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Entrevista a Teresa Huertas, vencedora da 16ª edição da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira

Entre Junho e Julho, as imagens da artista Teresa Huertas me olharam. Elas murmuravam em um tom doce: “Olha, o tempo é fluxo em movimento. Você consegue habitar esse lugar? Você consegue lembrar o que é ser gás atmosférico? Experimenta.” Foi acompanhada por essas perguntas, abrindo espaço entre corpo-mente, que essa entrevista aconteceu. Obrigada, Teresa, pelas palavras que ressoam.

Maíra Botelho – Teresa, primeiramente parabéns pelo prémio da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira. Como surgiu o seu interesse pela fotografia?

Teresa Huertas – Obrigada, Maíra. Comecei por estudar pintura e desenho no Ar.Co sob orientação de Jorge Martins, Manuel Costa Cabral e António Sena. A fotografia foi gradualmente tomando o lugar da expressão plástica. Possibilitava-me uma relação com o visível e com o mundo em fluxo mais contingente do que a das artes tradicionais, mas porventura mais dinâmica e interactiva. Controlar a performance da câmara e trabalhar a distância entre a minha percepção e o real gera(va) um espaço de indeterminação, aberto ao acidental e ao instante, mais compatível com as minhas motivações. Uma posterior reflexão sobre a essência e as potencialidades da linguagem fotográfica, que incluiu estudos teóricos e um percurso de práticas, conduziram-me a uma gradual adaptação das capacidades discursivas da linguagem fotográfica a uma sintaxe menos dependente da referencialidade e mais focada no desenvolvimento de uma gramática conceptual. Recentemente, interessou-me explorar as potencialidades temporais da imagem fixa, o que me conduziu necessariamente ao cruzamento da fotografia com as linguagens cinemáticas. ATMÓS [passagens #1] é um exemplo.

MB – O trabalho com o qual você recebeu a premiação – ATMÓS [passagens #1] – lida principalmente com a percepção da passagem do tempo. A sua opção por usar o vídeo – uma media que lida justamente com o tempo – cria um adensamento do conceito que você expõe. Comente a sua percepção do tempo como media e transmissor de informações.

THATMÓS [passagens #1] é um trabalho de matriz fotográfica. A sua transposição para um time-based media, como o vídeo, veio permitir a inscrição de tempo cinemático nas imagens fixas e problematizar as convenções que associam a fotografia à fixidez e o filme ao movimento. Recorrendo a uma “estética do lento”, que é uma estética fílmica, evidencio o tempo como fluxo, mas tomo como referência os ritmos da natureza, dos quais o homem contemporâneo se tem vindo a distanciar. Na perspectiva de uma desaceleração da recepção, o tempo lento das imagens opera como instrumento de amplificação da percepção e de consciencialização da própria experiência perceptiva.

MB – Vivemos hoje em uma velocidade visual extremamente acelerada e hiper-estimulada. Você considera a sua prática como uma resistência a essa imposição cultural de estar sempre em movimento?

TH – Sim, claramente. Esta obra é um manifesto de resistência à cultura visual da aceleração e da hiper-estimulação, sem, contudo, propor a passividade. Reclamar a lentidão como estética das imagens e atitude espectatorial parece voltar a fazer sentido na contemporaneidade, submersos que estamos num movimento de dispersão que aliena da experiência qualitativa do mundo e de uma verdadeira absorção crítica de conteúdos. Giorgio Agamben afirma que a incapacidade de gerar e transmitir experiência é uma das raras certezas sobre a condição do homem contemporâneo. Penso que a expropriação do tempo a que fomos e continuamos a ser sujeitos, como bem refere Jonathan Crary em 24/7, contribui para esta incapacidade. O olhar demorado pode qualificar a experiência das imagens, torná-la assimilável, pensativa, comunicável.

MB – A sua pesquisa me lembra o trabalho de Roni Horn, Saying Water, em que a artista retorna ao Rio Thames frequentemente para produzir fotografias e anotações. Quais são as suas referências e inspirações?

TH – Aprecio bastante o trabalho de Roni Horn, que tenho acompanhado e já tive a oportunidade de ver em vários contextos expositivos, um deles no Museu de Arte Moderna de Reykjavik, em 2007, que incluía algumas peças da série Still Water (The River Thames, for Example). Nas séries fotográficas de Olafur Eliasson, outro artista que se debruçou sobre o território islandês, tal como Horn, encontro muitas afinidades com a matriz deste meu trabalho. No campo de intersecção entre fixidez e movimento, interessam-me especialmente as obras que trabalham a duração e o tempo como matéria da percepção, como é o caso da obra de David Claerbout, mas também os cinemas duracionais não-narrativos em geral.

MB – No seu depoimento ao MNAC em Junho deste ano, você reflecte sobre o seu processo criativo como um encontro entre espaço, formas e atmosferas dos lugares. Como você se prepara para esse encontro? Quais são os seus rituais de trabalho?

TH – Não me preparo. Apenas me disponibilizo. A noção de Stimmung, usada por Georg Simmel na sua reflexão estética sobre a paisagem, designa uma sintonia momentânea entre a intensidade da percepção e o seu objecto, que converte o espaço, as formas e a atmosfera dos lugares numa imagem mental. Esta configuração adequa-se ao meu conceito de “encontro sensível”. É verdade que procuro um certo tipo de lugares que favoreçam este tipo de vivência. O espaço natural, menos saturado do que o espaço urbano, oferece um silêncio visual que intensifica a experiência sensorial e apura a qualidade da percepção. O momento de fotografar é um instante pregnante, que não tem de ser decisivo (alguém disse que a natureza não oferece instantes decisivos…). A obra é, afinal, um conjunto de instantes pregnantes até à sua recepção. Trabalhar posteriormente as imagens é todo um outro processo, normalmente demorado, feito de distanciamento reflexivo, experimentação e investigação.

MB – No mesmo depoimento, você reflecte sobre a sua prática artística como uma “tradução de instantes de sintonia entre o que vemos e o que nos olha”. É interessante como essa afirmação extrapola a identidade do artista de um sujeito observador. Comente a sua compreensão da função do artista contemporâneo.

TH – A diversidade de motivações e expressões que caracterizam a arte contemporânea dificultam a nomeação de “uma função” para o artista. No meu ponto de vista, o artista é sempre um observador. Interroga a própria observação e tem disponibilidade para o aberto do mundo. Se ver é “sentir que qualquer coisa inelutavelmente nos escapa”, como refere Georges Didi-Huberman, é justamente na inquietação que o acto de ver implica que reside a possibilidade de descondicionar o olhar e ver o mundo de forma diferente. Porém, o acto de ver pode reflectir uma familiaridade, uma identificação, sem que o artista se mantenha necessariamente na aparência das coisas. Creio ser nesta dialéctica que opera a dinâmica criativa. Num presente de instabilidade e incerteza, o artista pode agenciar a inquietação para uma incrementação da consciência crítica, mas também potenciar a criação de espaços de afinidade junto de sujeitos dispersos, desmotivados, saturados. As ferramentas do artista contemporâneo são de tal modo ecléticas e porosas, que permitem penetrar uma pluralidade de sensibilidades e estimular tanto percepções treinadas quanto zonas de adormecimento ou de conforto. A minha visão é optimista. Acredito no poder transformador da arte.

Maíra Botelho e Teresa Huertas não escrevem ao abrigo do AO90.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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