mas confere omnipresença: estar presente (a nossa imagem) em muitos lugares ao mesmo tempo. Não é trivial que as aplicações Snapchat ou Instagram desenhem os seus logótipos com fantasmas ou espectros. Como Roland Barthes disse na sua Camera Lucida, «há em cada fotografia o regresso dos mortos». Este arquétipo ainda persiste apesar do facto de os consumidores destas aplicações pensarem que quanto mais fotografias se tira, mais vivo se está. Fotografias que comunicam temporariamente cada momento das nossas vidas. Toda a nossa produção deixa um rasto que acumulamos, os nossos dados (emails, documentos, conversas, imagens…) são armazenados num local remoto e cujo símbolo é a nuvem. Esta característica efémera da nuvem é tomada como metáfora para o contentor digital. Existem muitos tipos de nuvens digitais (comerciais, sociais) e a ascensão destas, assegura-nos Charles Leadbeater, irá mudar a cultura, anunciando uma nova era da Internet em que a cloud culture [cultura da nuvem] irá tornar a cultura mais acessível e conectada, aumentando a capacidade expressiva das pessoas numa grande nuvem pró-Am (profissional-amador).

 

Zaida Trallero

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