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Maria José Oliveira. A Poética Indizível dos objetos.

O medo fecha as portas e inibe as mãos da mesma forma que a noite é a vergonha que cai as persianas dos quartos. São muitos os medos e os receios que tutelam a nossa vida. Em Estamos aqui porque voamos, a exposição apresentada por Maria José Oliveira (MJO) no Museu Municipal de Faro, é imediata a perceção da ousadia. A coragem de procurar o fio da existência humana e errar nessa tentativa.

Poder-se-ia dizer, muito sumariamente, que a história que se pretende contar nesta exposição corresponde à ideia de Darwin sobre a evolução das espécies. Em certo sentido, e na medida em que as conclusões do naturalista sugerem à artista as coordenadas essenciais do trabalho, poderíamos subordinar um trabalho ao outro. No entanto, os sentidos e a gramática do indizível que Maria José Oliveira propõe na sua narrativa acrescenta mais mundo, um certo sentido filosófico, à base científica que precede o seu gesto criador.

Em cada exposição que MJO faz está sempre subjacente uma história pessoal. Todas elas se relacionam com emoções ou convulsões, com um acontecimento da sua vida. Há sempre a memória de pessoas que atravessaram a sua vida ou foram importantes no decurso dela.

A recolha de objetos que encontra na rua é uma particularidade da sua prática artística. Outros materiais são-lhe dados por amigos que entendem a sua linguagem e percebem a possibilidade que esses objetos têm de casar com a sua prática. Este processo traz para as exposições uma dimensão afetiva de grande importância para a artista. Transporta para a sua oficina criativa a amizade e, de alguma forma, “envivece” os amigos que já partiram.

Nesta exposição há vários exemplos de objetos oferecidos que conferem à exposição um misto de memórias, afetos e de tempos. Estamos aqui porque voámos apresenta peças concebidas de propósito e outras realizadas nos anos 70, 80 e 90, e que nunca tinham sido mostradas.

Depois de realizadas muitas peças são colocadas pela artista a “curar”. O tempo da execução não corresponde ao tempo de as mostrar. MJO espera por esse período de maturação e só depois as devolve à luz.

Muitos materiais intervencionados pelo tempo (a natureza é a terceira mão de MJO), em estádios avançados de amadurecimento ou mesmo de decomposição que os aproxima da morte. Essa sublimação do tempo incorpora nas peças uma dimensão total, torna-as menos incompletas, imperfeitas.

Esta exposição é portadora de linguagem poética no sentido em que a poesia é a linguagem do indizível. Percorremos as paredes do convento e somos convocados para o espaço entre as peças, as vírgulas que separam cada uma, rasuras, silêncios onde se guarda o que ficou por dizer. Entre cada peça os olhos fechados pelo escuro escutam uma voz que só o coração pode ouvir.

A relação entre a natureza e o espírito estabelece-se em peças como O Princípio do Mundo. A coluna vertebral assume-se como porto de partida e recebe as memórias dos objetos do quotidiano incrustados ao longo da vertebras. A peça funciona também como uma súmula da preposição da exposição. Há elementos na sua composição, como espinhas de peixe, cânulas ou o ovo que funcionam como arquétipos ou as palavras iniciais que têm dentro delas a essência do mundo.

A obra, cada uma por si, e todas orquestradas, procuram a revelação das coisas indizíveis, mas também de tudo aquilo que se pode nomear, mas permanece oculto, escondido, calado. A morte está dentro de nós sem existência assim como a potência transcendente do homem. A pluralidade do cosmos. O mundo intuído.

Em Saber Ler, a chave para o gesto essencial que transportam em si tudo o que não é escrito. O que sobra das palavras.

Em Estamos aqui porque voámos, há objetos que tem um poder evocativo e de síntese tão amplo como o projeto da exposição.

As espinhas remetem-nos para os peixes que, em épocas geológicas distantes, precisavam de pouca densidade de água, que já estavam em contacto com a areia.

O processo evolutivo é pontuado com a passagem da espinha do peixe para a cânula da pena de galinha. As várias cânulas que aparecem na exposição trazem esse direito ao voo e estabelecem o arco temporal que termina no presente. O ovo como metáfora do verbo inicial.

Fronteira Líquida, uma peça constituída por copos tubulares cheios de água, colocados em relação com um cone de sal posicionado no mesmo eixo de visão, conta essa história. A passagem da água salgada de onde descendemos até à apreensão metafisica do mundo. A viagem do peixe à cânula da galinha.

É de sublinhar que o sal presente em Sal sob o efeito do tempo tem uma simbologia que o liga à ideia de purificação. O cone de sal colocado no altar dessacralizado do convento, dois degraus acima da cota do chão, torna-o mais visível e coloca-o em diálogo com o resto das peças.

A história que MJO nos quer contar faz-se com recurso a outros objetos. Em «Flutuar para voar» é usado um osso, aragonite, um calcário que está presente no choco e permite-lhe, através de um mecanismo hidráulico, irrigar o seu interior de água para o tornar pesado ou o processo inverso dando-lhe a capacidade de flutuar.

Maria José Oliveira tem uma consciência aguda de que há uma parte esquecida das coisas e dos homens que é tão omitida que nem nos damos conta dela. Resgatá-la a esse esquecimento é um dos propósitos da sua exposição.

O poder evocativo das peças, a dignidade que os materiais simples adquirem com a organização que a artista lhe dá, a elegância, o equilíbrio, a subtileza dos processos e a arquitetura do pensamento que acompanham cada uma das peças tornam esta exposição de Maria José Oliveira um momento singular. Essencial.

 

Estamos aqui porque voámos. Maria José Oliveira. Ciclo Eklektikós, Museu Municipal de Faro. 12 de junho a 1 de agosto. Organização Artadentro.

Salvador Santos (Chaves, 1979). Vive no Algarve desde os quatro anos. Frequentou o curso de Estudos Portugueses na Universidade do Algarve. Mantém colaboração na imprensa regional. No Postal do Algarve, criou e dirigiu o suplemento de artes e letras Cultura .S. É editor na Sul, Sol e Sal e autor do livro de poemas Selvagem – a editar pela D. Quixote.

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