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Circle Navel Nil, de Loretta Fahrenholz

A arte no feminino tem sido assunto recente e amiúde debatido. A História da Arte foi feita e escrita pelos homens (assim como toda a História escrita, poderemos acrescentar) e as mulheres artistas tiveram pouco destaque nesta História. É preciso chegar aos anos 70 do século XX para que um pequeno grupo de mulheres historiadoras de arte na Califórnia começasse a abordar e a estudar as pintoras italianas do Renascimento, por exemplo. Há ainda casos na História da Arte de autorias dúbias como é o caso de Camille Claudel e Auguste Rodin, aprendiz e mestre. Ultimamente já alguns museus têm contemplado questões de género na sua programação expositiva: a Fundação Calouste Gulbenkian adotou a paridade de género como um dos objetivos da sua política cultural, a Tate Britain tem programado várias exposições de artistas mulheres e a National Gallery teve, até janeiro deste ano, pela primeira vez, uma grande exposição de uma artista que foi esquecida durante séculos: Artemisia Gentileschi.

Serve este preâmbulo para enquadrar Circle Navel Nil, de Loretta Fahrenholz, patente na Lumiar Cité da Associação Maumaus, porque para além de ser uma artista mulher (e o curador Jürgen Bock não tem dificuldades em programar de forma paritária), parece-nos ser claramente feminista (é uma palavra que urge recuperar) e o seu trabalho se faz no e sobre o feminino e também sobre o contexto artístico e histórico.

No Home Record é um filme de cerca de uma hora, produzido em colaboração com K8 Howl e Jak Ritger para acompanhar a digressão do álbum de estreia a solo No Home Record de Kim Gordon (cuja emancipação musical se deu recentemente após a dissolução dos Sonic Youth e do seu casamento). Em jeito de road movie, percorremos a paisagem norte-americana por vezes mais urbana, por vezes mais bucólica, de forma mais lenta ou mais rápida, mas sempre em movimento, entrecortada por imagens digitais, interferências que se transformam numa espécie de mapeamento como se fosse um GPS ou um jogo onde vemos um símbolo a percorrer caminhos.

Ao mesmo tempo que este vídeo nos remete para os road movies americanos, as interferências digitais, parecerem querer relembrar-nos que as estradas que percorremos agora têm outras referências e que a ideia de nos perdermos na paisagem já é menos aventureira que outrora. Existe uma acentuada geometria neste vídeo, tanto nas imagens reais como nas digitais, que passa também para as fotografias expostas e que, sentimos, é uma metodologia da artista. A primeira foto, que, a par do vídeo, abre o percurso expositivo Woman Turning (2021), resulta de uma multiplicação e deformação de uma figura feminina que cria uma espécie de padrão onde sentimos o movimento, como se fosse um arrasto da imagem. Percebemos que é uma mulher, mas o que sobressai é a mancha pictórica.

A série de fotografias expostas resulta de uma residência artística na Maumaus em 2020 e todas têm, na sua linguagem formal, uma profunda ligação à pintura. Em todas vemos mulheres jovens nuas e a sua composição feita de desconstrução, multiplicação e desfragmentação, retira-nos o poder que poderíamos ter sobre as imagens ou os modelos. Há toda uma panóplia de temas que são convocados nestas obras de Loretta Fahrenholz: a condição feminina, a violência, a História da Arte (e já falámos do lugar da mulher artista na História da Arte, mas temos também aqui o lugar da mulher como modelo).

Todas as obras expostas estão presas ao teto ou às paredes da Lumiar Cité através de cordas grossas com pesos de ginásio usados e alguns até gastos, que estão caídos no chão. Para além de proporcionarem uma forma técnica eficaz de expor as fotografias, permitem-nos fazer o percurso de forma envolvente e perceber pontos de fuga entre elas que de alguma forma comunicam entre si, como se a partir de uma obra fôssemos lançados, através do olhar, para outra. Ao mesmo tempo, aqueles pesos enormes semi-suspensos remetem para uma ideia de masculinidade, como contraponto às figuras femininas das fotografias, mas juntamente com o cordame que os ata, abordam também o trabalho físico, manual. Há uma forte presença do trabalho manual na instalação de Fahrenholz, da mesma forma que as fotografias têm referências bem ancoradas na História da Arte, nomeadamente nas vanguardas artísticas, especialmente no cubismo com as sua desconstrução e geometrização, que vemos em todas as imagens expostas.

Para além da ligação da série de fotografias à História da Arte, nomeadamente à História da Pintura, parece-nos evidente e de suma importância referir as questões de género, nomeadamente as relacionadas com o lugar da mulher na arte, da sua exposição física ao olhar do outro e da utilização do corpo feminino nas mais variadas formas. Em Circle Navel Nil o corpo feminino está nú, mas é desconstruído a tal ponto que perde o referencial sexual, ganha antes peso emocional e acusatório do abuso sofrido ao longo da História. Não só do corpo físico, mas também acerca do lugar da mulher no mundo. A frase de Susan Sontag “As imagens unem o que na realidade é descontínuo.”[1] é aplicável a esta instalação tanto em termos de composição formal como de temática. Os temas convocados, parecem diferentes, mas não são, trazendo à luz esta intersecção entre a Arte e o Humano e Social.

 

[1] Sontag, Susan, ensaios sobre fotografia. Lisboa: Quetzal, 2012, p.171

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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