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Entrevista a Carla Filipe, autora de “(In)consciência sob um estado de amnésia — Movimentos de luta e resistência na cidade do Porto no século XX”

No âmbito da capa do mês de julho da edição online da Umbigo, apresentamos (In)Consciência sob um estado de amnésia – movimentos de luta e resistência na cidade do Porto séc. XX, publicação de artista, em formato de mail art, da artista visual Carla Filipe, com o apoio do Criatório da Câmara Municipal do Porto. Com lançamento marcado para 31 de julho no Gato Vadio, a edição compreende objetos de artista de Pedro G. Romero, André Cepeda, Filipe Mujica, Ângela Ferreira e Lola Meintjes, e de Carla Filipe, assim como textos do curador Angel Calvo Ulloa, do arquiteto André Tavares e do curador e ensaísta Nacho París.

Carla Filipe (1973, Póvoa do Valado) conta com uma grande lista de exposições individuais e coletivas, assim como uma vasta seleção de publicações/livros de artista, dos quais se destaca os mais recentes, Espectro de uma memória e identidade de uma bienal de arte [1995–2003], ed. Bienal da Maia, 2019; O Ontem morreu hoje, o hoje morre amanhã, ed. CMP, 2018; ou Imagens Sangradas, ed. Consulado de São Paulo, Brasil, 2016. A artista visual (que vive e trabalha no Porto), na sua produção artística, integra elementos biográficos, questões políticas e sociais, em projetos relacionados com o caminho de ferro, com a criação de hortas, ou de mantos com impressões da cidade ou elementos gráficos do período pós-25 de Abril. Nesta publicação prossegue o seu ativismo e um olhar atento e perscrutador pela cidade que escolheu viver, realçando uma história há muito esquecida, a dos movimentos políticos e ativistas do Porto no século XX. Como Miguel von Hafe Pérez referiu: “o verdadeiro atelier da artista é a rua. Trabalhadora incansável… uma proletária do quotidiano”[1]. Entrevistámos Carla Filipe e Márcia Novais, cocolaboradora no design da publicação, de modo a compreender como surgiu a ideia, em que é que consiste e a sua pertinência para a discussão crítica sobre estes movimentos.

 

Ana Martins – Este projeto pretende resgatar o passado de movimentação política e ativista do Porto, permeando a produção de conhecimento atual através da curadoria sob um objeto de autor, que reúne discursos de vários artistas, proporcionando uma contaminação e extensão do tema, através de outros pontos de vista e sensibilidades estéticas. Como surgiu a ideia de conceber esta publicação de artista?

Carla Filipe – Esta inquietação surgiu há dez anos e foi amadurecendo ao longo do tempo, até decidir o momento ideal para fazer esta abordagem. Em 2011 quando estava a desenvolver uma pesquisa sobre portugueses que estudaram em países socialistas a seguir à Revolução do 25 de Abril de 1974, que resultou no trabalho e na publicação de artista As Primas da Bulgária, descobri na livraria da Organização Regional do Porto do Partido Comunista o Livro Branco – Maio 1982, reeditado pela União de Sindicatos do Porto da CGTP, sobre a madrugada de 30 de abril, um episódio que resultou em vários feridos e duas mortes. Fiquei perplexa, como após oito anos do fim da ditadura ser possível uma opressão destas em plena democracia. Percebi que tinha que reavivar este acontecimento, entre outros, relativos à cidade do Porto, sendo o principal objetivo compreender o local onde vivo.

Decidi concorrer ao Criatório, porque achei que este seria o apoio indicado para desenvolver este projeto. Considerei que o formato mais indicado seria uma publicação de artista em forma de mail art, uma exposição dentro de um envelope.

AMO título está divido em duas partes: uma primeira, mais poética, e uma segunda, de carácter mais descritivo. Como o pensaste e de que forma descreves o projeto?

CF – A parte do título que citas como mais poético apresenta uma dualidade: por um lado, a consciência de quem conheceu e esqueceu, uma amnésia temporária que pode ser reativada; e, por outro, a inconsciência sobre factos.

AM – Como concebeste a curadoria em formato de mail art, reavivando esta prática artística? Como será a distribuição?

CF – Sempre trabalhei muito com livros de artista. Neste caso decidi reativar a prática da mail art, um movimento artístico das décadas de 1970 e 1980, contrariando o consumo de arte pela internet, pois a sua observação através das redes sociais exclui a tridimensionalidade, passando tudo a bidimensional e nunca substituindo a experiência.

A distribuição terá duas vertentes: uma será através de pontos de venda, em parte da responsabilidade da STET – livros & fotografias para que chegue a um público mais abrangente e outra através do simples envio por correio, sem qualquer valor comercial.

AM – Quais foram os critérios para a escolha dos artistas e dos autores? Podes falar um pouco sobre o teu trabalho para esta edição?

CF – Convidei autores cuja prática artística conheço bem e cuja colaboração fazia sentido neste projeto. O meu trabalho parte do livro Roteiros da Memória Urbana do Porto-Marcas deixadas por Libertários e afins ao longo do século XX, de João Freire e Maria Alexandra Lousada, e interessei-me particularmente por cartografar e fotografar algumas moradas de residência dos(as) vários(as) militantes. Durante o processo, senti a necessidade de incluir alguém que pudesse criar uma relação com a cidade. Convidei o André Tavares, que a partir do mesmo livro fez o seu percurso pelo Porto, do qual resultou o texto Construção e Castigo.

AM – De que modo fizeste a gestão desta publicação, compreendendo vários artistas e autores, com linguagens distintas, assim como o trabalho da designer, de maneira a criar uma estrutura formal e um objeto coerente e singular?

CF – Sendo um livro de artista que inclui edições de artista, é um trabalho exigente. Inicialmente defini a apresentação da publicação: um envelope-capa, que continha vários objetos de suporte e dimensões diferentes. Depois trabalhei com a designer Márcia Novais e ao longo do processo fomos reajustando alguns detalhes. Embora sejam autores(as) distintos(as), todos(as) têm interesses próximos na abordagem ao seu trabalho, portanto tinha uma antevisão do que cada pessoa podia proporcionar. No caso do Felipe Mujica, quando recebi o trabalho, decidi que tinha que ser impresso em serigrafia em vez de offset, porque a questão da manualidade é importante na sua prática. São detalhes que não são muito visíveis, mas que definem uma exigência relacionada com o hemisfério de cada artista.

AM – Já sabes como será o lançamento da publicação?

CF – Será no dia 31 de julho no espaço da Livraria do Gato Vadio, não descartando o facto de se tratar de uma coincidência que um dos tradutores que colaborou neste projeto, o Jorge Leandro Rosa, ser membro desse espaço. Será uma apresentação da publicação com a presença de alguns dos colaboradores.

AM – André Tavares, na introdução ao texto Construção e Castigo, afirma: “Há uma história da construção da cidade que está por escrever. A concentração operária no centro do Porto, desde o final do século XIX, gerou conflitos sociais, lutas de classes e movimentos de resistência popular… Compreender quais os proveitos e repressões que advieram dessas tensões é um conhecimento útil, sobretudo nos dias que correm em que é urgente travar lutas importantes para transformar o mundo”. Consideras que trazer para a discussão pública este lado mais esquecido da história do Porto, através de um objeto de distribuição, sob um ponto de vista artístico, irá contribuir para uma maior reflexão acerca destes movimentos? Qual é a tua relação com esta história?

CF – Espero que entre na discussão pública, mas que também potencie o interesse sobre estes factos. Quem sabe se um dia seja escrita esta história que ainda está por escrever? Eu não tenho uma relação direta com esta história da cidade, porque não sou do Porto e, portanto, não tenho experiência vivencial. No entanto, transporto sempre comigo estas narrativas, através de experiências de outras geografias. A relação mais participativa que tenho com o Porto, foi a minha ligação aos espaços artísticos independentes entre 2001-2008. Foi um movimento de extrema resistência, que criou um corpo coletivo cultural e considero este momento da história cultural da cidade ligado aos artist-run spaces algo singular e único.

AM – Enquanto corresponsável pelo design de um livro de artista, como consideras que foi o teu papel em gerir, projetar e conceber um objeto desta complexidade?

Márcia Novais – Colaboro bastante com artistas a desenhar livros e cada um é diferente no método e na forma como o produz.

A primeira vez que colaborei com a Carla Filipe foi no livro da exposição O Ontem morreu hoje, o hoje morre amanhã (2018) na GMP, o que serviu como início de uma relação de trabalho, que me ajudou a perceber como o trabalho da Carla se relacionava com o de outros artistas e qual o meu papel na conceção de um livro deste género.

Nesse sentido, eu facilito a concretização da publicação, num trabalho que é colaborativo, pois discutimos, vemos soluções e testamos repetidamente. Eu penso que a relação entre o artista e o designer é fundamental para a conceção deste tipo de objetos.

Nesta publicação, a Carla convidou várias pessoas para participar, com diferentes tipologias de conteúdos, que passam por textos e objetos gráficos desenhados para a publicação. Fez sentido pensarmos em diferentes formatos, em que pudessem ser reenquadradas as contribuições. Do mesmo modo, a publicação tem de ser articulada como um todo, apesar de incluirmos vários tipos de objetos, o que também implica negociações e cedências entre vários interlocutores. É importante que haja um equilíbrio entre o que é que podemos fazer a nível de publicação, conceito gráfico e trabalho de artistas.

A apropriação de imagens, que posteriormente alterámos, através da impressão e digitalização e inversão de cores, dão-nos outras pistas sobre os movimentos de luta e resistência no Porto.

Outro aspeto importante a considerar no desenho desta publicação é o conceito de mail art. Apesar das diferentes tipologias de formato e papéis, foi importante decidir de que forma manter a ideia de que pudesse ser enviado pelo correio. O desenho do envelope foi customizado, para que pudesse ter impressão no interior.

 

[1] Citação retirada do texto da versão portuguesa não editada, constante no catálogo em inglês cedido por Carla Filipe: Pérez, M. v. (2017). Drinking from the Street. In be part of Chaos – Carla Filipe (p. 5). Viena: Krinzinger Projekte.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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