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Oculto e Sapatos: fica-se; chinelos: sai-se, no Projeto Travessa da Ermida

A exposição Oculto, na Travessa da Ermida, de Nuno Sousa Vieira, brinca com o olhar do espectador. As obras, com uma interferência discreta, poderiam ser interpretadas quase como observações visuais sobre o espaço em que se encontram. Isso, claro, se aceitarmos que é possível construir comentários exclusivamente plásticos ou visuais. Outrossim, como em qualquer observação, elas não estão isentas de um deslocamento, ou de uma noção de alteridade que marca o espaço no comentário entre aquele que o faz e aquele do qual é o objeto. Esta distância, na obra de Nuno, é um elemento determinante do seu trabalho, pois é conhecido que ao artista interessa a investigação da articulação possível entre o ateliê e o espaço expositivo, construindo sempre um arco de espelhamentos entre o local do fazer e o da visibilidade, e dando a cada exposição um caráter contextual sobre o próprio processo de trabalho.

Sabe-se que, se falamos em brincar, a principal inversão na arquitetura religiosa tradicional cristã é fazer crer, na celebração litúrgica, que aquilo que se passa no coro é mais importante que o que se está a desenrolar na nave. No entanto, crentes ou não, acabamos por concordar que as narrativas de cada indivíduo presente na nave estão tomadas de dramaticidade. Se o que cria a dinâmica na vida religiosa é a crença no transcendente, na arte, é a crença no imanente que agita as relações que se estabelecem. Na exposição, Nuno perturba a lógica espacial incontornável da arquitetura ao acionar com precisão alguns dos seus pontos paradigmáticos. Ao transpor o seu ateliê transformado – irreconhecível quase, não fossem as evidências deixadas pelo artista nas obras – para a ermida, os dois universos físicos se fundem de tal modo que algo de suas funções, originárias ou não, se encontram e debatem enquanto imagens críticas. Assim se abre a mesa de jogo e lançam-se os dados; assim as obras se apoiam no espaço de modo que o espectador possa correr os olhos atrás não do que vê, mas justamente daquilo outro que pode vir a se relacionar com o visto. Pois é no movimento entre o que se olha e o que se vê que a arte se constitui como espaço vivo.

É fascinante a ambiguidade (en)criptada no díptico Interior/exterior que, logo à esquerda de quem entra no espaço da antiga nave, parece lançar um olhar que nos atravessa em direção à suposta abside oculta, ou um outro além qualquer, e guarda em seu corpo as marcas de suas dobras, quem sabe de sua interna dinâmica complexa. Ao mesmo tempo, intriga a invertida porta, maculada pelo tempo, que foi retirada da sala do arquivo morto da fábrica onde se instala o ateliê de Nuno, para compor a obra Porta de homem, que se sustenta, etérea, nas antigas ferragens fincadas na cantaria do arco que divide a nave e o coro da velha ermida.

O caráter processual da exposição de Nuno Sousa Vieira encontra-se em feliz simultaneidade com o outro projeto da Travessa da Ermida, desenvolvido para o espaço De Porta a Porta. Com uma gravura de Daniel Fernandes, Sapatos: fica-se; chinelos: sai-se, a montra destinada ao projeto entrega ao espectador uma obra que, de outro modo, procura evidenciar os rastros do trabalho. Com um título que também remete a relações entre o dentro e o fora, e mesmo invertendo a normalidade desses objetos cotidianos que aqui estão presentes como ideia, a monotipia de Daniel é o resultado de um procedimento de tentativa de esgotamento do próprio processo criativo. No entanto, a procura por esse limiar não está no sentido de explorar os limites técnicos do trabalho, a buscar alcançar um tipo particular de excelência, mas ao contrário, exaurir-se para, na própria exaustão, redescobrir o que há depois, a potência de um corpo único que é a obra em constante processamento pelo artista. Aqui, o deslize, o erro ou o fracasso não deixam de ser valores em si mesmos, apontando novos caminhos para reencontrar, com surpresa, o prazer da imagem.

Oculto, de Nuno Sousa Vieira, e Sapatos: fica-se; chinelos: sai-se, de Daniel Fernandes, estão patentes no Projeto Travessa da Ermida, em Lisboa. A primeira, até 17 de julho de 2021, e a segunda, até 04 de setembro de 2021.

Curador. Atualmente a viver em Lisboa. Mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Brasil), está a cursar o Doutoramento em Arte Contemporânea do Colégio das Artes, na Universidade de Coimbra. No Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, foi responsável pelas coleções de Escultura, Arte Africana e Novas Linguagens, como também esteve envolvido em vários projetos curatoriais.

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