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An Animal with a backpack, dos Musa paradisiaca

Na Galeria Quadrado Azul, encontramos uma instalação do projeto An Animal with a backpack, dos Musa paradisiaca.

Uma mesa, longilínea, posicionada no interior de uma construção em forma de cubo, é usada para pousar uma fileira de vinis que, pelas suas características, apresentam diferentes imagens, em tons RGB, e de modo alternado.

Ao centro da bancada, avistado à entrada do cubo, um gira-discos volteia lânguido, e emite sons de vozes femininas que, com entusiasmo, leem passagens de textos sobre cheiros e odores. Esta peça sonora, que conta com a participação de Nada T. Roberts, chama-se Para uma História de Cheiros. Na outra face do vinil, no lado B, encontramos a peça sonora Descrições de Elato. Uma voz masculina tece comentários sobre objetos que descobre e com os quais se vai questionando ao longo da gravação. Pelo som dos passos o homem aparenta, por vezes, estar próximo de nós, outras vezes parece situar-se numa posição mais afastada. Intuindo-se, por isso, uma deslocação, uma experiência do espaço. Por outro lado, este processo de escuta em que nos apercebemos da deslocação de uma pessoa, remete-nos para um exercício mental em que passamos a ser, nós mesmos, os agentes dessa busca de significados, e de tentativas de relações e conexões entre os objetos.

A personagem masculina vai desvelando os objetos, e descrevendo-os um a um. Por exemplo, um cato, um baú. Vai dissecando as suas funções, as suas formas, a sua quantidade, o que representam, o que são, ou até para que servem. Este exercício desperta, no visitante, em condição de escuta, grandes interrogações, como a questão levantada “o que é uma coisa”. Tema que, aliás, o próprio curador, João Silvério, terá mencionado na conversa que estabeleceu com Eduardo Guerra e Miguel Ferrão, O transcendental do Olfato, publicada no texto que acompanha o vinil. Segundo Silvério: “Estamos próximos da ‘coisa em si’, mas eu acho que é precisamente como se fosse o avesso dessa ideia de ‘coisa em si’. Essa ampliação constante, em todas as suas dimensões, sejam elas quais forem”.

A personagem masculina, em Descrições de Elato olha confusa para objetos que, por vezes, não parece conseguir deslindar a sua identidade. Torna-se, por isso, inevitável que nos debrucemos sobre a questão do que é uma coisa, e nos lembremos do modo como habitualmente nos dirigimos às coisas, sem sermos capazes de evitar dizer “que são um suporte de propriedades. Suporte esse que não é o resultado do que efetivamente vemos, mas o que a antiga tradição histórica” determinou que víssemos, como diria Heidegger.

Por outro lado, podemos voltar aos sons, e aos cheiros. Sobre o uso dos vários sentidos em arte: audição, visão, olfato – este último, aparece tratado na peça por meio de uma reflexão. A arte existe, não importa o meio. A arte permite que redescubramos o mundo em que vivemos, já dizia Merleau-Ponty. O mundo em que “vivemos, mas que, no entanto, tendemos a esquecer”. O que o mundo dos cheiros e o mundo dos sons nos permite é, talvez, olhar para os objetos que nos rodeiam, com um pouco mais de pureza, livre dessa mesma condição histórica.

Até 31 de julho, na Galeria Quadrado Azul.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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