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Resposta Aberta: Tomas Silgalis

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Tomas Silgalis é um artista multidisciplinar e o fundador do não-territorial. Nasceu em 1978 (Vilnius, Lituânia) e vive e trabalha em Roma.

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Josseline Black – No seu trabalho recente, intitulado Climate Exchange, na Piazza Colonna em Roma, fez uma intervenção com texto, imagem e projeção. Qual é a sua posição sobre intervenções no espaço público vs. No espaço burocrático?

Tomas Silgalis – São a mesma coisa. Os burocratas conseguiram injetar formalismo no espaço público em grande escala, utilizando meios de comunicação de massas, manipulação de ecrãs, assumindo o controlo de tudo o que é público. O público está mergulhado num profundo estado de hipnose, tornando-se burocrata ou adotando essa abordagem. Por exemplo, a Piazza Colonna é protegida por guardas. Porquê? Há alguma razão para existirem alguns primeiros-ministros com medo? Precisam de 45 guarda-costas? As pessoas autênticas, que ainda são capazes de processar o que está a acontecer, e que são pensadores ativos, são perigosos hoje em dia. E resta muito pouca gente autêntica, aquela que tenta resistir a todos os aspetos do formalismo, os ataques e as agendas dos monstros da riqueza. É rara qualquer ação independente ou autónoma. Portanto, público = burocrático, hoje em dia, a meu ver. Isto significa que o inesperado quase não existe, as surpresas são pouquíssimas. Tudo é expetável.

JB – No seu texto sobre o trabalho, descreve as “coordenadas cosmológicas” como uma forma de localizar a obra de arte. Pode detalhar esta espécie de morada?

TS – “Coordenadas cosmológicas”.

A morada é onde não existem humanos. É um local não-humano. A humildade metafísica é uma vantagem insubstituível do não-humano perante o humano – é uma aristocracia cósmica. Hoje em dia, os humanos estão a tentar cumprir a missão – enfrentar o cosmos. Porquê?

JB – Como descreveria o seu processo de produção de texto e imagem? Quais são as cronologias síncronas e assíncronas para gerar este material?

TS – Tudo acontece em paralelo. Neste caso, a imagem é uma folha de cálculo do Excel. Concebida como uma lente ou membrana através da qual as pessoas observam o mundo e se entreolham. Depois isto, desdobrou-se em camadas relacionadas com o tipo de vida que está dentro dessa folha de cálculo. E o que é gerado ali. A parte textual da exposição é a Coleção de Títulos. Vários títulos são as outras obras de arte interconectadas, alguns são articulações sintéticas. Cada título vive ou pode viver na folha de cálculo, e faz parte da nossa realidade contemporânea. Podem ser entendidos como fragmentos de vida, episódios ou resumos.

JB – Artista como investigador, artista como funcionário público, artista como lugar. Com qual se identifica?

TS – Artista como agente especial.

JB – Quais são os seus planos para futuras instalações de Climate Exchange?

TS – A exposição decorrerá em vários locais, com outros participantes. Lisboa é a próxima paragem. Também há alguns convites para ir ao Japão, entre outros.

JB – No último ano e meio de isolamento, a sua interação com as redes sociais mudou?

TS – As redes sociais de hoje também são muito perigosas e totalmente censuradas. Por muitas razões. Por exemplo, há algum motivo que leve alguém a olhar para um ecrã azul, com mensagens abreviadas, em vez de olhar para a árvore, o rio, o céu ou outra coisa? Porque é que as pessoas decidem trocar a sua vida ou grande parte dela pelas redes sociais? Além disso, doam os seus dados a gente suspeita. As minhas opiniões sobre as redes sociais clarificaram-se. É urgente fechá-las e repensar este assunto a partir do zero. Vejo a profunda anomalia, uma profunda crise relacional entre as pessoas, um profundo declínio da inteligência emocional e o desvanecer da intuição.

É uma situação dramática, que alimenta relações uniformizadas. É uma batalha perdida contra os zombies tecnológicos. E tudo é censurado por entidades particulares com interesses realmente ‘desconhecidos’.

JB – Escreveu que “a cultura, como no passado, é hoje geralmente redutível a intermináveis declarações fashion”. Pode desenvolver esta ideia?

TS – Falo da mercantilização da cultura no patamar mais elevado possível. Quase toda a cultura atual é representada por uma etiqueta com o preço ou é simplesmente pornográfica. Na maioria dos casos, tornou-se apenas uma declaração fashion e nada mais.

JB – Por fim, qual é a sua relação com a solidariedade e a catástrofe?

TS – A solidariedade é extremamente necessária, mas só pode existir entre pessoas com os mesmos valores, que partilham o mesmo grau de valores. Não sinto qualquer unidade ou o “estamos nisto juntos”. O sentido de pertença ou de comunidade desapareceu, dado o contexto transacional. A ideia de solidariedade ficou no passado. Sobre a catástrofe – creio estarmos na fase pós-catástrofe e não perante uma que se aproxima. A catástrofe já aconteceu. O humano perdido contra o poder dos techno-zombies. O pôr-do-sol final já foi. Agora só um idiota ingénuo ou um sem-abrigo cósmico é que ainda sonha, é que ainda faz intenções poéticas. Só esse pode esperar descobrir um novo pôr-do-sol, uma nova luz. Mas é improvável.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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