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Alma

Perguntaram-me o tema da peça.

Girando em torno de um rapaz engessado, preso à cama de um quarto, e incapaz de se mover, poderia responder que é sobre impotência.

No centro de um cenário composto por móveis velhos, portas que dão para lugar nenhum e janelas por onde não entra luz, poderia ser sobre solidão.

Os vislumbres de imagem imaginada, projetada nos estilhaços da casa, levaram-me a imaginar que fosse sobre o sonho. Imagens esboçadas do jovem a correr e a dançar, enquanto preso à cama que podia ser de um hospital, remeteram-me às limitações e expectativas mais recentes de um mundo ainda pandémico que anseia por liberdade.

Quando o amigo entrou em cena, trazendo a alegria e a capacidade de relativizar situações que parecem fatais, entendi que seria sobre amizade.

Com a referência à avó, recentemente falecida, e à mãe, sempre distante, confirmei que o texto me falava de ausência, de vazio, de luto.

Quando o furação da amiga chegou, percebi que seria também sobre essa incapacidade – hoje tão reforçada pelas redes sociais – de ter empatia pelo outro. De tentar entender antes de acusar. De ser humilde. Seria sobre violência, sobre bullying, sobre a necessidade ou a incapacidade de se quebrarem modelos comportamentais, especialmente os familiares.

Mas tudo isto caminhava para um tema maior: a sensação de não pertença, de não identificação, de se ser estrangeiro em casa, na escola, em qualquer lugar que se pise (“I’m a creep / I’m a weirdo / What the hell am I doing here? / I don’t belong here”). Suicídio.

Era sobre tudo isto e sobre nada disto; era sobretudo sobre a capacidade que a alma pode ter ou não para lidar com tudo isto, e tanto mais.

Por fim, como contraponto, fala-nos do espanto que pode ser encontrar alguém que, com o mesmo nível de loucura (verdade) que o nosso, seja capaz de nos ver a alma. Com quem sejamos capazes de quebrar preconceitos e preencher o vazio dos dias com a capacidade de nos interrogarmos sem receios, de nos surpreendermos com o que ainda não conhecemos (onde nos incluímos), de termos vontade de continuar. Daqueles encontros que, quando somos jovens, até podem parecer vulgares, e que anos depois percebemos que se aconteceu uma vez na vida, tivemos muita sorte. Talvez a peça seja sobre isso, sobre a juventude: esse lugar onde ainda tudo era possível.

 

Alma é um texto de Tiago Correia, vencedor do Grande Prémio de Teatro Português da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2018. Estará no Teatro Aberto até 4 de julho, encenado por Cristina Carvalhal e interpretado por David Esteves, Bernardo Lobo Faria, Joana Pialgata e Sofia Fialho.

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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