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Vídeo sob pressão #1: Corpo em resistência no Círculo Sereia

Há uma qualidade inalienável à submersão: a sua efemeridade. As possibilidades de resistência serão inúmeras, mas um corpo humano não vive debaixo de água. Não respira. No tempo da submersão, foge-nos o corpo literal, foge-nos a voz. Adverte-nos José Maçãs de Carvalho com a sua obra Never Tell a Secret, em que um corpo feminino nos tenta dizer algo debaixo de água. Não ouvimos, não percebemos. Aqui, talvez a condição de submersão se revele um espaço, afinal, à superfície. Estará o corpo contemporâneo submerso? Para quem visitar o Círculo Sereia não verá a obra de Maçãs de Carvalho numa primeira instância, no entanto considerei necessário principiar aqui, dada a presença do elemento água, algo preponderante para as possibilidades de compreensão desta exposição.

Somos recebidos com a obra de Luís Alegre Untitled (anything that moves dies and rises – after Elena Córdoba), que manifesta a condição inelutável do corpo: estar vivo é estar sob pressão, e o inevitável movimento traduzir-se-á numa nova narrativa de ascendência ou de descendência, a estabilidade é assim o campo da utopia que nos ladeia, a utopia ao nosso alcance: estabilizar o corpo. Inatingível, a imortalidade estará na oscilação, ascender é não submergir. Por outro lado, o corpo enche-se de esperança ao ver a sua capacidade dominante, ou digamos de outro modo, um estoicismo absoluto: em Semi-Panoramic Sea Concert de Ana Rito presenciamos o triunfalismo necessário para a concretização desta constelação, a água finalmente cede ao corpo tornando-se ela mesmo corpo manipulado, mas sublinho: nada passa de uma encenação romantizada – sabemos perfeitamente quem vencerá se uma daquelas ondas pretender desaguar no corpo do maestro. O elemento água está igualmente presente na obra de João Tabarra, intitulada O Encantador de Serpentes: um objeto (mangueira) que subitamente ganha vida, fugindo do controlo humano que lhe é natural. Ao movimentar-se de modo descontrolado, este objeto transforma-se num novo traço sobre a paisagem urbana, numa referência à potência pictórica da imagem em movimento, como se um segmento da realidade se revoltasse, e no fundo será isso mesmo. O que dizer de um objeto que subitamente se descontextualiza a si mesmo? A relação entre vídeo e pintura assume-se de forma mais clara nesta exposição com a obra de Juliana Julieta, intitulada Phoenix Flight (Via Crucis is not 4U) na qual verificamos uma pintura em movimento que retrata um corpo que encontra uma barreira no caminho – isto é, o nosso corpo encontra um outro corpo que por sua vez encontra uma barreira. Na distração do espectador contemporâneo, esquecemo-nos que antes de qualquer um dos vários corpos presentes nestas obras, está o nosso, que na ausência de vídeo estaria diante de uma barreira fisicamente intransponível: a imagem projetada como portal. Não esqueçamos. Em Linha do Tempo, de Jorge Molder, um corpo que parece estar dentro de si mesmo tenta fugir ao tempo, procurando brechas que lhe permitam isso mesmo: o corpo que ironicamente pretende quebrar a linearidade, sem talvez perceber que a sua existência depende dela, o tempo como claustrofobia imposta, como memória.

Cada um dos vídeos dados a ver contém uma leitura do real, um ponto de vista não mais nem menos verdadeiro que o que reside no olhar do espectador contemporâneo, antes disso, produtor da sua própria verdade. O vídeo é assim elemento potenciador de transformações do real, que nos pode auxiliar na leitura do mesmo, procurando na verdade do primeiro a verdade do segundo. Assim, vemo-nos no complicado campo antitético em que é o elemento artificial a pretender tornar mais claro tudo o que nos rodeia, aquilo que no fundo consideramos natural e normativo a priori.

Corpo em resistência, com a curadoria de José Maçãs de Carvalho e Carlos Antunes, é, assim, o primeiro capítulo do ciclo de exposições Vídeo sob pressão e pode ser visitada até 16 de outubro no Círculo Sereia (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra).

Daniel Madeira (Coimbra, 1992) é licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mestre em Estudos Curatoriais pelo Colégio das Artes da mesma universidade. Coordena desde 2018 o Espaço Expositivo e o Projeto Educativo do Centro de Artes de Águeda.

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