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Coleção de Espectador_s, um espetáculo de Raquel André no Teatro Nacional D. Maria II

Coleção de Espectador_s está dentro do projeto de Raquel André Coleção de Pessoas, um projeto que coleciona espectadores que são convidados a ativar uma relação direta com a artista. A cocriação é de Cláudia Gaiolas, a música de Odete, o figurino de José António Tenente, contando com a participação de Ana Ribeiro, André de Jesus Conceição, David Gorjão, Fátima Barreto, João Limão, Júlia Catita, Luís do Paço, Marina Preguiça, Patrícia Santos, Raquel Pedro e Tânia Martins Ramos.

A ideia deste espetáculo é a de partilhar algo que normalmente está longe da perceção do público e da qual pouco participa: o processo de criação artística. É certo que a produção artística habita numa bolha, mas são os seus agentes que a colocam nesse lugar. Desde o pós-modernismo que a produção artística tem enveredado por caminhos que superficialmente são nomeados como arte participativa, ou seja, colocando o público como agente ativo da obra que se está a criar. Contudo, estes são, a meu ver, caminhos muitas vezes pantanosos e que falham redondamente o seu objetivo de partilha. Aqueles que são convidados a participar precisam de diretrizes e estímulos à imaginação de modo a criar um ambiente engajador onde se sintam parte do projeto e não um mero adereço.

Coleção de Espectador_s é exemplo disto. As e os participantes estão completamente envolvidos no projeto através dos seus corpos, das suas histórias e da sua voz. Tomam, de facto, parte ativa no objeto e no processo artístico. Há, no entanto, um problema que diz respeito à chamada arte participativa. Assumir que a partilha do processo criativo é a ideia-chave conceptual de um objeto artístico acarta uma responsabilidade da qual o artista não pode ser alheio. A ideia da partilha do processo criativo vem da filosofia e da política. Trata-se de uma afirmação política (por isso ideológica) e de um exercício de especulação filosófica importados pelo mundo da arte. No que toca à filosofia, é usada como ferramenta de pensamento e, como tal, é utilizada pela arte para criar toda a parte conceptual, criativa, lógica (ou não), de uma determinada obra. Estamos no campo da abstração e de como a filosofia é instrumentalizada pela arte: não encontro aqui nada de problemático, a não ser que esta instrumentalização seja feita de forma desonesta – que não é o caso desta peça. Porém, no que toca à política, esta ideia acarta uma tomada de posição que obriga à coerência e responsabilidade. Entre outras referências bibliográficas, o conceito de comum e de partilha do sensível de Rancière é incontornável para entendermos esta questão. Estes dois conceitos são parte da base teórica e conceptual dos artistas que pensam a arte em jogo com a política. A arte participativa nasce daqui. O comum para Rancière é algo que deve ser construído através do encontro dissensual das perceções individuais. O dissenso é algo complexo no pensamento de Rancière, mas – simplificando – significa desentendimento, desencontro. A partilha do sensível é a maneira como se determina no sensível a relação entre um conjunto comum partilhado e a divisão das partes exclusivas. Esta divisão não foi feita e, como tal, o comum partilhado neste espetáculo acaba por ser incoerente.

A abordagem de Raquel André sobre a partilha do processo de criação artística, a relação direta entre artistas e espectadores e as posições políticas que assume é incoerente e procura salientar a sua individualidade. O que acontece em Coleção de Espectador_s não é novidade: vários são os casos onde o artista procura colocar o holofote sobre si, tomando como seu um discurso reivindicativo e de luta pelas desigualdades sociais, raciais, económicas e de género. Este tipo de artista não se intimida, erguendo de forma gratuita todas as bandeiras e mais algumas, estando assim «descansado» porque sabe que todas as lutas trendy de esquerda estão lá enfiadas. Se para Raquel André é tão importante a luta antirracista e a desigualdade racial institucionalizada, por que razão não há nenhuma negra nem nenhum negro em cima do palco? Por que razão são todos e todas homens brancos e mulheres brancas? Se o revisionismo histórico, a crítica de uma narrativa histórica colonial sobre as ex-colónias – nomeadamente o Brasil – é importante, por que razão estão portuguesas e portugueses a falar sobre este assunto e não brasileiras e brasileiros? O grande desafio da luta política progressista de esquerda está em dar lugar e voz às classes marginalizadas. Não podemos falar por elas, apenas solidarizarmo-nos com as suas lutas e ajudar sem lhes retirar o lugar de fala. De outra forma, estamos a perpetuar os lugares de poder que tanto queremos destruir. Levantar faixas com palavras de ordem como FASCISMO NUNCA MAIS, ABAIXO A DITADURA, FORA BOLSONARO ou escutar a Grândola, Vila Morena numa peça de teatro é quase sempre ridículo. É ridículo porque descontextualiza tudo isto, instrumentaliza a luta política que se faz na rua e em coletivo em prol da individualidade de uma pessoa. A luta política não se faz em cima do palco. Isto não é dizer que a arte não é política: a arte é política assim como quase tudo na nossa vida é político. É dizer que a rua é o lugar onde habita essa potência política transgressora e transformadora. No palco estão muitas outras, mas não esta. Se, por exemplo, a minha ideia artística para um espetáculo passa por chamar a atenção para outros modos alternativos de viver, irei criar um objeto artístico que materialize isso mesmo, de forma clara, e não criar um objeto que fala simplesmente de como existem outros modos de vida alternativos. Este discurso é do eu para o eu, não do eu para o nós ou do nós para o nós.

A maneira como se dizem as coisas é importante e quase sempre mais significativa do que aquilo que está a ser dito. Partilho com Raquel André todas as preocupações e reivindicações políticas expostas em Coleção de Espectador_s, mas é relevante entendermos que esta maneira de fazer é contraproducente e problemática.

Coleção de Espectador_s esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, entre 16 e 18 de julho.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu na Itália, Grécia, e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo, entre a pele da planta do pé e a pele da superfície do chão. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. É um dos fundadores da CusCus Discus. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espetáculo PARAANDAR, inserido no Festival Snow Black 2019 (Moita), e no evento A TROPA BELADONA (2019), na ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (Barreiro) — produções d’A Bela Associação.

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