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Resposta Aberta: Iris Ferrer, Kent Chan e Julian Abraham ‘Togar’

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Iris Ferrer, Kent Chan e Julian Abraham ‘Togar’ falam honestamente sobre os seus processos na construção de Love Songs for the Savages, uma exposição na de Appel Amsterdam que prossegue agora enquanto feed de rádio. A entrevista é coapresentada pela escritora, curadora e dramaturga Giulia Damiani.

Iris Ferrer (Filipinas/Países Baixos) é uma praticante cultural independente. Fez recentemente parte do Programa Curatorial de 2019-2020 da de Appel e é Bolsista de Investigação Curatorial 2020-2021 da de Appel. Trabalhou como escritora, investigadora, gestora de projetos e curadora em toda a dimensão das artes visuais contemporâneas e ao lado de plataformas e colaboradores nas Filipinas e na região.

Kent Chan (Singapura/Países Baixos) é uma artista, curadora e cineasta. A sua prática centra-se nos nossos encontros com arte, ficção e cinema, estabelecendo um triunvirato de práticas que permanecem porosas na forma, conteúdo e contexto. Tem interesse particular pela imaginação tropical, pelas relações passadas e futuras entre calor e arte, bem como pelas contestações aos legados e epistemologias modernistas. As obras e práticas de outros são frequentemente o locus das suas, que assumem a forma de filme, texto, conversas e exposições.

Julian Abraham ‘Togar (Medan, Indonésia/Países Baixos) participa numa investigação exaustiva que resulta em obras de arte com foco analítico, combinando frequentemente instalação, som, música, programação e ciência. A maioria, se não toda, da sua prática transdisciplinar provém de ritmos e sistemas, que, dependendo do contexto, podem preservar, iniciar, intervir, apoiar, negociar, sabotar ou questionar. Reflete regularmente sobre como funcionar dentro das realidades circundantes e sente um fascínio constante pelo facto de mesmo pequenas intervenções poderem trazer mudanças orientadas para a formação de novas e sustentáveis estruturas de apoio. Togar é atualmente artista residente na Rijksakademie, Amesterdão.

 

Giulia Damiani /Josseline Black Podem descrever como os três se conheceram; a génese da vossa exposição colaborativa Love songs for the savages, na de appel, e o processo através do qual esta colaboração se desenrolou?

Iris Ferrer – O Kent e o Togar eram amigos de amigos lá de casa, por isso eu já os andava a ‘stalkar’ antes de conhecê-los pessoalmente; embora só me tenha tornado amiga deles aqui nos Países Baixos. Em relação às colaborações, gostaria de agradecer à Pampus (residência de Kent e filme onde fomos atores) por ter iniciado essa possibilidade. Uma vez que tinha o projeto da bolsa em mãos, aliado ao meu respeito pelas práticas artísticas deles, achei que seria bom partilhar essa oportunidade com os dois.

O projeto fluiu através daquilo a que chamámos “ondas”, que são piscadelas de olho ao foco do projeto no calor; o vídeo do Kent, Heat Waves; o interesse do Togar pelo som e rádio; e a intenção interior de brincar com a inércia habitual do formato de exposição, à medida que o projeto avançava literalmente semana após semana – o que felizmente a de Appel permitiu e apoiou, apesar das complexidades logísticas. O que é também interessante nesse “desdobramento em ondas” é o seu rescaldo, onde tudo o que aconteceu ainda é bastante difícil de apreender e articular, onde nos limitamos apenas a dizer “era preciso teres estado lá”. Claro, as ondas de rádio online continuam a existir; mas como falar das incontáveis refeições, bebidas e cigarros partilhados? Como resumir horas de conversas e as contínuas tentativas de fundamentar realidades separadas (SG/PH/ID) num só espaço (NL)? Como capturar uma onda e o que nos acontece quando ela passa?

Kent Chan – Sim, eu já conhecia o Togar, mas a Iris era amiga de um amigo da minha terra (Singapura) e por isso encontrámo-nos aqui (Países Baixos). Tendo em conta a região geopolítica – o Sudeste Asiático, que tem 655 milhões de pessoas, seria de esperar que houvesse mais de nós por cá, mas infelizmente não é o caso. E, como as coisas voltam sempre a casa, convidei-os uma vez para jantar enquanto fazia a minha residência na Ilha Pampus, o que nos levou a trabalhar juntos no ano passado no meu filme. Se eu tivesse de referir alguma coisa como ponto de partida do projeto, seria o termos feito refeições em conjunto (repetidamente).

Julian Abraham ‘Togar’ – Encontrámo-nos por volta do verão de 2020. Não sei ao certo como decidimos levar este projeto adiante, mas só lá por março ou abril de 2021 é que as coisas foram preparadas. Tenho de dizer que tudo aconteceu de forma bastante orgânica, o que é difícil de colocar em palavras e compreender, especialmente quando associado à agenda da instituição com a qual acabámos por trabalhar.

GD/JB – Nesta exposição coraljuntaram-se ondas de calor na ‘forma’ de uma casa quente, música, sessões jam, a RAGADIGIOGO online; o suor da performance; e histórias e reflexões sobre o calor enquanto temperatura equatorial generativa, onde é possível experimentar a criação de arte em oposição à suposição estereotipada de que essa condição mata o cérebro. O que apresentaram juntos no espaço parecia tentacular e em estado de fermentação. Procurei a etimologia da palavra exposição, que pode ser atribuída às expressões resistire submeter à consideração. O que acham que a vossa exposição traz à colação?

IF – Para mim, tratou-se apenas de apresentar a nossa realidade partilhada nos nossos países de origem: os sons sobrepostos, o suor, o calor, o convívio, etc. Se a exigência passava por reivindicar um espaço durante um certo período, como acontece normalmente nestes projetos, então só fazia sentido apresentar aquilo que já conhecíamos.

KC – Penso que o calor, literal e metaforicamente, era importante para a Iris. Numa linha semelhante, abordo as coisas através da lente do calor (pela sua abundância), que remete para as condições tropicais no meu país – algo que eu consideraria ser inteiramente ajustado ao processo de interagir com a arte, apesar de parecer antitético para a maioria dos públicos ocidentais. Dito isto, não gosto de ver as coisas em termos tão opostos. Gostaria de propor o calor em relação à arte enquanto processo de fermentação. O calor nunca é estático. É muito afetivo, é como o molho mágico que permite interações bem-vindas entre público e arte.

GDLove songs for the savages fala da necessidade de mudar a orientação das exposições, criticando o consumo dos objetos e práticas num contexto ocidental?

KC – Não tanto assim, creio. A meu ver, o calor é um modo diferente de fazer as coisas, pois é uma opção. Não exige uma mudança na forma como as coisas funcionam no contexto ocidental. Claro, também desconfio da forma como as mudanças no ocidente resultam frequentemente da apropriação de outros. Não se trata tanto de “mudanças”, mas sim de “canibalizações”. Nesse sentido, sou a favor da promiscuidade e não de casamentos entre contextos.

GD/JB Podem falar-nos de um som, gesto ou objeto que resuma algo crucial nas vossas práticas?

JTA – Ouvir tem sido parte integrante da minha compreensão do mundo. É uma posição ativa (ouvir) e escutar diferentes sons de todo o mundo é um luxo. Gostaria de continuar a explorar a audição enquanto prática. De alguma forma, espero contribuir para o exercício de escuta através de diferentes conversas, meditações, canções, textos, jams, playlists, transmissões, e outras atividades ainda não exploradas. Este projeto é também um passo para escapar à ideia de câmara de eco. Em última análise, penso que é algo ainda em construção e que contribui para a escuta enquanto prática em si mesma.

GD/JB – A correspondência através da escrita parece ter sido um canal e um modo de imaginar o conteúdo desta exposição, mas também um espaço para a narração de histórias. De que forma a valorização da memória e da autobiografia tem contribuído para a construção de uma narrativa partilhada? Haverá uma narrativa partilhada?

IF – Acho que o objetivo nunca foi o de encontrar uma narrativa singular partilhada. Partilhámos algumas coisas da mesma região geográfica e o estarmos agora aqui; mas mais importante foi aprender com as diferenças, especialmente nas conversas com eles (individualmente e em grupo).

KC – Pareceu-me que o programa funcionou em múltiplos “canais” – música, rádio, vídeo e/ou performance a acontecer ao mesmo tempo. Houve muita sobreposição consciente, que era em si talvez mais uma frequência partilhada. Esta frequência partilhada encaixava na agitação do regresso a casa. Julgo que a distância é algo que tem pairado fortemente sobre as nossas cabeças no último ano.

JTA – Como disse acima, o projeto cresceu organicamente. Reconhecer que o projeto pode crescer organicamente traduz-se em aspetos comuns. Por exemplo, como pode este projeto ser experimentado em 4 ondas diferentes? Quem faz o quê? Para quem? O que é que as ondas exigem para que o projeto continue em movimento? Tenho de agradecer à Iris e ao Kent por aguentarem o barco antes de poder mergulhar totalmente no projeto. Esta sensibilidade só pode acontecer porque identificámos primeiramente as narrativas uns dos outros.

GD/JB – Quais são alguns dos desafios que encontraram ao escolher o título Love songs for the savages?

IF – Não tenho a certeza se houve desafios concretos, além da pronúncia da versão tagalo (Kundiman para sa mga salbahe). Lembro-me também de ter uma discussão com a de appel enquanto preparava os materiais de comunicação sobre se seria mais inteligente usar a versão tagalo, a versão inglesa ou ambas. Houve um jogo de palavras com o título em tagalo, que é explicado no comunicado de imprensa. Tornou complicada a tradução para inglês e ainda mais para o neerlandês. Como houve esforços de todos os envolvidos para se identificarem com o terreno em que estávamos, e com as suas comunidades, nunca tivemos só uma língua – houve sempre uma combinação. Curiosamente, não conseguimos traduzir o título para neerlandês, o que é significativo.

KC – Lembrei-me que também tivemos discussões sobre a imagem principal (MIT Image) usada para a mostra e sobre como esta seria percebida. Se reforçaria simplesmente as conotações negativas dos “selvagens” ou se poderíamos recuperá-la no contexto da mostra. Esta é uma discussão que decorreu paralelamente à utilização do título. Dito isto, decidimos que já tínhamos história e contexto suficientes do nosso lado para avançarmos.

JTA – Gosto do título; é como um enigma. Os selvagens podem ser vistos como qualquer pessoa, pois a ideia de um selvagem, na maioria dos casos, aponta para alguém que não está familiarizado com o espaço ou alguém que vive no espaço há muito tempo, mas que é visto como alguém ainda desconhecido. Mas um selvagem é alguém que conhece os espaços a fundo, como se fizesse parte deles. Como escrever uma canção de amor se não conhecemos bem os espaços? Como podemos quantificar isto? É um paradoxo.

GD/JBA RAGADIGIOGO online prossegue além do encerramento da exposição. De que forma é importante estabelecer este continuum? Porque escolheram a rádio como formato?

JTA – As sementes da Ragadigiogo não têm nada que ver com a forma como o projeto decorreu. Foi concebida para ser o seu próprio espaço, com a sua própria organização, propósito e vida. O projetou ajudou a fomentar o crescimento da Ragadigiogo mais rapidamente do que previsto, não só através da disponibilidade dos recursos, mas também das narrativas partilhadas sobre como continuar a conversar e a manter vivas as conversas.

IF – Além do que disse o Togar, há algo no formato rádio que permite várias presenças, que não estão presas num espaço ou tempo. Achámos que seria um bom veículo para manter contacto com as nossas comunidades nos nossos países e criar novas ligações a partir daqui.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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