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Lost in sleep twitch

Todo o salto no escuro inclui uma de duas possibilidades: ou o arrojo e a adrenalina pela descoberta do imprevisível, ou o medo da queda no desconhecido, com a perda de pé, da razão e do que é seguro.

Todo o dia tem dois momentos: aquele em que estamos acordados, e aquele em que entramos no sono, essa realidade paralela ao que conhecemos e compreendemos à luz do sol. Neste interstício, todavia, uma rutura pode acontecer e deixar antever a claridade. Como alguém dizia “existe uma rachadura em tudo, e é assim que a luz entra”. Nesse limbo entre mantermo-nos despertos ou nos deixarmos adormecer, essa queda – twitch – é um choque quer fisiológico, quer emocional, breve, brusco e involuntário, uma descarga muscular que nos percorre o corpo e, quem sabe, as memórias, fundindo o que se domina com aquilo que se anseia desvendar.

Quer assuste, entusiasme ou promova o alerta, este espasmo é mais um risco no diagrama sismográfico da vida. Na verdade, quem a quer linear? Não desejada monotonia.

E nesse mergulho antes de adormecer, fazemos como que uma promessa:

Um declínio suave no incógnito inexplorado.

Um impulso de fé.

Uma imersão ousada, para perdermos o equilíbrio momentaneamente, mas não nos perdemos a nós mesmos.[1] Para finalmente nos depararmos naquele contorno incerto, essa fronteira entre o que se que passou e o que virá a passar, aliados na forma de uma nova possibilidade.

Neste espaço atua Vasco Barata para realçar a agitação que pauta a vida de incerteza. Na galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, a exposição Sleep Twitch mostra-nos que, par a par com a rotina, vemo-nos interrompidos, arbitrária e fortuitamente, por saltos violentos e inesperados, que constituem mais um vértice no diagrama da existência. Através de inputs imprecisos, difusos, provisórios e em suspenso, numa mescla de fotografia com a instalação, Vasco contrapõe objetos que dialogam os vários estímulos a que estamos sujeitos, alguns sustos, alguns avisos, por indefinição ou desconhecimento, que nos remetem para distintas realidades daquela que vivemos. Onde, por exemplo, a instalação de Low-level clouds nos relembra a transfiguração da paisagem, na qual tecidos, naturalmente colocados no chão, são aqui elevados ao céu, se redefinindo como nuvens. Em From differentiation to sameness vários objetos mundanos são colocados todos sob o mesmo mote, um fio de sisal que os agrupa sem distinção, desprovidos da sua individualidade, lidos agora apenas e só como conjunto. Ou, em The Whisper a criação autoral de uma espécie de seta, cujo nome alude a uma transferência sussurrante de rumores, murmúrios que cruzam barreiras e espaços. Interjeição de cautela.

À recombinação e rearranjo de artefactos, carregando-lhes um novo significado ou distorcendo aquele que seria óbvio, Vasco Barata ambiciona uma realidade inquietante, aquela, qual Alice no País das Maravilhas, onde tudo se redefine e questiona. Um salto entre a vigília e o sono, ou, se quisermos, um limbo entre este mundo de cá, e esse infinito mundo de tantos outros “lá”. Uma lembrança de que, por forma a encontrarmos o equilíbrio, temos primeiro que permitir e saber como nos perder.

Sleep Twitch está patente na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, até ao dia 26 de junho.

 

[1] Citando Søren Kierkegaard To dare is to lose ones footing momentarily. To not dare is to lose oneself.

Licenciada em Nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação da Universidade do Porto, concluiu, posteriormente, a formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, à qual se seguiu, até hoje, trabalho de produção, comunicação e desenvolvimento de programas educativos no âmbito dos festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga, e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Mais recentemente, foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Atualmente frequenta o segundo ano do Mestrado em Estudos Curatoriais da mesma Universidade, enquanto estagia e participa em projetos ligados ao Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na ilha de São Miguel (Açores).

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