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Next to the Next Century e Contrato Promessa: António Olaio na Kubikgallery e Vasco Futscher no Kubikulo

Começamos pelo suposto final do percurso expositivo de Next to the Next Century, de António Olaio, patente na Kubikgallery. Mais precisamente numa porta entreaberta, que se encontra no vídeo homónimo do autor, com música de Vítor Rua. Esta porta, que nunca se fecha, nem se abre completamente, e que apenas nos deixa antever parte da divisão de uma casa em ruínas, poderá ser metáfora ou ilustração para o que Olaio, a dada altura, canta: «How would it be the next century?/Behind the door the same something else/Behind the door the same wonderful». O artista leva-nos a questionar sobre como será o próximo século, à luz daquele que estamos a viver, que o que virá será sempre igual, será a mesma maravilha. No fundo, permite refletir acerca do tempo, mais que cronológico, o de cada um de nós. As nossas expetativas, sonhos, ou ansiedades, também em relação ao mundo e à humanidade. E tal como nós nos detivemos nesta porta, o filósofo francês Georges Didi-Huberman inicia Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens (2017) da seguinte maneira: «Diante da imagem, estamos sempre diante do tempo. […] como diante da ombreira de uma porta aberta. Nada nos esconde, bastaria entrar, a sua luz encandeia-nos, impõe-nos respeito. A sua própria abertura – não falo do guardião – detém-nos: olhar para ela é desejar, é esperar, é estar diante do tempo. Mas de que género de tempo? Que plasticidade e que fraturas, que ritmos e que marcas do tempo podem estar nesta abertura da imagem?»[1]. O autor, na demanda por encontrar respostas, formula muitas mais, neste ensaio sobre o questionamento da historicidade na história da arte, incentivando uma «arqueologia crítica dos modelos do tempo, dos valores de uso do tempo na disciplina histórica que quis fazer das imagens os seus objetos de estudo»[2]. Didi-Huberman inicia o seu argumento, através do olhar para a parte inferior do fresco de Fra Angelico, Nossa Senhora das Sombras (1440-1450), para nos demonstrar que diante de uma imagem, o nosso tempo nunca acaba de se reconfigurar, pois teremos em conta o seu passado, o nosso presente e um futuro que nos irá ultrapassar. Ao analisarmos a imagem perante a história, teremos a necessidade do anacronismo, porque é essa temporalidade sobredeterminada das imagens, percetível através de um embate na dialética entre imagem e história, que nos é proporcionada uma montagem de múltiplos tempos, uma dinâmica da memória, uma contradança das cronologias e dos anacronismos. Portanto, a porta entreaberta do vídeo de Olaio, é essa imagem, que também é tempo. É essa relação entre figura e história, é esse interrogar sobre o que está para além desta, o que será o próximo século. E se deixarmos o vídeo continuar, veremos que o travelling que havia parado nessa porta, sobe até um teto em ruínas, para aí terminar. Contudo, o loop torna o plano novamente a descer do teto, a mostrar um corredor e novamente a porta. Ao mesmo tempo ouvimos a música, com letra apresentada sobre as imagens em movimento. Ainda encontramos algumas referências da cultura pop, matéria recorrente em Olaio, como por exemplo a sonoridade do álbum Ghosteen (2019), de Nick Cave and The Bad Seeds, ou ainda a música Lazarus (2016), do último álbum de David Bowie, Blackstar, pronúncio da morte do icónico artista.

Next to the Next Century é em si um movimento perpétuo, um questionamento da memória, uma espécie de eterno retorno. Volvidos da sala onde nos é apresentado o vídeo, ao longo do percurso estão expostas pinturas, seguidas de desenhos, como se de um travelling se tratasse, em que Olaio representa figurativamente, desdobrando, desconstruindo ou detalhando objetos sagrados, ou do quotidiano, lembrando paisagens abstratas, ou figuras de ficção científica. Talvez parte do que decora o seu atelier-casa, como obras, ou objetos que foi colecionando ao longo dos anos, como nos demonstra Get to Know: António Olaio. No texto de sala, Miguel von Hafe Pérez aponta: «Olaio veste o papel de um recolector de memória(s) […] O peso da memória corporiza-se na continuidade de desenhos de sombra que parecem sugar o brilho e glória do original da representação. Um sopro não de vida, mas sim de esvaziamento elementar. Um fantasmático lastro de um nada insidioso.» De acordo, a prática artística de Olaio, que a partir dos anos 1980 se desenvolveu da performance, desdobrando-se em pintura, vídeo e música, encontra-se num trânsito de ideias, num jogo em que explora as potencialidades especulativas dos vários meios em que trabalha. Nesta exposição, no início de um século, indaga sobre a memória e o tempo, pelo meio de um questionamento acerca das qualidades estéticas e plásticas das plataformas artísticas que nos apresenta e pela antinomia, de um modo ora saudoso e melancólico, ora com os olhos prostrados no futuro.

Vasco Futscher, que integrou a shortlist do Prémio Novos Artistas Fundação EDP de 2015, com formação em artes plásticas e cerâmica pelo Ar.Co, expõe o seu trabalho regularmente desde 2008, desenvolvendo a cerâmica numa perspetiva artística. Em Contrato Promessa, no Kubikulo, um espaço na montra da galeria, o artista apresenta uma instalação constituída por peças em cerâmica de grande escala, que figuram chaves, um objeto do dia a dia, lado a lado a duas fotografias de automóveis. Este conjunto, como nos indica a folha de sala, «relata uma história de oferta e cumplicidade, sobre um mecânico que entrega ao artista a chave de seu carro». Assim, Futscher interroga simultaneamente o simbolismo, a plasticidade e a materialidade de um objeto funcional, desconstruindo-o e modelando-o em dimensões maiores do que o habitual com grés reciclado polido, bem como as potencialidades da cerâmica enquanto meio de produção artística, decorativa e utilitária.

Next to the Next Century, de António Olaio, e Contrato Promessa, de Vasco Futscher, estão patentes na Kubikgallery e no Kubikulo até 17 de julho.

 

[1] Didi-Huberman, G. (2017). Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens. Lisboa: Orfeu Negro. p.10.

[2] Ibid. p.13.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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