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Bienal Art(e)facts chega à Beira Interior — com uma exposição coletiva a inaugurar esta sexta-feira

A Bienal Art(e)facts promove o encontro entre artistas, designers, arquitetos e artesãos através de residências em seis aldeias da Beira Interior. Este encontro instiga uma reflexão e a valorização do território interior e a reinterpretação de saberes e técnicas tradicionais.

Integrada na área de Arquitetura e Território, da qual a arquiteta e curadora Andreia Garcia é responsável, esta primeira edição da Bienal Arte(e)facts surge no contexto da candidatura da Guarda a Região Europeia da Cultura 2027.

Alcongosta, Janeiro de Cima, Telhado, Famalicão da Serra, Fundão e Gonçalo acolhem as várias residências desta primeira edição da Bienal, sob o tema Supernatural Togetherness, que propõe a salvação do futuro através de uma aliança entre espécies e gerações.

Conta com a participação dos convidados Coletivo Warehouse e Fernanda Fragateiro, assim como dos quatro vencedores da Open Call internacional, que teve lugar em fevereiro deste ano. Técnicas ancestrais como a cestaria, a tecelagem e a olaria são trabalhadas através das várias colaborações estabelecidas em diferentes geografias nos municípios do Fundão e da Guarda.

Andrea Canepa & Vanessa Foster, em conjunto com as artesãs Sónia Latado e Rosa Pereira da Casa das Tecedeiras em Janeiro de Cima, conjugam a técnica tradicional da tecelagem com um processo computacional de modo a que algoritmos deem forma a diferentes peças têxteis.

Diogo Rodrigues, Fernando Pimenta e João Oliveira aprendem como é executada a cestaria de castanho com António Nunes dos Santos na aldeia de Alcongosta. Começando na colheita da matéria prima, aprendem a transformá-la e prepará-la com as ferramentas adequadas para depois construir os cestos tradicionais. Exploram as potencialidades da técnica de modo a adaptá-la a outro tipo de objetos que compõem uma instalação.

Nuno Vicente utiliza a técnica da olaria, que lhe é transmitida por Cátia Pires na Casa do Barro em Telhado, para a construção de dispositivos, tais como bebedouros ou depósitos de água, adequados a várias espécies que permitam a sua sobrevivência em lugares situados entre espaços rurais e urbanos, livres de «ação humana», inseridos na Terceira Paisagem, conceito proposto por Gilles Clément.

A dupla de designers composta por Anja Lapatsch e Annika Unger desenvolve com o artesão José Venâncio em Famalicão da Serra um conjunto de objetos em cestaria de castanho que se afastam dos tradicionais cestos para a apanha da cereja ou o armazenamento e o transporte de outros objetos e alimentos. Procuram conjugar o passado e o presente numa perspectiva de futuro, simultaneamente homenageando a cestaria de castanho e desafiando a tradição.

O Coletivo Warehouse trabalha em conjunto com o FAB LAB no Fundão, restituindo um testemunho de uma memória coletiva local, um antigo carrossel encontrado em Arraiais da Câmara, depósito de objetos do município. A sua intervenção reflete acerca de dois conceitos opostos, obsoleto e inovação, explorando uma possível relação de complementaridade. Através da fabricação digital, é atribuída uma nova vida ao artefacto, uma vida futura que o afasta da sua função original reinventando-o.

Em Gonçalo, Fernanda Fragateiro aprende a trabalhar o vime na oficina de Alberto Carvalhinho. Interessada pela relação entre escultura e arquiteturas, desafia o artesão a uma mudança da escala doméstica da cestaria para uma escala arquitetónica através da criação de peças entrançadas de grandes dimensões que escolhe instalar nos espaços de um solar abandonado.

Concluído o período de residência, uma exposição coletiva distribuída por vários pontos do território dá a conhecer o resultado da colaboração entre artistas e artesãos. A exposição estará patente até setembro de 2021, sendo que nos dias 9 e 10 de julho se realizará o Fórum de Ideias, uma conferência internacional online.

A Bienal Art(e)facts anuncia uma possibilidade de futuro para saberes e tradições, hoje apenas dominados por gerações mais antigas e em perigo de desaparecer, para além de incentivar a valorização do território interior. É urgente a preservação destas memórias e a Arte e a Arquitetura são, sem dúvida, excelentes meios para o alcançar.

Segundo a curadora Andreia Garcia, «a Bienal Arte(e)facts surge atenta a este património imaterial que é o conhecimento. Conhecimento esse que pode ser preservado de várias formas. Ou através da constituição de um arquivo que o documente. Ou existe uma outra forma de preservação, que é talvez a que me interessa mais, através da criação de uma relação entre esses saberes tradicionais que os artesãos detêm, as suas técnicas e matérias e a arte contemporânea. Esta é outra forma de preservar um legado, através da constituição de uma situação que permite um re-olhar, um repensar.»

Um repensar também ele produtor de conhecimento quer para os artesãos, que são confrontados com outra interpretação dos seus saberes, interpretação essa que pressupõe um gesto e que lhes permite compreender que é possível aplicar a sua técnica a outras escalas e objetos para além dos que estão acostumados a produzir, quer para os artistas que têm contacto e aprendem técnicas e modos de operar aplicáveis à sua produção artística que lhes abrem um novo espectro de possibilidades, nas quais nunca teriam pensado antes.

«O resultado desta colaboração poderá ser um objeto ou apenas um pensamento artístico que nos sensibilize para a importância do refletir artístico sobre os saberes tradicionais. Esta é a principal ambição do Art(e)facts», refere Andreia Garcia. E acrescenta: «trata-se de um projeto estreitamente relacionado com uma ideia de diálogo, diálogo entre pessoas, entre necessidades, entre usos, entre conceitos-chave, que mencionamos muitas vezes de forma irrefletida, entre conceitos e entre técnicas» e que levanta interrogações profundas: «O que é artesanato? O que é arte? Será que artesanato é arte?».

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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