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ping! Programa de Incursão à Galeria: Entrevista a Matilde Seabra na Galeria Municipal do Porto

No âmbito do lançamento do novo projeto educativo da Galeria Municipal do Porto (GMP) – ping!, entrevistamos Matilde Seabra, coordenadora do projeto educativo.

 

Ana Martins – O novo projeto educativo da GMP, ping! – Programa de Incursão à Galeria abrange várias atividades para o público escolar e não escolar na Galeria, no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett e nos Jardins do Palácio de Cristal, tendo como base três eixos temáticos: Botânica (Gineceu & Estigma), Primeira Exposição Colonial Portuguesa (Um Elefante no Palácio de Cristal) e envolvente urbana da GMP (Exodus). Quando e como surgiu o conceito para o ping!? E de que forma consideraram pertinente mudar o programa educativo da GMP?

Matilde Seabra – O projeto educativo da GMP existia de uma forma mais invisível, numa rede com escolas que existiam próximas de nós, mas sem um programa definido, com investigação, lugar ao pensamento e criação de artistas. Com a formação da Ágora, novos lugares foram criados nesta entidade orgânica da cultura e do lazer. Um deles foi a definição do que poderia ser um departamento educativo e de programação pública da galeria. Quando me é lançado este desafio, havia esta vontade de que o programa educativo não fosse exclusivo para as escolas, que fosse também para um público não escolar. O nome ajuda nesse sentido, pois a ideia do ping! dá uma sensação de ritmo, ou de som descompassado. Não dá de enxurrada um conjunto de oficinas e visitas guiadas a partir da exposição que está na GMP, mas dá um tempo e um lugar ao artista para fazer uma residência, que depois se poderá traduzir num workshop, ou num percurso nos jardins. O ping! é algo que se vai construindo, através de metodologias, que se vão criando com o público. E isso foi a mudança do que poderia teria sido idealizado já há um ano atrás, mas que permaneceu no silêncio, para ter sido anunciado recentemente.

AM – O programa Gineceu & Estigma, com epicentro nos Jardins do Palácio, tem como objetivo dar a conhecer novas perspetivas sobre o universo da Botânica, recorrendo à criação artística e à investigação em questões de género, política e natureza, articulando-se através de dois temas: Ecopensamento e Especulações Botânicas. De que modo pensaram este eixo temático e a relevância destas questões para a comunidade e a atualidade? Quais serão as atividades e os artistas e investigadores convidados?

MS – Gineceu & Estigma surge desta atração pela anatomia da planta e perceber que alguns destes nomes da ciência, também são usados noutros contextos. A ideia de Gineceu, que não é só o lugar do sexo feminino da planta, mas também o lugar das mulheres numa casa grega. O Estigma, no sentido da estigmatização, que nós muitas vezes trazemos por pertencermos a determinados coletivos. No Ecopensamento interessava mostrar formas de nos ligarmos à natureza, mais imersivas e não condescendentes, numa relação de mutualismo e de simbiose, do que propriamente numa postura sobranceira. Há uma série de movimentos e estudos ecocríticos que nos permitem outras formas de nos relacionarmos a nível intelectual e físico com a paisagem, a ecologia e o mundo vegetal. Ecopensamento traz Michael Marder e Yayo Herrero, que nos vão falar sobre que novas relações podemos ter para gerarmos uma educação vegetal. Para além das conferências, também somos levados para a criação de uma partilha de conhecimento literário e por isso pensamos um percurso pelos jardins orientado pelo Círculo de Leitoras Peripatéticas. Em Especulações Botânicas, convidamos um conjunto de artistas, para desenhar e cartografar um percurso, em que cada um deles irá criar uma relação com os participantes e de todos com os jardins. A proposta feita ao Uriel Orlow será talvez a mais desafiante: fazer uma residência, para desenhar um workshop a partir dos Jardins do Palácio, e do papel político, histórico e curativo das plantas. Vai ser uma “Assembleia” em julho e em outubro, com os mesmos participantes e que implica a realização de um projeto individual. O resto dos percursos vai ser com a Carla Filipe e o trabalho dela para a Bienal de São Paulo, a partir das ervas daninhas, e com os Von Calhau! pela prática performativa deste coletivo.

AM – O programa Um Elefante no Palácio de Cristal parte de um convite da GMP a três curadores e a um coletivo artístico para o desenvolvimento de um programa sobre a Primeira Exposição Colonial Portuguesa (1934) nos Jardins do Palácio de Cristal, através de três subtemas: Ética do Olhar e da Representação; Colonialismo, Capitalismo e Religião e Encenação do Império Colonial. De que forma conceberam esta linha temática e a relevância da reflexão acerca do contexto da Exposição Colonial, através do pensamento contemporâneo? E quais serão as atividades que irão refletir estas questões?

MS – Há um legado colonial muito concreto nos Jardins do Palácio e se nós estávamos a olhar o lugar onde está a GMP, enquanto paisagem, também tínhamos de ver melhor os acontecimentos históricos, portanto selecionámos este evento de 1934. Reunimos o Nuno Coelho, a Alexandra Balona e a Melissa Rodrigues, pelas suas investigações no design, ativismo político e curadorias, assim como o InterStruct Collective, importantíssimo pelas suas intervenções ativistas e artísticas nas marcas coloniais deixadas na cidade. A Ética do Olhar e da Representação propõe questionar como e de onde olhamos o outro e como é que se reflete sobre a literacia visual e deste tipo de exposições, como a Primeira Exposição Colonial Portuguesa. A questão do Colonialismo, Capitalismo e Religião incide sobre o facto de que há realmente políticas e economias coloniais, que ainda têm tendência a continuar e Encenação do Império Colonial, vem pensar o modo como analisamos as memórias coloniais e as reminiscências que nos ficam nos espaços urbanos, pelo meio de um workshop com a Bárbara Alves, para estudar o Monumento ao Esforço Colonizador Português, que aqui esteve em 1934 e que agora está na Praça do Império. Quando foi lançado este desafio aos curadores, também era importante incluirmos workshops com escolas e como tal, o artista Dori Nigro, a Gisela Casimiro, entre outros foram as nossas propostas. Por último, a Cristina Roldão vai nos falar sobre o racismo institucional e de conceitos, como lusotropicalismo, exotismo e privilégio do branco, a Ana Cristina Pereira fará uma análise sobre o cinema documental colonial e a Bambi Ceuppens, responsável pela mudança do Museu Leopold II para o Africa Museum em Bruxelas, um dos museus mais fortes a nível de museografia colonial, vai nos trazer um ponto de vista de intervenção fora do contexto português.

AM O programa Exodus pretende fazer um reconhecimento do tecido artístico local através de visitas guiadas a galerias, espaços de exposição e estúdios de artistas no Porto, por três percursos: Boavista–Baixa; Oriente–Campanhã e Baixa–Rio Douro. Como idealizaram este eixo temático? Como se irão articular as várias visitas, quem serão os guias e os espaços a visitar?

MS – Achamos importante criar um conjunto de visitas, com momentos em sala de aula, neste vai e vem discursivo do ping!, onde os jovens do ensino secundário e superior fossem fazer percursos para conhecer um atelier de artista, uma galeria de arte, ou os espaços de arte mais alternativos do Porto. Para o público em geral há cinco percursos Exodus com cinco guias. Só escolher estes nomes foi muito interessante, porque se por um lado temos o Francisco Babo e a Felícia Teixeira, que estão ligados a espaços alternativos, por outro temos a Maura Marvão e a Fátima Lambert, que têm uma maior proximidade à estrutura das galerias e dos colecionadores, assim como a Vera Carmo, que está entre a programação do Espaço Rampa e a criação de uma própria fanzine, A Mola. O que seria um programa apenas para as escolas passou também a ser para o público em geral. Organizamos geograficamente os itinerários e sabemos que o desejo da Maura Marvão é partir daqui da GMP e descer até ao rio, que o Francisco Babo e a Felícia Teixeira estarão nas suas zonas de ação, que a Vera Carmo pensou num programa entre os estúdios de artista e os espaços mais alternativos e a Fátima Lambert está com muita vontade de falar destas esculturas que foram sendo instaladas neste jardim para depois ir até Miguel Bombarda.

AM – Em última instância, de que modo consideram que será frutífero o engajamento da comunidade portuense em relação à arte e à cultura da cidade, assim como à GMP, através do ping!? Terá uma continuidade?

MS – Quero acreditar que vai haver continuidade, porque há toda uma política municipal, que tem apostado na cultura. Também acho que este tripé da Botânica, da Exposição Colonial de 1934 e do Tecido Artístico Local, está a ganhar forma e que não deve terminar ao fim de um ano. A Galeria já contava com a presença, muito interessante, de visitantes bastante novos e que estão envolvidos em coletivos artísticos, a fazer mestrados, ou antes ainda na decisão, ou indecisão se vão para artes. Muitos deles são depois os que se candidatam ao Criatório, ao Shuttle, e que participam nos Cursos Pláka. Quando definimos um programa, também determinámos os seus participantes. Este departamento de mediação é o que dá força a esta relação. Ser participante, também é ser alguém que se torna cúmplice. Perceber que a mediação, também estimula a criação artística, gera coletivos, é muito importante.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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