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14-21: Duarte Amaral Netto na Galeria da Boavista

O pós-Troika foi uma ilusão, depois de jurar reformar o inefável sistema neoliberal. Desde então, nada ou pouco mudou. As receitas e os preceitos são os mesmos: maximizar os fluxos do turismo, lucrar com o estrangeiro, rentabilizar, especular, vender, vender, vender e, com isso, obter lucros a curto prazo para aplicar sabe-se lá onde, sabe-se lá no quê.

No que toca ao turismo e às cadeias que o servem – imobiliário, arquitetura vernacular, hotelaria –, Portugal é para inglês ver, recheado de AirBnB’s e reabilitações cosméticas. O turismo sublinha o pior da cultura portuguesa: servil, aparente, barata, na recorrente constância do fácil, do rápido e do elementar. O planeamento é inexistente, contrariado e contrariável.

Os projetos de grande envergadura – os “grandes investimentos”, mas também os pequenos, como as habitações e as vivendas – surgem à beira da “rua da estrada”, que Álvaro Domingues tão bem descreve, apropriando-se quase clandestinamente de um território sempre por organizar. Outros aparecem, quase de forma espontânea, no meio de reservas naturais, esventrando e revolvendo territórios e ferindo irremediavelmente as paisagens. Criando, no fundo, mais problemas num tecido socioeconómico erodido, com dificuldade de acesso à habitação digna e de valores razoáveis.

Até há bem pouco tempo vivemos o há muito ultrapassado modelo de desenvolvimento político das autoestradas, que explica a tendência limitada de entender as complexas e intrincadas – porque sempre interligadas e tentaculares – questões do ambiente natural, rural e urbano. O individual substituiu o coletivo. Melhor: o individual dizimou a possibilidade de construir o coletivo – magro, depois de décadas de ditadura.

Ainda colhemos o pior dessa era.

A cultura é, pois, a do individual, dos caprichos éticos e estéticos de cada um, sempre inconciliáveis: da casa cor-de-rosa numa urbanização caiada de branco; do azulejo de casa de banho na fachada principal do edifício; dos leões a encimar os muros de entrada; da pedra metamórfica, escura, a forrar os rodapés exteriores; das rotundas; dos PIN – Projetos de Interesse Nacional –, feitos para alimentar mais elites suspeitas; das barragens; da cultura superintensiva; dos alojamentos locais para estrangeiros que inflacionam os preços dos arrendamentos e das vendas.

Mas onde está verdadeiramente o problema? O problema está onde sempre esteve: na fundamental falta de cultura política e, no limite, esticando bem para lá do que seria o registo primeiro deste texto, na falta de políticas culturais e educativas que treinem e ensinem, de forma crítica, o olho e a mente para os problemas das cidades, do urbanismo e do planeamento regional e urbano – para os problemas da pólis, da política, e dessa coisa esquecida chamada de Res publica: República.

A exposição 14-21, de Duarte Amaral Netto, com a curadoria de João Seguro, é um retrato aturado e crítico, quase clínico, deste Portugal ainda em mutação, sem esquecer, contudo, um olhar poético e vagamente decadente. 14-21 é uma viagem de Norte a Sul, do litoral ao interior, que documenta as estratégias económicas, sociais e urbanas que têm vindo a desenvolver-se depois da saída da Troika, em 2014. O 21 de 2021 é puramente uma vírgula nesta cronologia, porque os efeitos perduram, e o que Amaral Netto aqui mostra será apenas uma parte das consequências e idiossincrasias políticas do pós-Troika – uma era interminável, que não será esquecida nos manuais da história contemporânea, e nem mesmo o que virá depois (o pós-pandemia) conseguirá remeter para os cantos da memória evanescente.

Entramos nas Galerias Municipais – Galeria da Boavista como quem entra numa imobiliária. É-nos oferecida uma visão, um sonho, um desejo. O primeiro contacto com a exposição é, portanto, através da linguagem do marketing e da lógica do capital neoliberal, que compromete toda e qualquer política ou aspiração pública e que está na base dos problemas anteriormente descritos. A estes Anúncios CBW – Prime Real Estate (2021), sucedem-se Interiores (2012-2015), que denunciam a mesma linguagem libidinosa da compra, venda e posse.

Reta (2014) é um longo passeio por um Portugal depressivo e eufórico, negligente e humano, anacrónico e moderno. É um ensaio sobre o melhor e o pior em Portugal, do desmande propositado e da redenção acidental, que revela sempre algo surpreendente, digno de referência ou atenção, mais não seja uma terna ignorância ou inocência. É o Portugal que odiamos. E o Portugal que amamos.

A exposição termina com a curta-metragem Raquel (2021), que, como o curador refere, “questiona os mecanismos de flutuação das dimensões económicas, sociais, habitacionais e políticas que condicionam a nossa vida em 2021”. Raquel, a personagem que empresta o nome a obra, é a encarnação das dificuldades e das frustrações da vida moderna atual, repleta de insuficiências e carente de estruturas de apoio. Mas é, sobretudo, o retrato da dignidade gorada do trabalho árduo e da incapacidade de superação e de progressão social e económica, que afeta muitos dos que habitam as periferias dos grandes centros urbanos.

O pós-Troika não conduziu a um pós-Capitalismo ou a um pós-Neoliberalismo. A cadeia e o sistema de antes é o mesmo de agora, sem vias de escape, sem trilhos, nem caminhos alternativos. Digladiar este Leviatã parece um suicídio. E, no limite, 14-21 mostra-nos também essa melancolia de um país construído, que carece de revisão e desconstrução, mas que não consegue, porque é outra roda de uma gigantesca engrenagem, sujeita à mesma ordem da máquina mundial e globalizada.

Terminámos o período da Troika como provavelmente acabaremos o período pós-pandemia: como Raquel, sentiremos a falta da autonomia e da independência, e somaremos aos problemas base, vários outros… neste país, que tanto amamos como odiamos.

Haja esperança na política.

Ou haja esperança no turismo.

Afinal, as crises pagam-se sempre a seguir. Depois. Pela geração que há de vir.

14-21, de Duarte Amaral Netto e curadoria de João Seguro, nas Galerias Municipais – Galeria da Boavista, até 26 de setembro.

José Rui Pardal Pina (n. 1988), mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo.

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