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Os livros de Júlio Pomar: Itinerância da leitura, escrita, pintura no Atelier-Museu Júlio Pomar

A propósito da exposição Os livros de Júlio Pomar: Itinerância da leitura, escrita, pintura, com a curadoria da investigadora Mariana Pinto dos Santos, uma das questões que poderiam facilmente passar pela cabeça do espectador é a antiga comparação entre os poderes da palavra e da imagem. O que parece acontecer no caso da obra de Júlio Pomar é que, guardadas as diferenças evidentes nos modos de expressão para o leitor, sejam aqueles das suas imagens como os dos seus textos, essa separação é diluída ao máximo no seu processo criativo. Daí que itinerário parece mesmo ser um conceito adequado para falar tanto da relação do artista com os seus processos de leitura e de criação escrita ou plástica, como também da possibilidade que se oferece ao visitante no espaço expositivo do Atelier-Museu Júlio Pomar. Mas é importante ter em vista a perspectiva observada no texto de abertura da exposição, em que «a pintura e o desenho que [ali] se mostram constituem-se como desvios, ou “variações”, para usar uma palavra do artista, do literário ou da própria escrita, ora se mantendo deles próximos ora deles se afastando». A itinerância proposta cuida de atentar para estes desvios e, fluida ela mesma, faz o espectador sentir-se em mar aberto.

Se para o artista a criação tem a ver com essa composição por variações, a driblar com a imagem qualquer imitação direta do texto, as ilustrações escolhidas que consolidam um vívido interesse no material exposto demonstram essa metamorfose entre a palavra e a imagem no seu processo de trabalho. Da mesma maneira, o espectador da exposição acaba por prescindir do texto e aproxima-se da literatura pela reinvenção ou a variação de Pomar. Solto em um espaço aberto, partido tirado do próprio desenho arquitetônico do museu, esse espectador imerge num torvelinho de imagens que toma as paredes para o alto, quase como se houvesse, num passe de mágica digno de Lewis Carroll, caído minúsculo em meios às páginas ilustradas. A impressão é reforçada pela intervenção visual do artista Horácio Frutuoso, a transcrever (e desenhar) trechos de obras literárias de referência que acabam por conduzir uma possibilidade de olhar. Mas a ancoragem da circum-navegação em torno do imaginário de Pomar está mais no rebatimento entre os originais vários (em suas diferentes técnicas) espalhados pelas paredes da exposição e as mesas-vitrines com muitos dos livros ilustrados, abrindo-se para outras relações nos seus microespaços. Uma riqueza que explora a oportunidade de passar os olhos pelas incertezas que cercam o pensamento plástico, como quando se atenta aos estudos para a capa da edição francesa de 1985 d’O Crime do Padre Amaro, ou para a surpreendente diferença de escala entre os desenhos para as ilustrações do livro Corpo Verde, de Maria Velho da Costa, e a discreta dimensão do livro, em que tanto uma forma quanto a outra acolhem movimento e funcionam na sua especificidade.

Algo que se pode supor na exposição é a fertilidade do trabalho de ilustrador de Júlio Pomar, a fazer imaginar esse espectro da sua obra como um terreno de ampla experimentação. Como não há percurso cronológico, mesmo o visitante menos atento é capaz de observar como é múltiplo o resultado, a deixar evidente a sua inquietação criativa, mas nunca a perder de vista o fio com a figuração, por mais longe que pudesse ir com a experiência abstrata, ou matérica. Da mesma forma, é possível observar a oportunidade do artista em trabalhar com muitos dos clássicos da literatura e, mais em particular, com obras centrais das letras portuguesas. A escolha por deixar esse mar aberto ao espectador acaba por requisitar às vezes um conhecimento anterior daquele que procura por entender com mais rigor algumas das relações desenhadas no espaço expositivo. Mas nada que comprometa a leitura mais ampla, repleta de referências, que fazem da exposição mais que um ponto de chegada para quem a lê, a funcionar como um motor de curiosidade e a deixar querer construir as relações que apontam para fora da mostra, puxado sempre pelas imagens de Júlio Pomar. Às vezes essas relações se constroem pelo tempo, às vezes pelas próprias imagens, outras vezes pelo tema, sem fincar o pé em uma estrutura estável. Mas é assim em toda nau. Há algo de loucura em se guiar por estrelas e algo de arriscado em se permitir encantar pelas imagens, como se fossem elas as sereias da nossa própria Odisseia.

Os livros de Júlio Pomar: Itinerância da leitura, escrita, pintura está patente no Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, até 10 de outubro.

 

Daniel Barretto escreve em PT/BR.

Curador. Atualmente a viver em Lisboa. Mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Brasil), está a cursar o Doutoramento em Arte Contemporânea do Colégio das Artes, na Universidade de Coimbra. No Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, foi responsável pelas coleções de Escultura, Arte Africana e Novas Linguagens, como também esteve envolvido em vários projetos curatoriais.

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