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A Vida Sensível: Pedro Vaz na Galeria 111

Há muito que Pedro Vaz tem vindo a estabelecer um compromisso artístico com a natureza e com os seus elementos. Observa-os, analisa-os, aproxima-se deles, escolhe fragmentos, afasta-se, apreende o todo, aproxima-se de novo. Num vai e vem, entre as várias escalas, o artista parece procurar um olhar mais fundo sobre a natureza, para lá das convenções, construções e modelos que a cultura ocidental tão bem tem sedimentado no nosso entendimento sobre a sua verdade.

O artista tem vindo, não somente, a desvelar, desvendar, recriar a paisagem, camada sob camada, como também, num sentido de dever perante a arte e a vida, fazer parte integrante dela. Não raras vezes vemo-lo, sobretudo em imagens captadas em vídeos head strap, habitar esse espaço da natureza, empreender em caminhadas, ou interagir com os vários elementos. Um bom exemplo é o vídeo que foi exposto na Galeria 111, em 2018, aquando da exposição Azimute. No vídeo, Vaz caminha erraticamente, perfeitamente inserido na paisagem fria e natural, em busca de água, e afundando as suas pesadas botas num manto de neve, alva e profunda.

Numa primeira sala, e num contacto inicial com a exposição A Vida Sensível, de Pedro Vaz, patente neste momento na Galeria 111, um filme é projetado sobre a parede. Uma área coberta por vegetação, sobretudo árvores, é iluminada por meio de uma clareira, onde, entrecortada por ramos e troncos, vemos perpassar, suavemente, aquilo que, num primeiro instante, nos parece um vulto humano. A sua aparição é vaga, algo velada. Irrompe subitamente, em vários sentidos, para se desintegrar logo a seguir. É mais rápida que o olho humano. É preciso teimar no olhar, para se empreender na descoberta do vulto por detrás da «neblina»: se é homem ou mulher, se se encontra coberto de vestes, e o que elas mesmas representam. O certo é, muito provavelmente, sermos traídos pela nossa perceção antropocêntrica, e levados a concluir que se trata de um vulto humano, na sua condição mais primitiva.

Nesta possível e breve conclusão da mente, o pensamento poderá derivar para uma ideia do selvagem, em perfeita simbiose com a natureza. Uma ideia de ser humano como elemento pertencente a esse ambiente natural, e não tanto um usurpador das suas fontes, ou um imperialista das coisas da natureza. Sempre conservando o olhar externo.

Mergulha-se, neste vídeo, na ideia de floresta mais profunda, selvagem. Habitam nele anseios de uma natureza bem remota, onde os homens poderão ainda não ter penetrado, e onde, por ironia, poderá residir justamente uma oportunidade para a humanidade. Pois na «Terra Selvagem reside a preservação do mundo», já dizia Thoreau. Uma terra onde a pureza fosse possível, para lá das imagens artificiais, para lá de «quadros» ou «paisagens» oriundas de «fábricas intelectuais», como diria Cauquelin.

Na segunda sala, esta mais ampla, encontramos uma possível ilustração para a ideia de quadros ou versões da natureza. Várias telas, suspensas no teto, em diferentes posições, convidam a um percurso serpenteante, e algo labiríntico. O percurso, sugerido pelo artista, transporta para a galeria o movimento, a trajetória que normalmente é feita numa floresta. Raramente em linha reta. As telas são como imagens que se desdobram no nosso olhar e lembram os vários quadros que vamos estabelecendo em torno da paisagem. O percurso realizado na segunda sala da exposição evidencia o movimento pouco linear que muitas vezes é experienciado no próprio ambiente natural.

Por último, algumas vitrines, em forma de cubo, transparentes, também presentes na exposição, ostentam fragmentos dessa mesma floresta. Nelas podem ver-se pequenas plantas que foram retiradas do seu ambiente natural, preservando a raiz e mantendo a terra que as cobre. As pequenas caixas, que se encontram posicionadas no chão, entre telas, ao longo da galeria, evocam o berço dos museus, os pequenos e velhos gabinetes de curiosidades, os wunderkammern, dos séculos XVI e XVII. A matéria orgânica vivente (planta) é disposta nos museus, para que todos possamos ver, e ter acesso. Serve para aprendermos sobre a sua beleza, ou a sua utilidade. Mas muito embora a queiramos manter nos museus, e possa ser a única maneira de a preservarmos, na realidade ela nunca poderá reproduzir a verdade da planta, fora do seu verdadeiro contexto, como parte integrante de um todo, em ligação com todos os elementos.

A Vida Sensível, de Pedro Vaz, está patente na Galeria 111 até 11 de setembro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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