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No fim de tudo está o começo, a negociação! Carlos Noronha Feio na Galeria 3+1 Arte Contemporânea

“A negociação!”

O título da exposição de Carlos Noronha Feio na Galeria 3+1 Arte Contemporânea termina assim, com uma exclamação. Seria urgência? Ou alívio? O trabalho mais recente do artista é composto por pinturas e esculturas abstratas, contudo, como Alistar Hicks propõe no texto de sala, a abstração é um ponto de partida. Ou talvez um retorno? Ou nem partida nem retorno, mas justamente a negociação? A negociação não é uma única voz dando instruções. A negociação é uma balança instável. A negociação não é fixa, pelo contrário, é fluida. E assim é o trabalho de Carlos, através de diversas disciplinas e suportes.

As seis pinturas expostas repetem um padrão – manchas em branco criam um plano de fundo em telas de linho. Em sobreposição, traços em vermelho, amarelo ou azul criam formas orgânicas. As composições bidimensionais se relacionam com elementos escultóricos em luzes néon ou em alumínio dourado. A assemblage expõe o contraste entre o opaco das tintas spray, guache e tempera e o brilho próprio do metal e do néon. Outro aspeto formal subtil, mas constituinte do trabalho final, é a sombra gerada pelas peças tridimensionais. Linho, pigmento, luzes néon, plástico, metal e sombra. A aplicação das matérias primas é feita de forma a criar uma harmonia assimétrica. Tanto pela qualidade inerente do material quanto pelas formas e cores em relação.

A poética dos títulos dos trabalhos também merece destaque: an elusive predicate – oh! so nice, so nice, so damn nice; a cobra, o vento e o poder rosa; super! O uso da interjeição nos títulos das obras, como no da exposição, transmite uma energia de excesso e de prazer. Há uma potência afirmativa no expressionismo abstrato apresentado na exposição. O texto de Hicks nos revela que o processo de criação recente do artista é uma forma de se libertar de sua pesquisa anterior, inspirada por livros colonialistas e o estruturalismo intrínseco na ordem de comando dos seus autores. Apoiado pela teoria de Deleuze, Agamben e Foucault, Carlos busca subverter – “um passo de cada vez”, ele escreve. Entretanto, esta busca levou o artista ao limite. A negociação entre abstração e crítica parece ser o seu caminho. Ao contrário da sugestão de Hicks, que afirma que a nova série de pinturas de Noronha Feio contorna a abstração direta, eu diria que a direção é: por, entre, dentro. “The only way out is through” – cliché, mas me parece apropriado.

No fim de tudo está o começo, a negociação!, de Carlos Noronha Feio, está patente na Galeria 3+1 Arte Contemporânea até 31 de Julho.

 

Maíra Botelho escreve em PT/BR.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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