Top

Escola da Vila – Construção de um espaço comum

A importância da arquitetura, como delineadora de sociedades e modeladora de ambientes e comportamentos, tem vindo a ser estudada e tem ganhado autonomia devido a uma certa urgência de superar o grande desconhecimento que ainda existe sobre a enorme riqueza e valor das experiências arquitetónicas modernas em Portugal ao longo do século XX. A cidade é de todos porque todos a habitamos, mas como são compreendidos os projetos arquitetónicos? E como são vividos no quotidiano? Estas são as questões que a exposição Escola da Vida – construção de um espaço comum, promovida pela Porta 33 e comissariada por Madalena Vidigal e Diogo Amaro, levanta no Porto Santo.

A Porta 33 é uma estrutura sediada no Funchal, que, há 30 anos (festejados em 2019), mantém uma produção artística e educativa regular, fruto do amor, do labor e da resiliência de Cecília Vieira de Freitas e Maurício Pestana Reis. Em 2019 foi celebrado um protocolo entre a Câmara Municipal do Porto Santo e a Porta 33, com o intuito de transformar o espaço da Escola Primária da Vila de Porto Santo, conhecida pela população como Escola da Vila, num local de residências e atividades artísticas, em comunhão com a população local.

Entre os dias 21 e 26 de junho, a Porta 33 iniciou a sua presença regular na ilha do Porto Santo, através da abertura da Escola da Vila e de diversas atividades.

A exposição inaugural foca o projeto do arquiteto Raúl Chorão Ramalho (1914-2002) para o local, a par de um conjunto de conferências (O universo de Raúl Chorão Ramalho sobre o corpo de obra do arquiteto e A Escola do Porto Santo: memória, transição e potência) sobre o projeto da própria escola. Nestas conferências transdisciplinares, tivemos a oportunidade de ouvir oradores tão ilustres como os arquitetos Ana Tostões, Vítor Mestre, Paulo David e Fátima Menezes e o historiador Emanuel Gaspar e o próprio Maurício Pestana Reis.

A Escola da Vila funcionou desde 1967 até 2018 e faz parte integrante da memória e da vida de sucessivas gerações da comunidade Porto-santense. Esta escola foi uma encomenda da Câmara Municipal do Porto Santo a Chorão Ramalho que era, à época, um respeitado arquiteto. O edifício revela influências da arquitetura vernacular (o arquiteto esteve no Japão onde terá ido buscar a sua inspiração), mas também de tendências europeias do pós-guerra, nomeadamente através da reformulação do movimento modernista que foi o brutalismo.

O brutalismo caracteriza-se pelo enfoque na vivência do espaço e na ligação à comunidade. Distingue-se pelo uso dos materiais construtivos no seu estado puro, de forma funcional e sem ornamentos, deixando a estrutura à vista. Chorão Ramalho já tinha ensaiado uma experiência brutalista na Igreja do Imaculado Coração de Maria no Funchal (1953) e no Porto Santo vai adaptar a escala a uma vivência diária e dialogante onde se privilegia a escala humana e a relação entre o espaço interior e o exterior.

A Escola da Vila tem, assim, uma volumetria típica do Modernismo, mas em que os materiais construtivos estão à vista e que se relaciona com o espaço exterior através de diferentes planos e escalas. O conjunto arquitetónico é composto por dois volumes: o conjunto das salas de aula e o refeitório do outro lado do grande pátio junto à entrada. Este grande pátio, hoje alcatroado, era, na altura da sua construção, em terra batida. Entre o pátio e as salas de aula, existem pequenos recreios definidos por planos verticais com pequenos rasgos geométricos aos quais o arquiteto Paulo David chamou “a folie de Chorão Ramalho”, mas que delimitam espaços que se diferenciam como zonas de brincadeira, mas também de vivência mais doméstica, ao jeito dos pequenos pátios de entrada das antigas casas tradicionais japonesas. Este efeito é sublinhado pelas palas (avanços da cobertura) que existem em todos os edifícios e que protegem o interior da luz solar. O conjunto arquitetónico, com esta estética só foi possível por existir numa ilha, longe dos olhares de um regime anti-modernista.

A exposição, que estará patente ao público até 30 de outubro, mostra todo o processo de projeção da escola. Nas mesas escolares forradas a papel esquiço onde estão impressos os desenhos do projeto, tanto os estudos como os desenhos técnicos, incluindo a memória descritiva, somos testemunhas de todo o processo criativo da construção da escola. Podemos até ver estudos solares sobre a exposição do sol na fachada nos solstícios e equinócios.

Não é fácil montar uma exposição sobre arquitetura. Porque a arquitetura diz respeito ao uso e à vivência do espaço e do corpo, à vivência emocional e até espiritual, e o desenho fica sempre longe de o transmitir. No entanto, Escola da Vila – Construção de um espaço comum consegue transmitir essa emoção, através dos desenhos feitos à mão e dos textos, permitindo-nos resgatar o processo criativo que é tão único como é a escola e um pouco da história daquela comunidade e da sua relação com o edificado. A Porta 33, em conjunto com os seus curadores e com colaboradores como Inês Lapa, está a fazer um trabalho de levantamento de testemunhos dos que foram alunos naquela escola e das suas vivências e memórias do espaço. Nesse sentido, há um trabalho que é muito mais do que uma exposição artística, há o resgatar emocional da vivência, mantendo o espaço vivo.

É, nesse âmbito, e com vontade de manter o conjunto arquitetónico, que, graças à Porta 33, foi aberto em abril de 2020 o procedimento de classificação a Imóvel de Interesse Público. E é com vontade de manter o espaço vivo e em articulação com a comunidade em que se insere que, já a partir deste verão, a Porta 33 dinamiza diversas atividades culturais como workshops ou palestras abertas à comunidade. A Associação irá ainda dinamizar residências artísticas, aproveitando as características naturais da Ilha, pois como diz ainda o arquiteto Paulo David “o Porto Santo é o melhor lugar do mundo para o ócio”. Para os artistas que tenham oportunidade de lá residir, esperemos que seja o melhor lugar do mundo para a contemplação e para a criação.

Escola da Vila – Construção de um espaço comum, até 31 de outubro, na Porta33.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)