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O Canto do Bode: Fortes D’Aloia & Gabriel, Galeria Luisa Strina e Sé expõem na Casa da Cultura da Comporta

Unidas, três galerias brasileiras de diferentes gerações, Fortes D’Aloia & Gabriel, Galeria Luisa Strina e , apresentam trabalhos de 36 artistas, 32 que representam e 4 convidados, no espaço do antigo cinema da Casa da Cultura, na Fundação Herdade da Comporta.

«Esta exposição parte de uma vontade que já tínhamos e que, de certo modo, a pandemia acelerou. A vontade de encontrar novos modelos operacionais, novas formas de atuação dentro do circuito», refere Maria Ana Pimenta, diretora internacional da Fortes D’Aloia & Gabriel.

A exposição O Canto do Bode conta com a cenografia de João Maria Gusmão e é organizada segundo a estrutura de uma peça de teatro, dividindo-se em dois atos. «O título faz referência ao termo grego tragoedia [tragos («bode») e oidé («canto»)] e celebra a tradição brasileira de sacralização do profano e profanação do sagrado, desconstruindo a dicotomia entre o dionisíaco e o apolíneo», lê-se no texto que acompanha a exposição.

A estrutura concebida por João Maria Gusmão configura um palco cego, que é colocado ao centro do espaço, voltando os bastidores para a plateia. O público é convidado a aceder-lhe através dos bastidores.

Compondo a cena em palco, encontramos uma das conhecidas garrafas de Coca-Cola da série Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-Cola, de Cildo Meireles, na qual se lê Which is the place of the work of art?. A pintura O Brasil é a Minha Encruzilhada (Mil Povos), de Daniel Fagus Kairoz, recria a bandeira do Brasil recorrendo ao uso de pigmentos indígenas. A sua superfície é rasgada em vários pontos como se flechas a tivessem atravessado. Esta obra é exemplo da busca de aberturas para o entendimento e a prática decolonial da arte, característica do trabalho do artista. Encontramos ainda duas esculturas do artista convidado Anderson Borba e a instalação Presidente Selvagem, de João Loureiro. Todas estas obras estabelecem um diálogo com as peças colocadas na plateia, nos bastidores e na envolvente do antigo cinema.

A pintura Três orelhas, de Luiz Zerbini, ocupa as costas da plateia e dialoga com a de Jorge Queiroz, Ampulheta, colocada na parede oposta, que configura os bastidores e desenha as costas do palco de João Maria Gusmão. Panmela Castro, artista brasileira, ativista no que diz respeito à luta pelos direitos humanos, nomeadamente na luta pelos direitos das mulheres, apresenta duas obras, Renata Souza, da série Vigília, concebida durante o período de pandemia, altura em que a artista convidou diversas personalidades, como a deputada estadual no Rio de Janeiro Renata de Souza, para a sua casa, onde as pintava sob a forma de retratos, e Dani Deus – Jandira (Residência).

A pintura em tinta acrílica sobre tecido Sem Título, da série Urihi Theri, pelo artista venezuelano Sheroanawe Hakihiiwe, procura resgatar as tradições orais ancestrais da tribo Yanomami através de símbolos e cor, grafismos que caracterizam o seu trabalho.

Em Depois da Tempestade, Rivane Neuenschwander embebe nas águas de chuvas tropicais mapas de fogos que ocorreram na região de Minas Gerais, de modo a que, através de um processo de subtração, possa retirar alguns fragmentos desses mapas e propor novas tipologias.

Já Lucia Laguna, artista brasileira com um início de carreira tardio, debruça-se sobre a cidade do Rio de Janeiro, onde tem o seu atelier, interessando-se pelas suas dicotomias, urbanismo e exuberância vegetal tropical, aspetos bem visíveis na pintura que apresenta, Jardim n. 54, cuja composição se assemelha a uma colagem.

De uma geração mais jovem, Pedro Victor Brandão traz-nos Forjada, um conjunto de imagens geradas digitalmente de pratarias portuguesas que foram transportadas para o Brasil.

Por fim, as peças suspensas em vime e latão de Leonor Antunes enchem o espaço de exposição e assumem um papel preponderante na interação entre as várias peças.

Para além destes, encontramos na Casa da Cultura da Comporta trabalhos de Alexandre da Cunha, Ernesto Neto, Kim Lim, Manata Laudares, Tadáskia e Tonico Lemos Auad.

No segundo ato, a acontecer no mesmo lugar a partir de 29 de julho e após a conclusão do primeiro ato, o palco voltar-se-á para a plateia, como convencionalmente é encontrado neste tipo de espaços, e acolherá obras de artistas como Arnaldo de Melo, Dalton Paula, Edu Barros, Janaina Tschäpe, Marina Rheingantz, Rebecca Sharp, Robert Mapplethorpe, João Maria Gusmão, Mauro Restiffe, Juan Araujo, Erika Verzutti, Fernanda Gomes e Kim Lim.

O Canto do Bode procura assim estabelecer diálogos e sinergias entre artistas de gerações e percursos formais distintos, anunciando novas narrativas. Ambos os atos decorrem durante os meses de julho e agosto na Casa da Cultura, pela Fundação Herdade da Comporta: o primeiro já se encontra em cena e pode ser visto até 25 de julho; o segundo terá lugar entre 29 de julho e 29 de agosto.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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